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«Quem experimentou o inferno, pode tornar-se profeta», diz papa Francisco

Imagem Papa Francisco abraça reclusa | Ciudad Juárez, México | 17.2.2016 | © Lusa

«Quem experimentou o inferno, pode tornar-se profeta», diz papa Francisco

É o encontro que não poderia faltar, com os presos. Pouco depois de chegar a Ciudad Juarez, o papa visitou o Centro de Readaptação Social Estatal n.º 3, onde cumprem pena cerca de três mil reclusos.

A prisão situada no norte do país, junto à fronteira com os EUA, faz parte de um projeto de requalificação das instituições penais do estado de Chihuahua que obteve uma acreditação pelo respeito das normas internacionais em matéria prisional.

A acolher Francisco estavam famílias dos detidos. Uma mulher, quando o papa se aproxima dela, separado pela barreira de segurança, abençoa-o, fazendo o sinal da cruz sobre a fronte e o coração do papa, como normalmente se faz com as crianças. Francisco abraça-a e também a abençoa.

O papa encontra depois os agentes e capelães da Pastoral das Prisões, e oferece um crucifixo de cristal: «Obrigado pelo bem que fazeis aqui, um bem que muitas vezes não se vê». «Encontram-se aqui situações de grande fragilidade. Quis levar a imagem do mais frágil, Cristo na cruz. Todavia, com ela Ele salva-nos, ajuda-nos, abre-nos a porta da esperança. Gostaria que cada um de vós, contemplando a fragilidade de Cristo, possa semear esperança e ressurreição».

Na capela do instituto 700 detidos assistem ao seu discurso. O papa saúda pessoalmente 50, mulheres e homens que se distinguiram pelo bom comportamento.

«Aqui é posta à prova a nossa fé, a nossa força interior», diz uma reclusa escolhida como representante para saudar o pontífice. «Partilhando este espaço somos todos iguais, assim somos iguais diante dos olhos de Deus.« «A sua presença, santidade, é um chamamento a todos aqueles que perderam a esperança da nossa reabilitação e àqueles que esqueceram que aqui estão seres humanos».

«Quando recebemos o veredito» - continuou -, «o que fazemos é chorar. Sentimo-nos angustiados e desesperados. E fazemo-nos perguntas para as quais não queremos ter resposta: quando sairei? A minha família quer-me bem? Ter-me-ão esquecido? Sentimo-nos expostos, vulneráveis e sós.» «Devemos agir de maneira a que os nossos filhos não repitam a nossa história. O sorriso de minha filha» - e aqui a mulher comove-se - dá-me força para enfrentar os dias que tenho de passar na prisão. Mas nem tudo termina aqui. Há a presença de Deus na nossa vida. Vós, santidade, podeis contar com a oração de todos estes detidos».

O tema central da intervenção do papa é a misericórdia no ano jubilar, mas também uma «reinserção social» com início fora da prisão: «Quem sofreu profundamente a dor e, poderemos dizer, "experimentou o inferno", pode tornar-se um profeta na sociedade. Trabalhai para que esta sociedade que usa e deita fora não continue a fazer vítimas».

Francisco recorda que na sua viagem a África, na cidade de Bangui, abriu «a primeira Porta da Miseridórdia para o mundo inteiro» deste Jubileu, «porque a primeira porta da misericórdia abriu-a o nosso Pai com o seu filho Jesus».

«Hoje, junto a vós e convosco desejo reafirmar uma vez mais a confiança à qual Jesus nos encoraja: a misericórdia que abraça todos e em todos os cantos da Terra. Não há lugar onde a misericórdia» de Deus «não possa chegar, não há espaço nem pessoa que ela não possa tocar.»

O papa critica o sistema atual: «Já perdemos várias décadas pensando e acreditando que tudo se resolve isolando, separando, encarcerando, acreditando que estes meios resolvem verdadeiramente os problemas. Esquecemo-nos de nos concentrar naquela que realmente deve ser a nossa preocupação: a vida das pessoas, a vida das suas famílias, a vida daqueles que também sofreram por causa deste círculo vicioso da violência».

Eis porque «as prisões são um sintoma de como estamos como sociedade, em muitos casos são um sintoma de silêncios e omissões causados pela cultura do descarte. São um sintoma de uma cultura que deixou de apostar na vida; de uma sociedade que avançou abandonando os seus filhos».

A reinserção ou a reabilitação, afirma Francisco, «criando um sistema que poderemos chamar de saúde social, ou seja, uma sociedade que procura não ficar doente inquinando as relações nos bairros, nas escolas, nas praças, nas ruas, nas habitações, em todo o espetro social. Um sistema de saúde social que faça de modo a gerar uma cultura que seja eficaz e que procure prevenir aquelas situações, aqueles caminhos que acabam por ferir e deteriorar o tecido social».

Em vez disso, por vezes tem-se a sensação de que «as prisões propõem-se colocar as pessoas em condições de continuar a cometer delitos, mais do que a promover processos de reabilitação que permitam fazer frente aos problemas sociais, psicológicos e familiares que conduziram uma pessoa a um determinado comportamento. O problema da segurança não se resolve apenas encarcerando, mas é um apelo a intervir para enfrentar as causas estruturais e culturais da insegurança que atingem todo o tecido social».

A reinserção social, afirma o papa, «começa com a frequência da escola de todos os nossos filhos e com um trabalho digno para as suas famílias, criando espaços públicos para o tempo livre e a recriação, habilitando as instâncias de participação cívica, os serviços de saúde, o acesso aos serviços de base».

«Celebrar o Jubileu da Misericórdia convosco significa aprender a não permanecer prisioneiros do passado, do ontem. É aprender a abrir a porta ao futuro, ao amanhã: é acreditar que as coisas podem ser diferentes. Celebrar o Jubileu da Misericórdia convosco é convidar-vos a levantar a cabeça e a trabalhar para obter esse espaço de liberdade», sublinhou.

E de improviso, acrescentou: «Celebrar o Jubileu da Misericórdia convosco é repetir aquela frase que ouvimos recentemente e que eu disse com tanta força: "não te perguntes porque estás aqui, mas para quê"».

«Sabemos que não se pode voltar atrás, sabemos que o que foi feito está feito» - concluiu Francisco -; «por isso quis celebrar convosco o Jubileu da Misericórdia, pois aquilo não significa que não haja a possibilidade de escrever uma nova história de agora em diante. Vós sofreis a dor da queda (e mesmo todos nós» - acrescenta de improviso -«sofremos pelas quedas escondidas), sentis o arrependimento pelos vossos atos e eu sei que em muitos casos, entre grandes limitações, procurais reconstruir a vossa vida a partir da solidão.»

«Não esqueçais que tendes à disposição a força da ressurreição, a força da misericórdia divina que faz novas todas as coisas. Empenhai-vos desde aqui de dentro a dar a volta às situações que geram posteriores exclusões.»

Francisco acrescenta, sem olhar para o texto escrito: «Jesus disse: quem não tem pecados que atire a primeira pedra, e agora eu tenho de ir embora. Ao dizer-vos estas coisas não o faço do alto de uma cátedra, com o dedo apontado, mas na base dos meus próprios erros, dos meus pecados que o Senhor quis perdoar. Faço-o na consciência de que sem a sua graça e a minha vigilância poderei voltar a repeti-los. De cada vez que entro numa prisão, pergunto-me sempre: porquê eles e não eu? Este é o mistério da misericórdia divina».

Dirigindo-se aos funcionários, dirigentes, capelães e voluntários, o papa apelou: «Todos vós, não o esqueceis, podeis ser sinais das entranhas do Pai».

Antes da bênção, disse às pessoas detidas: «Peço-vos que esta oração possa ampliar o vosso coração e possa fazer-vos perdoar a sociedade que não soube ajudar-vos e muitas vezes vos impeliu a cometer erros».

Alguns reclusos prepararam, como presente para Francisco, um báculo de madeira de 190 cm de altura coroado por um crucifixo no topo, que pode ser dividido em quatro partes. Outros detidos organizaram uma pequena orquestra denominada "Livres na Música" para oferecer a Francisco um pequeno apontamento musical.

Após a visita à prisão, o papa teve um encontro com «o mundo do trabalho», e à tarde preside à missa em Ciudad Juárez. A cerimónia de despedida, no aeroporto da cidade, está apontada para as 19h00 (2h00 da madrugada em Portugal continental). A agenda prevê para as 13h45 (hora de Portugal continental) de quinta-feira a chegada a Roma.

 

Andrea Tornielli/Vatican Insider; Rádio Vaticano
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 17.02.2016

 

 
Imagem Papa Francisco abraça reclusa | Ciudad Juárez, México | 17.2.2016 | © Lusa
«Devemos agir de maneira a que os nossos filhos não repitam a nossa história. O sorriso de minha filha» - e aqui a mulher comove-se - dá-me força para enfrentar os dias que tenho de passar na prisão. Mas nem tudo termina aqui. Há a presença de Deus na nossa vida. Vós, santidade, podeis contar com a oração de todos estes detidos»
«Hoje, junto a vós e convosco desejo reafirmar uma vez mais a confiança à qual Jesus nos encoraja: a misericórdia que abraça todos e em todos os cantos da Terra. Não há lugar onde a misericórdia» de Deus «não possa chegar, não há espaço nem pessoa que ela não possa tocar»
«Celebrar o Jubileu da Misericórdia convosco significa aprender a não permanecer prisioneiros do passado, do ontem. É aprender a abrir a porta ao futuro, ao amanhã: é acreditar que as coisas podem ser diferentes. Celebrar o Jubileu da Misericórdia convosco é convidar-vos a levantar a cabeça e a trabalhar para obter esse espaço de liberdade»
«Sabemos que não se pode voltar atrás, sabemos que o que foi feito está feito» - concluiu Francisco -; «por isso quis celebrar convosco o Jubileu da Misericórdia, pois aquilo não significa que não haja a possibilidade de escrever uma nova história de agora em diante»
«Ao dizer-vos estas coisas não o faço do alto de uma cátedra, com o dedo apontado, mas na base dos meus próprios erros, dos meus pecados que o Senhor quis perdoar. Faço-o na consciência de que sem a sua graça e a minha vigilância poderei voltar a repeti-los. De cada vez que entro numa prisão, pergunto-me sempre: porquê eles e não eu?»
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