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Quem abraça a cultura abraça a liberdade, democracia e diversidade

Imagem D.R.

Quem abraça a cultura abraça a liberdade, democracia e diversidade

O presidente do Centro Nacional de Cultura (CNC), Guilherme d'Oliveira Martins, considera que o «medo da cultura» está associado ao temor da liberdade, democracia e diversidade.

«É mesmo de medo da cultura que falamos, como conhecimento, como transformação da natureza, como letras, artes, ideias, como educação e ciência», explica em artigo publicado na página da instituição a que preside.

Para Guilherme d'Oliveira Martins, «a cultura começa exatamente quando as pessoas têm de cuidar do valor de tudo o que as rodeia, muito para além do preço, que não compra nem a honra nem a dignidade que são matéria-prima da cultura».

«Muita da indiferença ou da ilusão vivida e alimentada se deve à tentação de pensar que há modelos, receitas, determinações, necessidades ou fatalismos – ou que o mundo pode ser concebido sem diferenças ou sem a força da liberdade das pessoas», defende o jurado do Prémio Árvore da Vida - Padre Manuel Antunes, que a Igreja católica em Portugal atribui anualmente.

O autor cita o poeta T.S. Eliot quando se refere à «compreensão das diferenças e complementaridades: "Precisamos de variedade na unidade: não a unidade da organização, mas a unidade da natureza". Esta a grande questão que importa considerar».

«A cultura leva-nos a ter de perceber que a identidade e a diferença se completam, a tal ponto que, fechando-se uma cultura sobre si mesma, torna-se depressiva e decadente, recordatória, mas incapaz de avançar, ficando cega à memória e ao entendimento dos outros», salienta o texto.

Por isso, prossegue Guilherme d'Oliveira Martins, «quem tem medo da cultura é quem baixa os braços perante a força avassaladora do imediato, da simplificação e da indiferença», ignorando que «os cérebros mal preparados vergam sob a diversidade de conhecimentos», como escreveu Marguerite Yourcenar.

«Quem se deixa vencer por esse medo atávico, verifica para mal dos seus pecados que se tudo começa na cultura, segue rapidamente para a economia humana, porque o que verdadeiramente importa é saber se a vida das pessoas é fim ou é meio», aponta.

Centrando-se na questão do «empobrecimento da cultura e das humanidades», o autor critica a ideia de que «a especialização tem como preço a superficialidade de uma pobre "cultura geral"».

Segundo o presidente do CNC, a história tem demonstrado «o domínio perigoso da opinião infundada, vaga e passageira, obrigando ao conhecimento, à compreensão de saberes e ao abrir de horizontes através da criatividade do espírito».

«Montaigne falava, por isso, da necessidade de uma cabeça bem feita, em vez de uma cabeça bem cheia – e Edgar Morin ao invocar a necessidade do conceito de complexidade vem pôr em realce a compreensão do que nos rodeia por um conhecimento cada vez mais exigente», acrescenta.

«A desvalorização das humanidades mais não representa do que a cedência perante a facilidade e a fragmentação dos saberes. O tempo curto ganha ao tempo longo – e as aparências prevalecem sobre a substância», defende.

Guilherme d'Oliveira Martins lembra que «o bom domínio da língua e das línguas, as ideias claras e distintas, a nitidez e a organização do pensamento (como sinal de respeito e cidadania) como na «paideia» grega, a perceção de que a cultura não se confunde com jogos florais, a ligação necessária entre educação, ciência e cultura, a articulação entre cultura literária e científica, o «esprit de finesse» e o espírito geométrico» são indicadores de que «a ameaça à cultura vem da facilidade, do autocomprazimento e da mediocridade».

«Comparar, relacionar, avaliar, antecipar, ter visão panorâmica dos problemas, entender o contexto e o conjunto, reconhecer a identidade humana, aceitar os limites, saber afrontar o inesperado e o incerto, desenvolver uma ética do género humano respeitadora da singularidade, da sociabilidade e da humanidade – eis o que não pode ser esquecido», frisa.

Depois de citar João Guimarães Rosa - «vivendo se aprende; mas o que se aprende mais é só a fazer outras maiores perguntas», Guilherme d'Oliveira Martins vinca que não é possível «sem os outros» - o presente e o passado - «produzir obras excelentes que assinalem uma civilização superior».

«Mais humanidade e humanidades exigem menos desigualdades, melhor serviço público, sobriedade no uso dos recursos, sustentabilidade social e humana, diferenciação positiva com salvaguarda dos mais débeis de recursos», refere o também presidente do Tribunal de Contas.

A «resposta com resultados positivos» a este desafio só se concretizará «se a democracia se fortalecer pela iniciativa dos cidadãos e pela ponderação das responsabilidades, se o poder político legítimo prevalecer sobre os poderes económicos e a especulação» e se «ao vazio de valores» for contraposta «uma ética de cidadania, aliada à qualidade na educação, formação, ciência e cultura».

«A defesa das humanidades tem de corresponder à recusa da facilidade e do novo-riquismo e ao apelo à vontade e à criação. Como poderemos defender a cultura que nos foi legada sem mobilização dos cidadãos e sem democratização do Estado? Quem tem medo da cultura é, afinal, quem tem medo da liberdade e da democracia», conclui Guilherme d'Oliveira Martins.

 

Edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 23.03.2015

 

 

 
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A cultura leva-nos a ter de perceber que a identidade e a diferença se completam, a tal ponto que, fechando-se uma cultura sobre si mesma, torna-se depressiva e decadente, recordatória, mas incapaz de avançar, ficando cega à memória e ao entendimento dos outros
A desvalorização das humanidades mais não representa do que a cedência perante a facilidade e a fragmentação dos saberes. O tempo curto ganha ao tempo longo – e as aparências prevalecem sobre a substância
Mais humanidade e humanidades exigem menos desigualdades, melhor serviço público, sobriedade no uso dos recursos, sustentabilidade social e humana, diferenciação positiva com salvaguarda dos mais débeis de recursos
A defesa das humanidades tem de corresponder à recusa da facilidade e do novo-riquismo e ao apelo à vontade e à criação. Como poderemos defender a cultura que nos foi legada sem mobilização dos cidadãos e sem democratização do Estado?
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