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«Que terrível seria o mundo sem diálogo nem oração»: Começou encontro de Assis pela paz

Imagem "Sede de paz: religiões e culturas em diálogo": sessão inaugural | 18.9.2016 | Assis, Itália | D.R.

«Que terrível seria o mundo sem diálogo nem oração»: Começou encontro de Assis pela paz

Muitos perguntam se os encontros entre líderes e responsáveis religiosos servem de alguma coisa para alcançar a paz, tendo em conta que não cessam a guerra e a violência: para os milhares de participantes esperados na iniciativa "Sede de paz: religiões e culturas em diálogo", que começou este domingo, em Assis, e que no último dia, terça-feira, conta com a presença do papa Francisco, a resposta é clara: sim.

«Muitas vezes, perante os atos terroristas, perante os conflitos, ouvimos dizer: mas de que serve o vosso diálogo? Poder-se-ia dizer: de que serve a vossa oração? Que vazio estaria o mundo. Que terrível seria o mundo sem diálogo nem oração. A oração ilumina de forma secreta o mundo, enquanto o diálogo mantém unida a realidade que corre sempre o risco de se fragmentar em ódios e compreensões.»

Estas palavras foram proferidas pelo historiador e fundador da Comunidade de Santo Egídio, Andrea Riccardi, na sessão de abertura da iniciativa que assinala os 30 anos da oração inter-religiosa pela paz realizada em Assis por iniciativa do papa S. João Paulo II, e na qual são esperados cinco personalidades distinguidas com o prémio Nobel da paz e cerca de 500 líderes religiosos. De Portugal está presente o padre José Tolentino Mendonça, que intervém num dos 29 painéis agendados.

«Encontrar aqui, em Assis, tantas personalidades religiosas, humanistas, crentes de diferentes religiões, é para mim uma grande emoção e uma satisfação. Recordo, há 30 anos, quando se desenhou sobre o horizonte da cidade de S. Francisco uma intuição tão simples como profunda: que as religiões estivessem juntas para fazer frente ao desafio da paz ante o mundo. Não era algo adquirido. Não o é muito menos hoje, quando o totalitarismo religioso se converte em violência e terrorismo», afirmou Riccardi.

Tratou-se, prosseguiu o responsável diante de uma mesa que incluiu o Presidente da República italiana, de «um acontecimento simples mas novo: rezar pela paz, já não uns contra outros, como aconteceu durante séculos, quiçá durante milénios. João Paulo II convidou a Assis os líderes das religiões do mundo naquele 27 de outubro de 1986. Recordo Assis naquele, frio e ventoso, mas invadido de luz. Dava a sensação de uma jornada histórica».

«Não se falou nem debateu. Rezou-se somente com uma atitude pacificada: uns junto aos outros pela paz. Foi uma imagem inédita, quase um ícone moderno: os líderes religiosos, com a variedade das suas vestes tradicionais, reunidos. Essa imagem tinha uma beleza, quase uma estética do diálogo», declarou o historiador, que esteve em Portugal no mês de maio.

Depois de recordar que, por desejo de S. João Paulo II os encontros continuaram anualmente desde então, Riccardi frisou que «o diálogo é a inteligência da coabitação: uma arte necessária num universo feito de religiões, culturas e civilizações diferentes. Não uma única civilização, mas a maior civilização: a civilização do viver juntos. Aqui leigos e crentes encontram-se. Como disse o presidente francês, saudando um grande amigo desaparecido, Emile Poulat: "A laicidade não é uma doutrina nem um dogma, nem sequer é a religião dos que não têm religião. Mas é a arte de viver juntos"».

«Em todos estes anos, muitos mundos religiosos converteram-se em espaços do culto ao diálogo e ao viver juntos. Dizia um estudioso das religiões, grande companheiro do nosso caminho, Pietro Rossano: "Toda a religião, quando expressa o melhor de si, tende para a paz. Somos conscientes de que a religião em si mesma é uma força débil. É alheia às armas, ao dinheiro, ao poder político... Mas possui a força do espírito que pode torná-la forte, invencível e finalmente vitoriosa". É a força do espírito que conduz a viver juntos em paz. Tudo isto confirma-nos a necessidade de que todos tenhamos uma maior coragem em criar um movimento de paz», sublinhou Andrea Riccardi.

Para a vice-presidente da Comunidade de Santo Egídio, instituição que com a diocese de Assis e a Família Franciscana organiza esta iniciativa, «o caminho comum» percorrido nas últimas três décadas «de encontro e diálogo gerou muitas pazes locais - como se viu recentemente no processo de reconciliação da República Centro-Africana», cujo presidente marcou presença na sessão inaugural.

«O "Espírito de Assis", feito de «escutar, descobrir, de dialogar» é «um fruto maduro, um património» que «libertou os recursos de paz que nidificam em todas as religiões e confrontou-as com a sede de paz que vive em todos os povos e em todos os seres humanos, mais além da sua pertença religiosa ou filosófica», assinalou Hulde Kieboom.

O papa Francisco apelou este domingo aos católicos para rezarem pela paz na próxima terça-feira.

 

Rui Jorge Martins
Publicado em 20.09.2016

 

 

 
Imagem "Sede de paz: religiões e culturas em diálogo": sessão inaugural | 18.9.2016 | Assis, Itália | D.R.
Tratou-se de «um acontecimento simples mas novo: rezar pela paz, já não uns contra outros, como aconteceu durante séculos, quiçá durante milénios. João Paulo II convidou a Assis os líderes das religiões do mundo naquele 27 de outubro de 1986. Recordo Assis naquele, frio e ventoso, mas invadido de luz»
«Aqui leigos e crentes encontram-se. Como disse o presidente francês, saudando um grande amigo desaparecido, Emile Poulat: "A laicidade não é uma doutrina nem um dogma, nem sequer é a religião dos que não têm religião. Mas é a arte de viver juntos"»
«Toda a religião, quando expressa o melhor de si, tende para a paz. Somos conscientes de que a religião em si mesma é uma força débil. É alheia às armas, ao dinheiro, ao poder político... Mas possui a força do espírito que pode torná-la forte, invencível e finalmente vitoriosa»
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