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Que esperamos, afinal, da Arte?

Imagem Maria Helena Vieira da Silva | Bibliothèque (det.) | Musée National d’Art Moderne, Paris, França | D.R.

Que esperamos, afinal, da Arte?

Porventura todos lembramos, assombrados e deslumbrados, a abertura torrencial de "O Arco e a Lira", em que Octavio Paz ironicamente inviabiliza qualquer definição, tranquilizante mas redutora, da natureza (e das funções) da Poesia (da Literatura, da Arte) através da acumulação eloquente de proposições assertivas e antinómicas («Poesia é…» inspiração / artifício, jogo / ritual, evasão / compromisso, prece / negação, etc.).

Quanto aí está do muito que julgamos saber sobre o que seja a Arte!...E, todavia, sobrevém a inquietação de que algo mais, que não quereríamos permanecesse inefável, nos acena para além de tudo isso e nos move à interrogação: o que é que antropologicamente se visa no assédio à experiência artística? O que é que antropologicamente continua a cativar-nos e a questionar-nos no fascínio apelativo da Arte?

Então ressalta esta mais particular questão: porque é que, num gesto quase paradoxal, colocamos na Arte - prática simbólica que se distingue justamente pelo potencial plurissignificativo e pela indeterminação semântica – as nossas esperanças de consumarmos a busca do Sentido que na pragmática existencial parece ter desaparecido ou ter-se ocultado e, em todo o caso, nos falta?

Que esperamos, afinal, da Arte? Que, traduzindo à sua maneira peculiar a erosão do Sentido, nos torne suportável esse abandono? Que nos propicie a evasão ou nos proporcione a compensação perante a inerradicável ansiedade escatológica? Que se cumpra apenas na fronteira da questão ontológica ou no gume angustiante da condição humana? 

É, pois, natural, é indispensável que uma instituição como a Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva nos convoque para conferirmos ideias sobre o espírito (enquanto "ethos" próprio e distintivo) das artes ou da Arte. É natural, também, e é imprescindível que uma entidade como o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura se associe a tal convocação, pretendendo estender a reflexão em diálogo até à relação da Arte não só com a fenomenologia do Espírito humano (que de Hegel a Pessoa se nos impõe com primazia), mas também com outra ordem de Espírito – "Anima Mundi" ou "Verbum Dei", de qualquer modo mais conotado com o Sagrado, ou mais fundador da experiência religiosa.

Daí emerge a pergunta: há uma poética da espiritualidade, como tantas obras de arte nos sugerem? Ruskin disse que sim, falando de uma coisa; Kandinsky disse que sim, falando de outra coisa… A tradição estética e doutrinária inspirada pelo Cristianismo fala de uma "via pulchritudinis" como meio privilegiado de acedermos a um viver mais alto – em Verdade e em Bondade…

Que poética da espiritualidade?

 

José Carlos Seabra Pereira
Abertura do ciclo de debates "Espírito da Arte & Arte do Espírito"
Museu Arpad Szenes-Vieira da Silva, Lisboa, 5.11.2015
Publicado em 18.11.2015

 

 
Imagem Maria Helena Vieira da Silva | Bibliothèque (det.) | Musée National d’Art Moderne, Paris, França | D.R.
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