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Quantos matrimónios celebrados pela Igreja serão válidos?, pergunta papa, que pede acolhimento a quem vive junto sem se casar

Advogados aproveitadores e casamentos de reparação, casais que coabitam e jovens que se casam sem entender o que estão efetivamente a fazer. Francisco entra no coração das «fragilidades» que muitas vezes tocam as famílias, especialmente as jovens, e tirando partido da sua experiência pessoal como pároco, bispo e papa, oferece «indicações» precisas a sacerdotes, diáconos, casais e leigos ativos na pastoral do Matrimónio. Cerca de 850 pessoas reuniram-se na basílica de S. João de Latrão, em Roma, para o curso sobre "Matrimónio e Família" organizado, de 24 a 26 de setembro, pela diocese da capital italiana e pelo Tribunal da Rota Romana.

Encontrando-os na tarde desta quinta-feira, o papa volta ao tema da nulidade matrimonial e, com o pensamento fixo em todos os cônjuges que «experimentam sérios problemas na sua relação e se encontram em crise», pede aos padres que escutem e acompanhem sem, todavia, cair no «complexo da omnipotência».

Em particular, o papa adverte para o «perigo» dos advogados que nessas situações de crise só pensam apenas no lucro que podem ter. «É preciso defender os casais das mãos de alguns advogados», diz, afastando-se do discurso escrito. «Quero confessar-vos uma coisa. Quando o decreto sobre o processo de casamento foi promulgado [o “Motu proprio" “Mitis iudex Dominus Iesus”, publicado em setembro de 2015, que reforma o processo canónico para as causas da declaração de nulidade matrimonial], recebi muitas cartas e reclamações. Mais de 90% eram advogados. A gratuidade é muito importante».



«Uma vez uma mulher disse-me: “Vós, os padres, sois espertos. Estudais oito anos, e depois se algo estiver errado pedis a demissão do estado clerical, fazeis uma vida nova e casais-vos. E a nós, que fazemos um sacramento para toda a vida, dizeis-nos que nos arranjemos com quatro conferências”»



A esse respeito, Francesco conta um episódio: «Recordo um caso de uma diocese sufragânea, dois meses após a promulgação do “Motu próprio”. Liguei para o bispo e disse-lhe: "Tenho este caso de um segundo casamento. Ela casou-se antes porque estava grávida e o que é o senhor fez? " "Procurei um padre perito em direito canónico e um defensor do vínculo. As testemunhas e até os parentes disseram que a mulher foi obrigada. Que devo fazer?” "Tem uma caneta à mão? Assine. Não telefone para o advogado". Por isso louvo o trabalho do advogado da Rota e dos seus colaboradores por esta gratuidade dos processos».

A seguir, Francisco reflete sobre outra questão: a dos matrimónios contraídos «à pressa», conhecidos como «reparadores» porque a esposa está grávida antes da boda. «Na minha primeira diocese havia esse hábito cultural, agora mudou. Há 15 anos fazia-se o matrimónio à pressa», diz. «Vinha o bebé e tinha de salvar-se a dignidade da filha face à sociedade. Mas depois nasciam todos prematuros e com poucos quilos. Proibi fazerem-se matrimónios à pressa».

«Continue-se o noivado, que venha a criança, deixem passar tempo», afirma o papa. «Fi-lo inclusive com pessoas da minha família. Não ter medo de dizer não quando se vê que não têm fé. Uma vez uma mulher disse-me: “Vós, os padres, sois espertos. Estudais oito anos, e depois se algo estiver errado pedis a demissão do estado clerical, fazeis uma vida nova e casais-vos. E a nós, que fazemos um sacramento para toda a vida, dizeis-nos que nos arranjemos com quatro conferências”» [reuniões de preparação para o Matrimónio].

Esta é uma verdadeira «injustiça», sublinha o papa, que exorta os padres a «trabalhar no catecumenato matrimonial», mas sempre com uma «equipa de leigos», inclusive «casais casados com experiência familiar consolidada e especialistas em disciplinas psicológicas». «“Mas eles são leigos?” Sim, conhecem o casamento melhor que vós», assinala.



Francisco reitera o desejo de que «o horizonte da pastoral familiar diocesana seja cada vez mais vasto, assumindo o estilo próprio do Evangelho, encontrando e acolhendo também esses jovens que optam por conviver sem se casarem». «É um escândalo que o papa diga isto»



E muitas vezes basta apenas a escuta para salvar um casamento. «Quando os problemas surgem, as coisas que não funcionam... a noiva, o marido... Escutá-los mas fazer propostas concretas», propõe Francesco, sempre de improviso. «É preciso que haja um grupo de ajuda. Nós, padres, não o podemos fazer sozinhos. Um padre contou-me, há pouco tempo, que foi ter com ele uma mulher casada há dois anos, sem filhos, e disse cobras e lagartos do marido: "Amanhã vamos ao tribunal apresentar o pedido de divórcio". Meia hora depois chegou o marido e fez o mesmo. “O senhor pode dizer isso à sua esposa?", perguntou o padre. E chamou a mulher. Disseram coisas um ao outro e quando acabaram, abraçaram-se. Precisavam de um ouvido. "Quereis continuar?" "Sim”».

Na mesma ótica, o papa recorda aquela que é a primeira e suprema lei da Igreja, a salvação das almas, em virtude da qual «aqueles que se aperceberem do facto de que a sua união não é um verdadeiro matrimónio sacramental e querem sair dessa situação», devem poder «encontrar nos bispos, sacerdotes e agentes pastorais o apoio necessário, que se exprime não só na comunicação de normas jurídicas, mas antes de tudo numa atitude de escuta e compreensão».

Um «instrumento válido» é precisamente o “Motu próprio” que «pede para ser aplicado concretamente e indiscriminadamente por todos, em cada nível eclesial», salienta Francesco. Que recorda os ensinamento dos predecessores, João Paulo II em particular, sobre os temas do matrimônio e da família, e a sua “Amoris laetitia”, que colocou no centro «a urgência de um sério caminho de preparação para o matrimónio cristão, que não se reduza a poucos encontros». Porque «o matrimónio não é apenas um acontecimento “social", mas um verdadeiro sacramento que envolve uma preparação adequada e uma celebração consciente», observa. «O vínculo matrimonial, com efeito, requer da parte dos noivos uma opção consciente, que se concentra na vontade de construir juntos algo que nunca deverá ser traído ou abandonado».



Francisco conta um episódio que lhe sucedeu quando, ainda pároco, celebrava uma missa de Pentecostes com crianças e perguntou: «Quem de vós sabe quem é o Espírito Santo?». «O “paralítico”», respondeu um dos pequenos. «Tinha ouvido paráclito mas percebeu paralítico. É o mesmo… Pergunto-me quantos destes casais sabem quem é o Espírito Santo e o que faz o Espírito Santo»



«Muitas vezes pergunto-me quantos destes matrimónios que celebramos são válidos. Por falta de fé», acrescenta de improviso. «Creem na Trindade, na Nossa Senhora, nos santos, mas sabem o que estão a fazer por toda a vida, e não enquanto o amor dura? Esta pergunta fê-la também Bento XVI em três intervenções», observou.

Francisco conta um episódio que lhe sucedeu quando, ainda pároco, celebrava uma missa de Pentecostes com cerca de 150 crianças e perguntou: «Quem de vós sabe quem é o Espírito Santo?». «O “paralítico”», respondeu um dos pequenos. «Tinha ouvido paráclito mas percebeu paralítico. É o mesmo… Pergunto-me quantos destes casais sabem quem é o Espírito Santo e o que faz o Espírito Santo». É preciso «oferecer aos noivos a possibilidade de participar em seminários e retiros de oração». Muitas vezes, prossegue, «a raiz última dos problemas» que emergem após a celebração do sacramento deve ser procurada «não só numa maturidade oculta e remota que explode imprevistamente, mas sobretudo na fragilidade da fé cristã e no ausente acompanhamento eclesial, na solidão em que são deixados habitualmente os novos cônjuges após a celebração».

«Só colocados diante do dia a dia da vida juntos, que chama os esposos a crescer num caminho de doação e sacrifício, alguns se dão conta de que não compreenderam plenamente o que tinham começado», explica o papa. E é assim que muitos esposos, especialmente os mais jovens, «se descobrem inadequados, especialmente se são confrontados com o alcance e o valor do matrimónio cristão, no que diz respeito às implicações concretas ligadas à indissolubilidade do vínculo, à abertura para transmitir o dom da vida e à fidelidade».

A proposta do papa é a de «um catecumenado permanente» para o sacramento do Matrimónio que compreenda «a preparação, a celebração e os primeiros tempos seguintes». Quanto mais esse caminho for «aprofundado e prolongado no tempo», mais os jovens casais «desenvolverão “anticorpos” para enfrentar os inevitáveis momentos de dificuldade e de cansaço da vida conjugal e familiar».

Por fim, uma palavra sobre os casais que vivem juntos e não optam pelo casamento. Como já tinha afirmado em fevereiro de 2017, Francisco reitera o desejo de que «o horizonte da pastoral familiar diocesana seja cada vez mais vasto, assumindo o estilo próprio do Evangelho, encontrando e acolhendo também esses jovens que optam por conviver sem se casarem». «É um escândalo que o papa diga isto», observa, de improviso, mas também a essas pessoas «é preciso testemunhar a beleza do Matrimónio».


 

Salvatore Cernuzio
Fonte: Vatican Insider
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Melnikof/Bigstock.com
Publicado em 28.09.2018

 

 
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