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«Quando nos convencemos de que o diálogo é possível, acontece algo sagrado»

Imagem Bartolomeu I | © EPA

«Quando nos convencemos de que o diálogo é possível, acontece algo sagrado»

Recordo que quando era jovem conheci o patriarca ecuménico Atenágoras, um líder extraordinário, com sensibilidade ecuménica, um homem alto, com olhos penetrantes e uma larga barba.

O patriarca Atenágoras era conhecido porque convidava as partes em dificuldade a encontrarem-se para poder resolver os seus conflitos; dizia-lhes: «Venham, olhemo-nos nos olhos e vejamos o que temos para nos dizer». Tinha compreendido que a paz é algo pessoal. Olhar-se um ao outro, honestamente, para compreender e cooperar é um conceito de importância vital em qualquer diálogo religioso que tenha o objetivo de estabelecer a tolerância e a paz no mundo.

Nos últimos anos todos temos sido testemunhas de mudanças construtivas e criativas na sociedade contemporânea, no sentido de uma maior abertura e integração com os outros credos e as minorias. Ao mesmo tempo, no mundo temos experimentado episódios de exclusão e violência contra os emigrantes e os refugiados. Se realmente temos sede de paz, temos de trabalhar sem dúvida pela paz. Por isso o Santo e Grande Concílio da Igreja Ortodoxa, declarou, na sua mensagem final: «Um diálogo inter-religioso sério ajuda de maneira significativa a fomentar a confiança recíproca, a paz e a reconciliação.

O motivo fundacional da abertura e do diálogo, em última instância, é que todos os seres humanos se encontram perante os mesmos desafios. O diálogo, portanto, leva pessoas provenientes de culturas distintas a sair do isolamento, preparando-as para um intercâmbio de respeito mútuo e de convivência.

Naturalmente, alguns têm convicções fortes - poderíamos dizer fundamentalistas - e sacrificariam a sua própria vida a mudar de opinião. Outros, desgraçadamente, chegariam inclusivamente a tirar a vida a vítimas inocentes para defender o seu ponto de vista. Por isso estamos obrigados a escutar com mais atenção, a "olharmos um para o outro" com amor e compaixão, a olharmos mais profundamente "nos olhos". De facto, na realidade estamos mais próximos uns dos outros do que estamos distantes ou somos diferentes.

Como é natural, não somos tão inocentes que afirmemos que se pode dar o diálogo sem riscos nem custos. Entrar em relação com outra pessoa, de cultura ou fé diferente, traz consigo a incerteza do resultado final. Não obstante, quando nos convencemos de que o diálogo é possível, acontece algo sagrado. Na vontade de abraçar o outro, mais além de todo o temor ou preconceito, a realidade de algo, ou de Alguém, que está mais além de nós mesmos, conquista-nos. Então damo-nos conta de que o diálogo tem benefícios que são muito superiores aos perigos.

Há séculos, um místico cristão declarava: «Conquista a paz interior e milhares à tua volta encontrarão a sua paz». De alguma forma o diálogo para a paz começa no nosso interior. Isso comporta, por seu lado, uma dimensão religiosa, que nunca se pode separar da paz sincera, tanto a nível local como a nível global. Enquanto comunidades religiosas e líderes espirituais devemos recordar constantemente às pessoas a responsabilidade e a obrigação de optar pela paz através do diálogo.

No entanto, conseguir o diálogo e a paz requer inverter por completo o que é norma para o mundo. Requer uma transformação dos valores que estão profundamente arraigados no nosso coração e na sociedade. A transformação em sentido espiritual é a nossa única esperança de romper o ciclo de violência e injustiça, porque a guerra e a paz são basicamente decisões humanas.

Isto significa que construir a paz é uma questão de decisão e de mudança individual e institucional. Começa no nosso interior e irradia-se para o exterior, primeiro a nível local e, a seguir, global. A paz requer por isso uma espécie de conversão interior ("metanoia") - uma mudança de políticas e de práticas. fazer a paz requer compromisso, coragem e sacrifício. Requer a vontade de se ser pessoas de diálogo e uma cultura da mudança.

É muito importante, por isso, que as comunidades de amor e de solidariedade, como hoje a de Santo Egídio, reúnam líderes religiosos e políticos, autoridades civis e representantes da sociedade para que partilhem a reflexão e a cooperação para encontrar respostas a um mundo que tem "sede de paz".

O que poderia ser mais oportuno para as três principais Igrejas cristãs (catolicismo, ortodoxia e protestantismo), bem como para as três comunidades de fé abraâmicas (judaísmo, cristianismo e islão) do que caminhar juntas e colaborar para o mesmo objetivo: aliviar o sofrimento de todos os homens e seguir o diálogo pela paz?

 

Bartolomeu I
Patriarca ecuménico de Constantinopla
Encontro "Sede de paz: religiões e culturas em diálogo", Assis, Itália, 18.9.2016
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 20.09.2016

 

 

 
Imagem Bartolomeu I | © EPA
Alguns têm convicções fortes - poderíamos dizer fundamentalistas - e sacrificariam a sua própria vida a mudar de opinião. Outros, desgraçadamente, chegariam inclusivamente a tirar a vida a vítimas inocentes para defender o seu ponto de vista. Por isso estamos obrigados a escutar com mais atenção, a "olharmos um para o outro" com amor e compaixão, a olharmos mais profundamente "nos olhos"
Conseguir o diálogo e a paz requer inverter por completo o que é norma para o mundo. Requer uma transformação dos valores que estão profundamente arraigados no nosso coração e na sociedade. A transformação em sentido espiritual é a nossa única esperança de romper o ciclo de violência e injustiça, porque a guerra e a paz são basicamente decisões humanas
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