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Quando Magritte evocava o anjo

Imagem Nostalgia do próprio país (det.) | René Magritte | 1940 | D.R.

Quando Magritte evocava o anjo

Anjos e demónios tornaram-se moda em várias seitas, esotéricas ou de extração "New Age", e isto é fonte contínua de confusão entre os fiéis. Por outro lado, algumas correntes teológicas tendem a reduzir o significado e o alcance da presença dos anjos, apesar de a fé católica os recordar em duas memórias (uma delas a 29 de setembro, arcanjos S. Miguel, S. Gabriel e S. Rafael, outra a 2 de outubro, Santos Anjos da Guarda). Já o texto bíblico, tanto no Primeiro como no Novo Testamento, cita-os continuamente.

Mas não só: uma oração educa cada criança a recorrer ao anjo custódio nas suas necessidades e tempos houve em que cantos e rimas guiavam os pequenos a confiar nesta presença invisível e reconfortante.

Um histórico filme natalício, "It's a wonderful life", traduzido em Portugal como "Do céu caiu uma estrela", de Frank Capra, conta a história de um homem que, à beira da bancarrota, pondera o suicídio. Um idoso, que se revelará depois ser o anjo da guarda, tenta desviá-lo do gesto extremo. Para o convencer, Clarence, o anjo, permite-lhe ver como seria o mundo se ele nunca tivesse existido, levando-o assim a descobrir o profundo valor daquela existência que ele queria suprimir.

Em resumo, do jogo infantil à longa-metragem clássica, é testemunhado o valor dos anjos e o modo genuíno de percecionar a sua presença e ajuda. Procurou-se prejudicar a sua memória, abusou-se da sua imagem, e todavia a figura dos anjos não é desvanecida sequer pela nossa desencantada sociedade positivista. O anjo aparece nas esquinas das ruas; surge em pinturas, é memória de devotas procissões; é encontrado sobre as colunas dos púlpitos e das igrejas, como antigas cariátides, figuras que sustentam arquitraves; aparece inclusivamente em alguns produtos de cozinha com títulos mediados pela fé, como, por exemplo, "pão dos anjos", "papo de anjo".

Nem sequer a arte do século XX passou sem eles: o extravagante Magritte (1898-1967) pintou um anjo de fraque junto de um misterioso leão. Uma antiga tradição assegura que cada nação tem um anjo da guarda pronto a intervir nos assuntos políticos, se invocado, como em Portugal, evocado a 10 de junho.

Magritte, ao escapar do seu país-natal, a Bélgica, em 1940, devido à invasão das tropas alemãs, confia, a seu modo, a pátria à proteção dos anjos. Ele mesmo conta que a obra, intitulada "O mal do próprio país" (ou "Nostalgia do próprio país") passa-se naqueles dias em que olhava para a sua nação a partir da fronteira francesa. A atmosfera de perigo é evidenciada pelo leão, apesar de sentado, olha o espetador com ar que não é de confiar. O anjo veste à maneira de Magritte e é talvez ele mesmo que, com a sua arte (capaz, com a oração, de evocar Deus), protege a Bélgica. Pouco tempo depois o panorama político europeu mudará repentinamente por causa da II Guerra Mundial. Por isso a obra faz pensar.

Perante as grandes mudanças em curso, perante os desafios que ameaçam o equilíbrio da sociedade, talvez devêssemos retomar o hábito de invocar o anjo do nosso país. Como Magritte poderemos repousar voltando as costas ao perigo só se uma saudável nostalgia do nosso país livre e seguro nos levar a erguer ao Céu uma oração. Aí, vigilante está, por ordem divina, o anjo da nossa nação.

 

Imagem"Nostalgia do próprio país" | René Magritte | 1940 | D.R.

 

Gloria Riva
In "Avvenire"
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 29.09.2016

 

 
Imagem "Nostalgia do próprio país" | René Magritte | 1940 | D.R.
Magritte, ao escapar do seu país-natal, a Bélgica, em 1940, devido à invasão das tropas alemãs, confia, a seu modo, a pátria à proteção dos anjos. Ele mesmo conta que a obra, intitulada "O mal do próprio país" (ou "Nostalgia do próprio país") passa-se naqueles dias em que olhava para a sua nação a partir da fronteira francesa
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