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Quando a palavra vale mais do que a esmola: Católicos escutaram relatos de solidão na cidade

Imagem Fotografia: Buturlia | D.R.

Quando a palavra vale mais do que a esmola: Católicos escutaram relatos de solidão na cidade

O combate à exclusão social só será efetivo quando houver atuação sobre os mecanismos que a produzem e que são gerados pela denominada sociedade inclusiva, considera o sociólogo José Machado Pais, para quem «a marginalidade é produzida a partir do centro».

O investigador-coordenador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa foi um dos intervenientes no primeiro encontro do ciclo "Escutar a cidade", que visa conhecer a reflexão sobre aspetos decisivos da sociedade por parte de quem vive no patriarcado de Lisboa mas não partilha a pertença eclesial.

O autor de mais de 20 estudos no domínio da cultura, juventude e exclusão, entre outros temas, dedicou a sua conferência à questão da «solidão na cidade», não a que é essencial a criadores para a produção das suas obras ou a que penetra no silêncio, mas aquela que «resulta de desencontros sociais», «a solidão sofrida».

«Podemos estar sós sem que estejamos em solidão, e podemos viver um sentimento de solidão quando não estamos sós», assinalou, numa intervenção pontuada por exemplos de casos reais.

O «sentimento da solidão» evolui no leito de «duas margens de variabilidade convergente - o relacionamento e isolamento» -, que «ladeiam o curso de vida independentemente da idade».

Por isso, prosseguiu, «a solidão pode ser vivida pelos adolescentes, quando vítimas de “bullying”, por mulheres, quando vítimas de violência conjugal, por desempregados de longa duração, por emigrantes com dificuldades de integração, ou por idosos carentes de apoio».

Detendo-se na população mais velha, José Machado Pais sublinhou que parte dela vive uma solidão «inquietante»: «Boa parte dos cadáveres que ficam nas morgues sem que ninguém os reclame são de idosos. Isto dá que pensar».

«Ao analisar a solidão dos moribundos», é manifesto como ela «decorre de um sentimento de exclusão relativamente à comunidade dos viventes»: se uma pessoa sentir que, «embora ainda viva, deixou de ter significado para os outros, então morre em solidão».

Antes, «os moribundos tinham, em casa, a proteção da família, eram visitados por familiares, vizinhos, amigos; hoje, morrer em casa começa também a querer significar morrer em solidão», vincou.

De acordo com o último censo da população portuguesa (2011), «cerca de 60% da população idosa vive só ou em companhia de outros idosos – alguns morrem literalmente em casa, abandonados», tendo muitas vezes como única companhia os seus animais de estimação.

A par da solidão, «os maus-tratos aos idosos são uma realidade preocupante na sociedade europeia», e de acordo com dados recentes, um em cada três inquiridos com mais de 65 anos já foi vítima de discriminação com base na idade.

Numa pesquisa que realizou em lares de idosos, José Machado Pais notou que muitos se queixavam da «falta de visitas», e mesmo os familiares mais próximos «só muito esporadicamente» iam ao seu encontro.

«Os apresentadores da televisão passam a constituir a sua família: falam-lhes diariamente, sorriem-lhes, dão-lhes notícias e novidades», apontou.

Por vezes, a solidão é mais acentuada quanto maior é a quantidade de memórias: «Alguns idosos olham para o passado, e nos balanços da existência lamentam os rumos que a vida tomou; uns, culpam o destino; outros, culpam-se a si próprios, desencadeando pensamentos sobre o que poderia ter ocorrido se não ocorresse o que ocorreu». Não raro, colocam a hipótese de suicídio.

A «perda do sentimento de pertença», um dos fatores associados à solidão e ao «desencanto com a vida», não atinge só os idosos: «Alguns anúncios de jornais dão-nos conta do desespero de quem procura algum tipo de conexão social».

E há quem procure «encontros ocasionais com prostitutas, não necessariamente para ter sexo, mas apenas para fugirem à solidão, para falarem, para desabafarem; assim se vão enganando consigo próprios, julgando enganar a solidão».

Também nas «trabalhadoras de sexo», entre as quais se incluem «existem casos dramáticos de solidão», fenómeno que afeta igualmente muitos que chegam à idade da reforma e as pessoas sem-abrigo, dois casos de quem José Machado Pais apresentou histórias reais.

«Sabemos como quebrar uma noz para dela extrair o miolo»; todavia, «é muito difícil chegar ao sentimento das pessoas, é muito complicado penetrar no interior dessa caixinha que leva o nome de alma, coração, mente», afirmou o investigador, antes de perguntar: «Qual a chave para decifrar o enigma da solidão?».

É preciso «sentir o olhar daqueles que, na sua solidão, são esquecidos, um olhar de escuta que saiba interpretar um silêncio», processo que «implica um método», «um olhar intrometido» naquilo que «normalmente se despreza», mas «também um olhar comprometido», isto é envolvido na «denúncia», que seja de «desocultação, de desvendamento, de escuta, de dádiva».

Dizia um mendigo dirigindo-se a José Machado Pais: «Às vezes vale mais uma palavra do que uma esmola, compreende?».

«Como quebrar a distância do desencontro? Dois caminhos possíveis: o das disposições individuais e o das disposições sociais. Individualmente, temos de criar predisposição de escuta, de abertura ao outro; socialmente, temos de pensar no reverso da solidão – a solidariedade social», declarou.

«A cidade, além de produtora de sociabilidades, é também espaço de segregação e exclusão social, mas o combate à exclusão social não será efetivo se não houver uma atuação sobre os mecanismos que produzem exclusão e que são gerados pela própria sociedade estabelecida, pela dita sociedade inclusiva», acentuou.

A terminar, José Machado Pais vincou que «a marginalidade é produzida a partir do centro» e que a exclusão social «é gerada pela sociedade dita inclusiva».

O encontro "Escutar a cidade", que se propõe contribuir para os trabalhos do sínodo do patriarcado de Lisboa, que decorre até 2016, contou também com as intervenções da professora catedrática Maria Benedicta Monteiro e do crítico literário António Guerreiro.

A próxima sessão, marcada para 12 de fevereiro, no Fórum Lisboa, das 19h00 às 21h00, centra-se nas questões da política, participação e democracia, tendo como oradores o jornalista João Pacheco, o docente universitário Viriato Soromenho-Marques, a ex-deputada e socióloga Ana Drago, e a deputada socialista e presidente da Junta de Benfica, em Lisboa, Inês Drummond.

 

Rui Jorge Martins
Publicado em 19.01.2015

 

 

 
Imagem Fotografia: Buturlia | D.R.
A «perda do sentimento de pertença», um dos fatores associados à solidão e ao «desencanto com a vida», não atinge só os idosos: «Alguns anúncios de jornais dão-nos conta do desespero de quem procura algum tipo de conexão social»
Sabemos como quebrar uma noz para dela extrair o miolo»; todavia, «é muito difícil chegar ao sentimento das pessoas, é muito complicado penetrar no interior dessa caixinha que leva o nome de alma, coração, mente
«Como quebrar a distância do desencontro? Dois caminhos possíveis: o das disposições individuais e o das disposições sociais. Individualmente, temos de criar predisposição de escuta, de abertura ao outro; socialmente, temos de pensar no reverso da solidão – a solidariedade social
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