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Quando Jesus liberta a mulher

Quando Jesus liberta a mulher

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Jesus foi para o monte das Oliveiras. Mas de manhã dirigiu-se de novo ao templo, e todo o povo ia até Ele; sentando-se, ensinava-os. Ora, os escribas e os fariseus levaram até Ele uma mulher surpreendida em adultério e, colocando-a no meio, dizem-lhe: «Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. Ora, Moisés, na Lei, mandou-nos lapidar mulheres como esta. E Tu, que nos dizes?». Diziam isto para o colocar à prova, para terem com que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, escrevia na terra com o dedo. Mas porque continuavam a interrogá-lo, ergueu-se e disse-lhes: «Quem de vós está sem pecado, seja o primeiro a lançar a pedra contra ela». E inclinando-se de novo, escrevia na terra. Mas eles, ouvido isto, saíram um por um, começando pelos mais velhos. Deixaram-no só, e a mulher estava lá no meio. Ora, Jesus, erguendo-se, disse-lhe: «Mulher, onde estão? Ninguém te condenou?». Disse ela: «Nenhum, Senhor». E Jesus disse: «Nem Eu te condeno. Vai, e de agora em diante não peques mais».

Este trecho conheceu uma sorte particularíssima, que atesta o seu carácter escandaloso e embaraçante: com efeito, foi censurado pela Igreja! Está ausente nos manuscritos mais antigos, é ignorado pelos padres latinos até ao século IV, durante cinco séculos não foi proclamado na liturgia e não há comentários sobre ele da parte dos padres gregos do primeiro milénio. No termo de um longo e trabalhado migrar entre os manuscritos foi inserido no Evangelho segundo João, depois do sétimo capítulo e antes do versículo 15 do oitavo. Não é uma cena insólita: muitas vezes os Evangelhos anotam que os adversários de Jesus tentam colocá-lo em contradição com a Lei de Deus, para o poder acusar de blasfémia, de desobediência ao Deus vivo.



É altamente significativo que só ela tenha sido capturada e levada diante de Jesus, enquanto o homem que cometeu adultério com ela, e segundo a Lei culpado como ela, não é nem imputado nem conduzido a juízo



A estes escribas e fariseus, na realidade, nada importava a mulher, para eles o importante era encontrar motivos de condenação contra Jesus: não queriam lapidar a adúltera, mas fazer lapidar Jesus! Estes homens religiosos irrompem no auditório de Jesus, levam até Ele uma mulher surpreendida em flagrante adultério, colocam-na no meio de todos e apressam-se a declarar: «Moisés, na Lei, mandou-nos lapidar mulheres como esta». Tal declaração parece formalmente inatacável, porque cita a Lei; a um olhar atento, porém, apercebe-se que o seu recurso à Torá é parcial. A Lei, com efeito, previa a pena de morte para ambos os adúlteros e atestava a mesma pena mediante lapidação, enquanto que se fossem já casados se recorria ao estrangulamento. É, todavia, altamente significativo que só ela tenha sido capturada e levada diante de Jesus, enquanto o homem que cometeu adultério com ela, e segundo a Lei culpado como ela, não é nem imputado nem conduzido a juízo!

Procuremos permanecer por um momento junto desta cena. Alguns levaram a Jesus uma mulher, para que seja condenada. Mas Jesus começa a responder aos acusadores falando com o corpo, não com palavras: inclina-se, abaixando-se, rompe o círculo da «violência mimética» (René Girard), rompe o face a face com aqueles fariseus e mete-se a escrever na terra, em absoluto silêncio. Da posição de quem está sentado para à de quem se inclina para a terra; mais, deste modo inclina-se diante da mulher que está de pé em frente de si!



Jesus - permita-se-me dizer - "evangeliza" Deus, isto é, torna Deus Evangelho, boa notícia para aquela mulher. Jesus, o único homem que narrou Deus em plenitude, que dele foi o exegeta vivente, afirma que perante o pecador, a pecadora, Deus tem um só sentimento: não a condenação, não o castigo, mas o desejo que se converta e viva



Dado, no entanto, que os acusadores insistem em interrogá-lo, após aquele longo e para eles aborrecido silêncio preenchido apenas pelo seu mimo profético, Jesus ergue-se e não responde diretamente à questão que lhe foi posta, mas faz uma afirmação que contém em si também uma pergunta: «Quem de vós está sem pecado, lance em primeiro lugar a pedra contra ela». Depois inclina-se de novo e volta a escrever na terra. Assim uma palavra de Jesus, uma palavra só mas incisiva (ao ponto de se ter tornado proverbial) e autêntica, uma daquelas perguntas que nos sacodem e nos fazem ler a nós próprios em profundidade, impede aqueles homens de cometer violência em nome da Lei. Só Deus, e portanto só Jesus, poderia condenar aquela mulher.

Aqui Jesus - permita-se-me dizer - "evangeliza" Deus, isto é, torna Deus Evangelho, boa notícia para aquela mulher. Jesus, o único homem que narrou Deus em plenitude, que dele foi o exegeta vivente, afirma que perante o pecador, a pecadora, Deus tem um só sentimento: não a condenação, não o castigo, mas o desejo que se converta e viva. Jesus, enviado por Deus «não para condenar o mundo, mas para salvar o mundo», também aqui age como tinha anunciado no início do seu ministério: «Não vim chamar os justos, mas os pecadores».



As pessoas religiosas desejariam que neste ponto Jesus tivesse dito à mulher: «Examinaste-te? Sabes o que fizeste? Não compreendes a gravidade? Arrependeste-te da tua culpa? Detesta-la? Prometes que não voltas a fazê-lo? Estás disposta a sofrer a justa pena?». Estas omissões nas palavras de Jesus escandalizam ainda agora, hoje como ontem



Só quando todos se foram embora é que Ele se põe de pé e fica diante da mulher. Ela, posta ali em pé, no meio de todos. Agora é finalmente restituída à sua identidade de mulher e vê Jesus de pé diante de si: assim é possível o encontro verdadeiro. Por fim, Jesus conclui este encontro com uma afirmação extraordinária: «Também Eu não te condeno. Vai e de agora em diante não peques mais». São palavras absolutamente gratuitas e unilaterais. Eis a gratuidade daquela absolvição: Jesus não condena, porque Deus não condena, mas com este seu ato de misericórdia antecipado oferece àquela mulher a possibilidade de mudar. Não sabemos se esta mulher perdoada mudou de vida após o encontro com Jesus; sabemos só que, para que mudasse de vida e tornasse a viver, Deus, que não quer a morte do pecador, a perdoou através de Deus e enviou-a para a liberdade.

As pessoas religiosas desejariam que neste ponto Jesus tivesse dito à mulher: «Examinaste-te? Sabes o que fizeste? Não compreendes a gravidade? Arrependeste-te da tua culpa? Detesta-la? Prometes que não voltas a fazê-lo? Estás disposta a sofrer a justa pena?». Estas omissões nas palavras de Jesus escandalizam ainda agora, hoje como ontem! Nenhuma condenação, só misericórdia: aqui está a grandeza e a unicidade de Jesus. Este encontro entre Jesus e a mulher surpreendida em adultério não nos revela só a misericórdia de Jesus, mas também a sua capacidade de defender a mulher de um cerco de homens, sempre prontos a justificarem-se a si próprios e a condenar as mulheres. Infelizmente, toda a história dos crentes, da antiga como da nova Aliança, testemunhará este olho espião, exigente e condenador dos homens religiosos em relação às mulheres, vistas como culpadas pela sua condição - dizem os homens - de criaturas sempre tentadoras e fáceis para a tentação.

Este exemplo de Jesus será pouco compreendido e ainda menos vivido, mas no entanto será memorizado no Evangelho e haverá sempre leitores que nele encontrarão uma boa notícia.



 

Enzo Bianchi
Prior do Mosteiro de Bose, Itália
In "Gesù e le donne" (Einaudi) / Monastero di Bose
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 15.11.2016

 

 
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