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Quando Deus deixa de responder: A dolorosa experiência do esvaziamento espiritual

Ainda há dois anos, Solène era tão fervorosa que era quase intimidante. Tudo no seu olhar, na sua atitude, a escolha das suas palavras permitiam adivinhar a intensidade da sua relação com Deus. Com a humildade da evidência, este católica testemunhava no quotidiano - e talvez sem o perceber - uma fé viva, alegre, tão íntima como misteriosa. Uma existência que destoava um pouco da das jovens da sua idade, uma geração Y por vezes mais inclinada a experimentar as alegrias terrenas do que a apostar tudo no Céu.

Quando aos 30 anos decidiu, no início de 2017, deixar o seu confortável contrato sem termo em Paris para trabalhar na Ásia «ao serviço da Igreja», imaginava que essa escolha radical enriqueceria ainda mais a sua vida espiritual. «Tive a impressão de dar tudo para Deus, foi muito forte», diz ela hoje.

Mas mal passadas três semanas depois de chegar ao outro lado do mundo, mais nada. O vazio, implacável. Ela que tinha ganhado o hábito de ler o Evangelho duas vezes por dia não podia voltar a abri-lo sem um «esforço excessivo». Até mesmo recitar uma Ave-maria estava agora «acima das [suas] forças». E se Solène continuava a ir à missa no contexto do seu trabalho, «interiormente não havia nada».

Foi porque, ao trabalhar para a Igreja, a jovem estava agora a ver atrás da cortina? Foi a mudança de ambiente para o estrangeiro, com a liturgia numa língua desconhecida? Ou simplesmente uma nova etapa na sua fé - menos exaltação por mais maturidade? São hipóteses que Solène enumera sem saber o que pensar sobre elas. Tudo o que ela sabe é que de repente começou a «viver sobre uma memória»: a memória de uma fé passada, à qual tentava desesperadamente agarrar-se.



Se agora lhe parece impossível regressar à intensidade da sua vida espiritual de antes, ela sente todavia que a crise a levará a outra coisa, mesmo que não saiba o quê nem quando. «Enquanto espero, resta-me a fidelidade.»



Hoje, Solène ainda não sente a necessidade de rezar e diz-se «desconectada» de cada vez que vai à missa, mais concentrada na lista das compras do que no mistério da Eucaristia. Essa situação deixa-a muitas vezes nostálgica do seu fervor perdido e também a deixa com raiva: «Estás a rir-te aí no alto? Já passaram meses, já chega por agora, não?», diz ela com um humor pintado de amargura.

Noutros momentos a jovem é mais positiva, felicitando-se por todas as leituras feitas depois da crise «para se agarrar a alguma coisa»: Paul Claudel, Henri de Lubac ou o Antigo Testamento - mesmo que ela o leia mais como uma história do que como um texto sagrado.

Acreditará ela ainda em Deus? «A 100%!», responde sem hesitar. «Não diria que é Ele quem deixou de falar, é eu que deixei de sentir as coisas... Devo ter meus olhos fechados demais».

Apesar dos acontecimentos recentes, Solène diz que adquiriu ao longo dos anos uma certa «evidência» da fé, da qual não pode desfazer-se facilmente. Se agora lhe parece impossível regressar à intensidade da sua vida espiritual de antes, ela sente todavia que a crise a levará a outra coisa, mesmo que não saiba o quê nem quando. «Enquanto espero, resta-me a fidelidade.»



«Já não tenho verdadeiramente uma vida de oração, mas quando ela se apresenta, não a recuso. Se um salmo vem ao meu espírito, por exemplo, deixo-o habitar os meus pensamentos»



Philippe também não vê como poderia rejeitar totalmente algo que foi tão estrutural e fundamental para ele. «Restam sempre brasas, um solo», assegura quem já deixou de ter verdadeiramente um relacionamento pessoal com Deus, mas que não se sente desnudado de vida espiritual. Religioso durante sete anos, este jovem de ar sonhador atravessou uma grave crise psicológica e espiritual entre 2014 e 2016 - crise que o levou a abandonar definitivamente a sua congregação religiosa. «De companheiro, Deus tornou-se-me desconhecido», recorda. Quando deixa de se estar iluminado pela luz da fé, tudo se desmorona…».

Imerso na angústia - como aceitar que aquilo sobre o qual se comprometeu a vida deixou de fazer sentido? -, Philippe ficou desapontado com a reação dos seus superiores, que só liam o seu mal-estar interior através de referências bíblicas e extraídas da vida dos santos. «Comparavam-me a Jacob no deserto, a Madre Teresa na noite: parecia-me tão inadptado!»

Reconhece, no entanto, os «benefícios» espirituais desse doloroso período: «Quanto mais me afastava relacionalmente de Cristo, mais me sentia configurado com Ele no despojamento».

Dois anos passaram e Philippe parece pacificado. Se ainda tem muitas perguntas, já não espera resposta da parte de Deus. Um desapego que o torna talvez «mais autêntico» na sua relação com a transcendência. «Já não tenho verdadeiramente uma vida de oração, mas quando ela se apresenta, não a recuso. Se um salmo vem ao meu espírito, por exemplo, deixo-o habitar os meus pensamentos. Estou persuadido de que, por bem ou por mal, alguma coisa vive em mim, e que Deus certamente se manifesta».



«É certo, sentimo-nos muito pequenos quando atravessamos um deserto espiritual. Talvez Deus esteja simplesmente a procurar lembrar-nos de que somos seres humanos e a convidar-nos a permanecer sempre no presente das nossas vidas»



Fanny, uma artista de 28 anos, compartilha esta visão mais «gratuita» da relação com Deus, depois de ter atravessado por períodos de esvaziamento espiritual. «Na verdade, acho que é quando se quer que Deus diga alguma coisa de particular que Ele se afasta. Quando Deus deixa de responder, talvez seja porque temos uma ideia muito precisa da sua resposta…», afirma.

A jovem não esqueceu aquela noite de novembro de 2015, quando, ao pedir boleia entre Ardèche e Isère, esperou longas horas para que um carro parasse, antes de desistir e ir dormir num hotel à beira da estrada. «Esperei, esperei, e ninguém parou para mim! Em dado momento já não sabia o que mudar na minha atitude para que funcionasse, e deixei de ter ânimo para continuar.» Essa experiência ecoou o que estava a viver interiormente: a sensação de estar «parada», esquecida por um Deus que escapa e não se deixa reencontrar tão facilmente.

Sacudida por essa experiência, Fanny acabou por se reerguer para voltar a partir «mais humilde». «É certo, sentimo-nos muito pequenos quando atravessamos um deserto espiritual. Talvez Deus esteja simplesmente a procurar lembrar-nos de que somos seres humanos e a convidar-nos a permanecer sempre no presente das nossas vidas.»


 

Mélinée Le Priol
In La Croix
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Try Media/Bigstock.com
Publicado em 31.08.2018

 

 
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