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Cinema: "Pulp fiction" e o mistério do assassino que sonhava ser pastor

Pode discutir-se e objetar-se até que se queira, mas há filmes que marcam um ponto de viragem e "Pulp fiction", de Quentin Tarantino, é um deles. Dispara-se e morre-se nestas dias horas abundantes de cinema, circulam drogas e paira a vingança, mas o que mais impressiona o espetador é a dimensão da inexplicabilidade em que tudo acontece. Não estamos propriamente na presença do mistério entendido em sentido religioso, mas isso não diminui a sensação de que a história tem um nível oculto, tanto mais decisivo quanto mais parece impossível decifrá-lo.

Qual é, por exemplo, a força que impele o pugilista Butch Coolidge (interpretado por Bruce Willis) a refazer os seus passos apesar de saber que está a ser perseguido pelo submundo? Quer recuperar o relógio do pai, está certo, mas é evidente que não é o objeto em si que lhe interessa. É sobretudo o seu significado: a promessa de honra que, há distância de muitos anos, o impediu de aceitar a combinação imposta pelo patrão Marsellus Wallace (o ator Ving Rhames). No ringue Butch teria de ir ao tapete, e em vez disso teve um sobressalto de orgulho, que sabotou as apostas e poderia agora custar-lhe a vida. É por isso que esse relógio é tão importante para ele.

De uma maneira ou de outra, todos os personagens de "Pulp fiction" - que triunfou em Cannes em 1994 - aproximam-se ou cruzam um limiar inescrutável. É precisamente essa, afinal, a especialidade do inefável senhor Wolf, delineada por Harvey Keitel, alguém que «resolve problemas» porque vê algo que aos outros, isto é, a todos nós, escapa.



As palavras pronunciadas com solenidade têm apenas uma vaga semelhança com o trecho que Jules diz que aprendeu de cor (segundo ele seriam os versículo de Ezequiel 25, 17 ), mas isso não impede que a profecia aja profundamente na psicologia do personagem e no próprio enredo do filme



Tarantino é habilíssimo em arrastar-nos para uma narrativa cheia de armadilhas, que sempre passam despercebidas. Também o tempo em "Pulp fiction" decorre de forma imprevisível e encantadora, considerando que na cena final do filme encontramos ainda vivo um personagem cuja morte foi mostrada muito antes. Trata-se de Vincent Vega, de John Travolta, que em dupla com o não menos brutal e elegante Jules Winnfield, de Samuel L. Jackson, representa o núcleo de toda a construção.

Vincent e Jules movem-se sempre na crista entre a vida e a morte, entre perdição e salvação. Cabe ao primeiro, entre outras coisas, impedir que Mia Wallace, a bela esposa do temido líder (Uma Thurman numa das suas melhores interpretações), sucumba à overdose. E é sempre Vincent, como recordámos, a desfrutar da condição de redivivo concedida pela singular reviravolta do tempo vigente em "Pulp fiction".

No centro de tudo, porém, está Jules com a imprecisa e ameaçadora citação bíblica de que o sicário se serve para anunciar aos infelizes a iminente execução. As palavras pronunciadas com solenidade têm apenas uma vaga semelhança com o trecho que Jules diz que aprendeu de cor (segundo ele seriam os versículo de Ezequiel 25, 17 ), mas isso não impede que a profecia aja profundamente na psicologia do personagem e no próprio enredo do filme.

Entre um golpe de catana e um aceno aos anos 50, "Pulp fiction "é também a história de um homem que se interroga sobre a eventualidade de um milagre. Esse homem é Jules, precisamente, que o inexplicável força a medir-se com o seu destino de «ser um pastor», e a perguntar-se como é que «o nome do Senhor» ressoa tão poderosamente mesmo na desolação de um bar-restaurante tomado de assalto por ladrões ineptos.

Máxima expressão do pós-moderno, a obra-prima de Tarantino não se preocupa em responder, como também se guarda de nos revelar o cuidado para não revelar o ofuscante conteúdo da maleta roubada ao habitual Marsellus Wallace. Mas as perguntas permanecem e verdadeiramente nunca estão fora de campo.



 

Alessandro Zaccuri
In Avvenire
Trad.: SNPC
Imagem: "Pulp fiction" | Quentin Tarantino | D.R.
Publicado em 10.05.2018

 

 
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