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Leitura: “Psicologia da religião – Motivações e práticas”

«Quantos conflitos na relação pastoral poderiam ser evitados, se o pastor se desse conta dos mecanismos inconscientes que o motivam, ou motivam os seus fiéis. Como seriam mais eficazes os atos educativos do catequista ou do professor de religião, se eles tivessem a lucidez necessária para perceberem o que acontece nas zonas profundas e obscuras de si próprios e daqueles a quem se dirigem.»

É a partir desta convicção que o P. Miguel Ângelo Gomes desenvolve o livro “Psicologia da religião”, disciplina que «estuda os mecanismos psicológicos que estão na base dos comportamentos religiosos e que, frequentemente, escapam ao crente, uma vez que são motivados pela zona inconsciente da pessoa», explica o autor.

O sacerdote da arquidiocese de Braga cita Paolo Scquizzato para sublinhar a importância do autoconhecimento: «Não se pode percorrer o caminho de Deus sem antes termos percorrido o difícil caminho do conhecimento de si, do encontro com as próprias zonas de sombra (…) Ninguém se pode desembaraçar da própria humanidade, feita de sexualidade, agressividade, angústia e maldade, utilizando a meditação, os “belos pensamentos espirituais”».

«A Igreja, depois das reservas colocadas no início, acabou por aceitar aquilo que se foi comprovando cientificamente, a ponto de um padre conciliar ter afirmado no Concílio Vaticano II: “A descoberta de Freud [do inconsciente] é genial, tanto como a de Copérnico. Quer queiramos ou não, é necessário tomá-la em consideração, pois o inconsciente habita cada um de nós e condiciona todas as atividades humanas», assinala o autor.



«Não é só o psiquismo profundo do sujeito de evangelização que intervém no ato de evangelizar, mas também o do próprio educador. Torna-se, portanto, legítimo e necessário perguntar: qual é o terreno psicológico, em particular afetivo, em que se enraíza o nosso discurso?»



Para Miguel Ângelo Gomes, «o ato de anunciar Jesus Cristo, assim como o processo de conversão por parte do homem, dizem certamente respeito ao mundo da fé, mas inscrevem-se também num contexto sociocultural e psicológico próprios».

Nesse sentido, «um gesto ou uma imagem religiosa evocam no sujeito de educação, mil outros gestos ou imagens do passado não religioso, da infância ou adolescência. Para cada um, a palavra, a imagem ou o gesto têm uma riqueza pessoal muito variada, que favorece ou dificulta o acesso à fé. A psicologia do sujeito, sobretudo a psicologia profunda, dá um colorido específico a este solo, no qual a Palavra de Deus é lançada».

«Não é só o psiquismo profundo do sujeito de evangelização que intervém no ato de evangelizar, mas também o do próprio educador. Torna-se, portanto, legítimo e necessário perguntar: qual é o terreno psicológico, em particular afetivo, em que se enraíza o nosso discurso?», observa.

Com efeito, prossegue, «no ato de anunciar Jesus Cristo, verificam-se realidades que não dizem respeito aos conteúdos da fé ou à pedagogia utilizada, mas são a erupção do inconsciente e vêm condicionar e mesmo baralhar educador e educando».



«Não se pretende com este estudo dar uma visão global de toda a problemática da psicologia da religião, mas tendo em conta a sua origem, apresentar alguns temas de incidência mais pastoral»



O volume analisa igualmente o «discurso produzido no interior da Igreja, para discernir em que medida resulta da fé em Jesus Cristo, alimentada na sua Palavra, ou, pelo contrário, deriva sobretudo das forças inconscientes». E interpela: «Onde vamos buscar as nossas certezas? Onde está a fonte de informação que nos leva a falar de um modo e não de outro?».

“Psicologia e religião”, “Freud: A crítica radical da religião”, “Inconsciente e relação pastoral”, “A construção das imagens religiosas”, “O discurso religioso”, “Símbolos e ritos”, Transgressão, culpabilidade e reconciliação”; “Ateísmo, conversão e atitude religiosa”, Desenvolvimento psicológico e experiência religiosa”, “O educador confrontado à sua imagem – A provocação da adolescência” e “A experiência da morte na relação educativa” são os temas dos 11 capítulos.

O livro tem como base a cadeira de Psicologia da Religião, que o autor lecionou na Faculdade de Teologia da Universidade Católica (Braga), sendo «enriquecido com novos elementos, fruto de novas publicações».

«Não se pretende com este estudo dar uma visão global de toda a problemática da psicologia da religião, mas tendo em conta a sua origem, apresentar alguns temas de incidência mais pastoral, destinados prioritariamente àqueles que têm funções de liderança na Igreja, mas também aos leigos que desejem ter uma maior consciencialização das suas atitudes religiosas», assinala.


 

Rui Jorge Martins
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 28.09.2018

 

Título: Psicologia da religião - Motivações e práticas
Autor: Miguel ângelo Gomes
Editora: Olho de Lince (Rua de Cabo Verde, 14 - 4835-119 Guimarães)
Páginas: 206

 

 
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