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Leitura: "Prolongamento"

«À medida que o tempo foi passando, interroguei-me muitas vezes sobre o motivo de publicar uma narrativa tão pessoal. Começou como um diário para mim mesmo, no qual eu procurava explorar a minha experiência da doença. Depois achei que podia ser útil a outras pessoas. Mas também receio que possa engrandecer esta minha aventura razoavelmente comum, e peço desculpa a quem possa achar esta narrativa demasiado egocêntrica ou devota. Ela procura relatar a história de um crente que passa pelas várias fases de um cancro. Se proporcionar alguma luz espiritual a outras pessoas que estejam a passar por este tipo de situações dolorosas, já sinto que foi justificada.»

É com estas palavras que o P. Michael Paul Gallagher, abre o seu livro “Prolongamento – Atravessar as últimas fases do cancro e apontamentos de percurso”, publicado este mês em Portugal pela Editorial A.O.

Num dos últimos textos que escreveu, “A perspetiva de morrer”, o religioso jesuíta anota:

«Se eu receber o dom, o que Deus está a fazer em mim aqui e agora inicia-me numa plenitude que continua para lá da morte. O movimento rumo ao Céu está já a acontecer.

Tudo isto pode soar a demasiado espiritual quando alguém é confrontado com um declínio quotidiano de energia. E, no entanto, a música da fé pode ser escutada até nos tempos mais escuros. Quando me aproximo já da morte, pode ser que se façam sentir a fraqueza e a perturbação, mas espero ter a liberdade de me abandonar nas mãos de Deus, para que o morrer possa ser um orante deixar-me ir. Podem estar lá feridas por resolver ou esperanças por cumprir, ou preocupações a respeito de quem fica para trás. Mas a gratidão e a paz vêm de termos representado algo importante para algumas pessoas durante a nossa vida. E, acima de tudo, da confiança de que o Senhor Ressuscitado nos conduzirá agora por entre esse escuro limiar.



Caracterizava-o uma constante abertura e atitude de surpresa por aquilo que o mundo e a cultura atuais, com as suas contradições e dificuldades, mostravam como espaço onde a fé cristã pode entrar. Não concebia a cultura como impermeável ao Evangelho



O processo externo da morte pode ser assustador, mas quero eu de facto ficar aqui para sempre? Se escutar o meu coração, saberei que sou feito para mais vida do que posso imaginar. Quando a promessa de Deus vence os meus medos, o que S. Paulo chama de «último inimigo » passa a ser um amigo inesperado».

Durante 20 anos o P. Gallagher foi professor de literatura em Dublin, antes de ser convidado a integrar o Conselho Pontifício da Cultura, do Vaticano, e a Faculdade de Teologia da Universidade Gregoriana, uma das mais prestigiadas no âmbito católico.

“Prolongamento” apresenta o diário, as notas e dois ensaios teológicos redigidos durante o período final da doença: um sobre a morte e outro sobre a descrença. Na introdução à edição portuguesa, o padre português António Valério testemunha que o religioso irlandês foi seu professor e companheiro de uma comunidade jesuíta, em Roma, além de «amigo e confidente».

«A sua formação em literatura dotou-o de uma rara capacidade de ler e fazer teologia a partir de uma categoria muito própria, que caracterizaria de uma sensibilidade imaginativa. (…)



«Estou convencido de que todos nós podemos aprender a acolher uma vida limitada e a encontrar liberdade dentro desses limites. Se, por vezes, temos a tendência a encarar a vida como um glorioso fracasso, a gratidão por aquilo que é possível pode curar tudo isso»



Nas suas aulas, que eram frequentadas pelos seus alunos numa atitude de ir «ouvir o P. Gallagher» e deixar-se inspirar por ele, ouvíamos muitas vezes citar Shakespeare com esta expressão: «Readiness is all» (A prontidão é tudo). De tanto o repetir, acabou certamente por o assimilar na sua vida. Estar pronto, preparado, disposto a tudo: ao diálogo com outras correntes teológicas, ao diálogo com a cultura, ao diálogo com não crentes e indiferentes em questões religiosas.

Caracterizava-o uma constante abertura e atitude de surpresa por aquilo que o mundo e a cultura atuais, com as suas contradições e dificuldades, mostravam como espaço onde a fé cristã pode entrar. Não concebia a cultura como impermeável ao Evangelho, pelo contrário, mostrava uma absoluta certeza que aquela tinha em si os sinais de abertura à fé. O trabalho necessário da teologia seria explicitar estes sinais e ajudar a tomar consciência deles.

Neste livro, vemos Michael Paul Gallagher em contínua atitude de abertura e prontidão na última fase da sua vida, com tudo o que isso lhe iria trazer. Com uma lucidez extraordinária, manifesta ainda a força de acolher as limitações da doença como caminho teológico, humano e espiritual. Mais ainda, consegue fazer com que a sua experiência possa ser uma ajuda para outros. Esta obra é toda uma longa «última aula» do Professor Gallagher, e nós, leitores atentos, ficaremos decerto muito mais ricos com aquilo que aprendemos nestas páginas», assinala o P. António Valério.

“Fragmentos de autobiografia”, “Pensando na morte”, “Refletindo sobre a descrença” são os temas do capítulo introdutório, enquanto que o seguinte, intitulado “Fragmentos e pontos de partida”, fala de “Aberturas”; “Escuridão”, “Revelação”, “Imaginação”, “Transformação”; “Tensões” e “Transcendência”.


«Estou convencido de que todos nós podemos aprender a acolher uma vida limitada e a encontrar liberdade dentro desses limites. Se, por vezes, temos a tendência a encarar a vida como um glorioso fracasso, a gratidão por aquilo que é possível pode curar tudo isso»



Nas suas aulas, que eram frequentadas pelos seus alunos numa atitude de ir «ouvir o P. Gallagher» e deixar-se inspirar por ele, ouvíamos muitas vezes citar Shakespeare com esta expressão: «Readiness is all» (A prontidão é tudo). De tanto o repetir, acabou certamente por o assimilar na sua vida. Estar pronto, preparado, disposto a tudo: ao diálogo com outras correntes teológicas, ao diálogo com a cultura, ao diálogo com não crentes e indiferentes em questões religiosas.

Caracterizava-o uma constante abertura e atitude de surpresa por aquilo que o mundo e a cultura atuais, com as suas contradições e dificuldades, mostravam como espaço onde a fé cristã pode entrar. Não concebia a cultura como impermeável ao Evangelho, pelo contrário, mostrava uma absoluta certeza que aquela tinha em si os sinais de abertura à fé. O trabalho necessário da teologia seria explicitar estes sinais e ajudar a tomar consciência deles.

Neste livro, vemos Michael Paul Gallagher em contínua atitude de abertura e prontidão na última fase da sua vida, com tudo o que isso lhe iria trazer. Com uma lucidez extraordinária, manifesta ainda a força de acolher as limitações da doença como caminho teológico, humano e espiritual. Mais ainda, consegue fazer com que a sua experiência possa ser uma ajuda para outros. Esta obra é toda uma longa «última aula» do Professor Gallagher, e nós, leitores atentos, ficaremos decerto muito mais ricos com aquilo que aprendemos nestas páginas», assinala o P. António Valério.

“Fragmentos de autobiografia”, “Pensando na morte”, “Refletindo sobre a descrença” são os temas do capítulo introdutório, enquanto que o seguinte, intitulado “Fragmentos e pontos de partida”, fala de “Aberturas”; “Escuridão”, “Revelação”, “Imaginação”, “Transformação”; “Tensões” e “Transcendência”.


«Nem sempre é assim tão fácil ou evidente. De facto, creio que a minha fé teve altos e baixos durante toda a minha vida. Como já referi, desde a descoberta do meu cancro, há momentos em que tudo parece absolutamente irreal. É como se eu olhasse de fora de mim mesmo e achasse toda essa história da fé inacreditável, distante e infantil»



“Vagas de névoa, raios de luz” é o nome dado ao terceiro capítulo, que tem como entrada principal o “Diário de um cancro”, dividido em subsecções: “Descobertas – súbitas e graduais”, “Cancro, outra vez”, “Início da quimioterapia”, “Tumor no cérebro: terminal”, “Cuidados paliativos”. O livro termina com “Poesia”, sete poemas em tempos de despedida.

 

Rumo a uma nova liberdade
Michael Paul Gallagher, s.j.
In “Prolongamento”

Em resumo, a passagem do tempo e a ação do Espírito podem conduzir a uma nova liberdade, à confiança no dom de cada um. Eu descobri a capacidade de escutar os outros e de, em certa medida, os ajudar a curar as suas esperanças. Gradualmente, a dependência da força de vontade ou o esforço ansioso deixaram de ser tão centrais – como se estivessem envolvidos no redemoinho das águas agitadas de uma vida cheia de preocupações. Quando as coisas não correram na perfeição, tornei-me menos vulnerável a sofrer de amuos. De facto, estou convencido de que todos nós podemos aprender a acolher uma vida limitada e a encontrar liberdade dentro desses limites. Se, por vezes, temos a tendência a encarar a vida como um glorioso fracasso, a gratidão por aquilo que é possível pode curar tudo isso, criando uma música de deslumbramento na simplicidade. São Paulo vai mais longe: tal como um espelho, nós refletimos e irradiamos uma luz de glória, mesmo nesta vida (2 Cor 3, 18). Tudo isto suscita uma nova serenidade em relação à morte e prepara-nos para regressar a casa. Depois da minha primeira cirurgia ao cancro, em 2002, escrevi: «Sinto-me espantosamente incapaz de me preocupar com o futuro». A intensidade desse momento não durou, mas captou uma verdadeira graça.

Não desejo transmitir uma impressão errada, especialmente aos não crentes ou aos que não estão tão familiarizados com a fé. Nem sempre é assim tão fácil ou evidente. De facto, creio que a minha fé teve altos e baixos durante toda a minha vida. Como já referi, desde a descoberta do meu cancro, há momentos em que tudo parece absolutamente irreal. É como se eu olhasse de fora de mim mesmo e achasse toda essa história da fé inacreditável, distante e infantil. Mas essa é também a fonte da dificuldade: a menos que eu seja capaz de estar verdadeiramente «dentro» de mim, em contacto com o interior, muitos outros aspetos parecem distantes ou sem vida. A amizade, por exemplo, pode perder o seu sal se não for alimentada através do contacto real. G. K. Chesterton disse, com o realismo que lhe é característico, que a fé implica a arte de sobreviver ao nosso próprio estado de espírito. Como isso é verdade! Os sentimentos são importantes, mas não são a chave. Vão e vêm. Quando estão sintonizados, ajudam imenso a fé. Mas a fé tem também de aprender a sobreviver aos momentos de desolação.


«Nestes últimos meses, em que tenho vivido com um risco muito maior de morrer, dei por mim a olhar para as pessoas de outra forma. Vi a bondade e a vivacidade, bem como a frágil mortalidade de cada uma. Tratava-se de apreciar o momento presente com deslumbramento e de desejar que todas essas pessoas pudessem encontrar o seu caminho para a verdadeira felicidade»



Eis um bom exemplo de uma mudança abrangente de atitude. A primeira vez que tive cancro foi há 13 anos e, após uma cirurgia em Roma, passei por seis meses de quimioterapia. Esse tratamento teve efeitos adversos mais pesados do que a terapia a que me submeti recentemente, devido aos inúmeros avanços na proteção do doente. Mas a questão aqui é outra. Lembro-me de que, em 2002, quando vivia com as ansiedades inerentes ao cancro e à quimioterapia, costumava olhar para as pessoas na rua e pensar: «todas elas vão morrer, só que não sabem». Eu estava a vê-las a partir de um lugar escuro dentro de mim. Mas nestes últimos meses, em que tenho vivido com um risco muito maior de morrer, dei por mim a olhar para as pessoas de outra forma. Vi a bondade e a vivacidade, bem como a frágil mortalidade de cada uma. Tratava-se de apreciar o momento presente com deslumbramento e de desejar que todas essas pessoas pudessem encontrar o seu caminho para a verdadeira felicidade. Algumas, talvez através da sua fé em Deus. Mas apercebo-me de que as crianças que eu vejo a brincar na zona onde vivo não crescem no mundo que eu conheci em criança. As hipóteses que têm de alcançar uma fé madura são precárias. Muitas delas terão de encontrar o seu caminho na vida sem esta luz. E, contudo, Deus trabalhará nelas, conduzindo-as através de formas de amar que estejam ao seu alcance. Se não resistirem e permitirem que a vida lime o seu ego, essa será a sua via para a salvação. Assim, algo mudou em mim ao longo dos anos. Senti menos preocupação e mais gratidão ou docilidade, menos juízos negativos e um coração mais abrangente. E, assim, uma nova liberdade, como referem as Escrituras, para encontrar a paz sob a «sombra da morte». Shakespeare captou este estado de espírito na perfeição: «Visto isso, tens mais força para amar, e amar muito o que em breve vais deixar» (Soneto 73).

Uma transição semelhante ocorreu nas minhas imagens fundamentais da fé. Em termos simples, de um modelo de religião bastante rígido e ansioso evoluí para a capacidade de encontrar alimento num amor mais silencioso e misterioso. O filósofo Ricoeur, protestante e crente fervoroso, criticou as falsas formas de religião como estando enraizadas no «medo do castigo» ou no «desejode proteção». Ele admitiu que o ateísmo poderia suscitar uma purga saudável destas abordagens imaturas e abrir caminho para uma fé mais genuína. Eu creio que não sofri desse medo de um Deus temível (embora alguns padres da minha infância fossem peritos em assustar-nos). Mas aprendi a ter uma preocupação extremamente escrupulosa em relação a regras e normas. Sei que tenho tendência a desejar que a oração pessoal seja uma fonte de consolo diário. Esta tentação de bem-estar foi diminuindo com os anos e espero ter passado de uma abordagem da religião como um sistema de ordem e sentido supremo (uma abordagem não totalmente errada, mas inadequada), para uma fé orientada para «Aquele em quem confio», como escreveu São Paulo.


«É um tempo que devo viver de modo pleno e proveitoso. Por isso, não escrevi estas páginas para mim mesmo nem para impressionar ninguém, mas apenas na esperança de ajudar pessoas que estejam a enfrentar situações semelhantes»



Não posso negar que a fé fez toda a diferença para mim nestes meses dominados pelo cancro. Por exemplo, no final de agosto de 2015, num período bom em que desfrutava da liberdade de não ter tratamentos nem sintomas (aquilo a que os médicos chamam de «remissão»), por acaso vi na televisão um filme chamado “The C Word”. Trata-se de uma excelente adaptação da história de uma jornalista britânica, Lisa Lynch, que começou a escrever um blogue durante a sua luta contra o cancro da mama. O filme mostra como a esperança de Lisa ia tendo altos e baixos, à medida que ela passava pela operação, quimio terapia e remissão. É uma abordagem honesta e comovente sobre o impacto que a doença teve junto do marido e da família mais próxima. O filme termina com ela a poder desfrutar de um tempo de férias em Espanha, mas então aparece a última imagem: ela morreu em 2013. Vi o filme com uma sensação de envolvimento pessoal e de admiração pela sua força. Mas também me surpreendeu a total ausência de perspetiva religiosa. Antes de me deitar rezei, como sempre faço, as Completas, a oração da noite. Nessa noite, o salmo dizia: «Meu Deus, em quem confio... Não temerei o terror da noite». E continua, pedindo proteção e até uma vida longa. Nunca peço a Deus que me salve da morte, mas naquela noite rezei o salmo com uma intensa sensação de gratidão pelo privilégio da fé, por poder dizer «tu». A situação de Lisa foi inspiradora, mas também me deixou triste. Penso que, ao enfrentarmos a morte, não estamos destinados a perdermo-nos num sem-sentido nem a sermos privados de uma Outra Presença. É claro que não estou a culpar Lisa. Simplesmente registo o meu deslumbramento por outra realidade que, para mim, transforma tudo. Porém, volto a realçar que este consolo permanece dolorosamente instável, alternando entre a luz e a escuridão, tal como um farol. Contudo, ele muda toda a perspetiva. De facto, aquele filme convenceu-me de que é bem provável que a minha atual remissão seja apenas temporária. É um tempo que devo viver de modo pleno e proveitoso. Por isso, não escrevi estas páginas para mim mesmo nem para impressionar ninguém, mas apenas na esperança de ajudar pessoas que estejam a enfrentar situações semelhantes. Este livro é também um presente de despedida e de gratidão por todos os que conheci ao longo destes anos, e suponho que seja também um adeus à escrita, que tem sido uma parte tão importante da minha vida.


De momento, vivo uma fase de intensa gratidão, mesmo de um tranquilo assombro diário por ainda estar aqui, capaz de apreciar as amizades, a oração, a energia, a escrita, a música e muitas outras coisas. Neste momento, sinto-me abençoado por uma grande serenidade em relação aos perigos futuros



Este pequeno livro contém vários capítulos. Depois desta introdução autobiográfica, incluo dois breves artigos que falam do meu interesse pela descrença e incluem uma reflexão sobre a iminência da morte. O terceiro capítulo trata daquilo a que chamo o meu «diário da quimioterapia». Na minha vida, enfrentei o cancro por três vezes e estou absolutamente ciente de que, se eu fosse um pobre a viver noutro continente, já teria morrido há muitos anos. Pressinto que esta minha terceira batalha seja a última e que em breve a vou perder. Neste momento em que escrevo, no verão de 2015, parece que estou numa fase de remissão. Disseram-me, depois de um exame recente, que o tumor principal na bexiga tinha desaparecido, mas que os secundários, no fígado, ainda lá estão, mesmo se o seu tamanho diminuiu depois da quimioterapia. É provável que voltem, e com mais força. De momento, vivo uma fase de intensa gratidão, mesmo de um tranquilo assombro diário por ainda estar aqui, capaz de apreciar as amizades, a oração, a energia, a escrita, a música e muitas outras coisas. Neste momento, sinto-me abençoado por uma grande serenidade em relação aos perigos futuros. Terei menos de um ano de vida ou viverei mais do que isso? Sinto-me estranhamente à vontade com o que quer que aconteça. Claro que tenho medo da dor, da fraqueza e da impotência. Tenho medo de como vou reagir quando as coisas ficarem difíceis. Poderei não ser capaz de escrever sobre essa experiência, se lá chegar. Mas consegui manter um diário pessoal do tempo em que fiz quimioterapia e agora trabalhei-o drasticamente. Todos sabem que pode ser uma experiência muito dura. Por isso, na esperança de ajudar outras pessoas a enfrentarem um desafio semelhante, tento captar estes altos e baixos imprevisíveis que a quimioterapia causa, tanto física como espiritualmente. No fim deste diário, atrevo-me a publicar algumas das minhas tentativas no campo da poesia, sem pretensão de grande talento. Talvez tenha começado já numa fase tardia da vida. Contudo, estes versos foram lidos por alguns amigos que acharam que transmitiam algo do drama da minha doença, bem como outras reflexões pessoais.

No segundo capítulo apresento alguns «fragmentos e pontos de partida» que tenho vindo a anotar desde há um ou dois anos. São reflexões deliberadamente curtas sobre temas espirituais e religiosos (na sua maior parte). Alguns talvez sejam demasiado simples. Outros correm o risco de comprimir demasiada informação em pouco espaço. Só por serem paradoxais, talvez provoquem no leitor uma reflexão pessoal.

Como já mencionei, escrevo a maior parte destas páginas introdutórias enquanto desfruto de uma maravilhosa fase de aparente «remissão». Neste momento já não estou a fazer quimioterapia. Voltei a ter energia. Estou consciente de que esta lua de mel não poderá durar; por isso, não quero desperdiçar este tempo precioso. Estou a viver tranquilamente, tendo deixado por completo o trabalho que fiz durante tantos anos e muitas outras atividades. De vez em quando, saio para ir ter com amigos ou até para ir ao teatro ou ao cinema. Mas a maioria dos dias podem ser até demasiado calmos, com longas horas de solidão e sem compromissos. Tive de estruturar a liberdade. Leio ou escrevo durante uma ou duas horas de manhã e novamente à tarde, se não receber visitas nem sair. Seria mais correto dizer que releio, pois para mim é muito estimulante voltar aos livros que mais apreciei, principalmente no âmbito da literatura, teologia ou espiritualidade. Isto desperta em mim o desejo de escrever, de traduzir à minha maneira os discernimentos que me proporcionaram. Suponho que estas páginas sejam uma espécie de testamento pessoal. Mas esta é uma pretensão demasiado solene. Prefiro a expressão do subtítulo: apontamentos de percurso.


 

Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 11.01.2018

 

Título: Prolongamento
Autor: Michael Paul Gallagher, s.j.
Editora: Editorial A.O.
Páginas: 184
Preço: 12,00 €
ISBN: 978-972-39-0839-8

 

 
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