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Procurar não é falta de fé

Imagem Manifesting Infinity (det.) | © Michael Donnor

Procurar não é falta de fé

Procurar não é falta de fé.

Também se aprende Deus na proclamação da Palavra e na aproximação dos mistérios.

Ninguém é livre de procurar a porta da felicidade. Todos andamos no seu encalço: homens e mulheres do Norte e do Sul, de todos os tempos, raças e cores.

As viagens que fazemos pelas terras da ciência, das letras e das artes têm como alvo a passagem dessa porta que nos ofereça, ao abrir-se, a luz, o acolhimento, a intimidade com o imenso sonho que alimentamos de ser felizes.

E há tantas portas que demandamos e outras tantas que esquecemos.

Jesus Cristo é a porta. Ponto de chegada de todas as nossas procuras, ponto de partida para todas as viagens, aventuras de infinito que sempre chamam por nós.

A porta é o caminho do conhecimento que vamos adquirindo em cada diálogo, em cada contacto, em cada nova descoberta.

A porta é a comunidade que nos abre o coração aos dramas e ao estado de festa do planeta.

A porta são os elos de amizade que nos ligam e nos projetam na solidariedade e no júbilo de sermos mais e mais estreitamente ligados.

A porta é a nossa disponibilidade para aceitar as diferenças, tolerar os antagonismos, e o reconhecimento das abertas por onde irrompe a alegria conjugada das nossas surpresas.

A porta é Jesus Cristo que nos dá acesso ao Pai, ao mundo, ao perdão, à alegria, aos mistérios da vida, à verdade que alcançamos e que sempre nos ultrapassa.

«Eu sou a Porta.»

Que se abre a todos os deserdados, que faz recobrar a alegria de todos os magoados, que se abre a todos os corações empedernidos, que convida à entrada de todos os marginais, que oferece livre-trânsito a todos os estrangeiros, que acolhe todos os refugiados, que deixa passar todo o pão necessário para os famintos da verdadeira vida.

«Eu sou a Porta.»

Vinde, todos vós que andais perturbados, todos os que navegais sem rumo, todos os que vos sentis sós e pensais que sois inúteis.

Vinde, entrai, este é o momento certo do chamamento.

Esta é a hora de júbilo.

Não tenhais medo.

«Eu sou a Porta.»

Penso que Newton tinha razão quando afirmava ser contrário ao desígnio de Deus que a verdade de cada religião tenha a evidência de uma equação matemática. Para muitos parecerá que se trata de uma fraqueza da fé perante as certezas da ciência. É exatamente o contrário: afirmar o mistério de Deus com o simplismo de uma ciência exata é matar-lhe a transcendência e reduzir a uma certeza humana a desmedida profundidade de Deus. Ou, como dizia Santo Agostinho, seria pretender passar um oceano para uma minúscula concha da praia.

Uma atitude desta ordem não tem apenas consequências individuais na relação de cada ser humano com Deus. Inspira um posicionamento fraterno face a buscas de Deus por outros caminhos, diferentes na expressão como na própria definição de Deus. E isso nada tem a ver com atitudes débeis ou flutuantes na procura e afirmação da fé. É, de si, o único caminho que recusa o proselitismo fanático ou a arrogância filosófica sobre uma questão teológica.

Se por um lado precisamos revigorar a nossa fé perante a epidemia da relativização de todas as certezas, por outro, importa purificar a memória de preconceitos históricos de autêntica guerrilha religiosa acumulados ao longo de séculos e que ainda hoje se confundem com fidelidade ou perseverança.

Nenhum diálogo religioso é possível sem a aceitação da procura de Deus noutras frentes de fé e noutras experiências religiosas, porventura no invólucro de povos e culturas do outro lado do Planeta e do tempo. As afirmações aguerridas de formas únicas de chegar a Deus e de conteúdos unívocos apenas reabrirão os abismos que separam homens e mulheres, mesmo de boa vontade, que procuram Deus por caminhos diferentes.

 

Cón. António Rego
In "A ilha e o verbo", ed. Paulinas
Publicado em 08.07.2015

 

 
Imagem Manifesting Infinity (det.) | © Michael Donnor
A porta é a nossa disponibilidade para aceitar as diferenças, tolerar os antagonismos, e o reconhecimento das abertas por onde irrompe a alegria conjugada das nossas surpresas
Se por um lado precisamos revigorar a nossa fé perante a epidemia da relativização de todas as certezas, por outro, importa purificar a memória de preconceitos históricos de autêntica guerrilha religiosa acumulados ao longo de séculos e que ainda hoje se confundem com fidelidade ou perseverança
Nenhum diálogo religioso é possível sem a aceitação da procura de Deus noutras frentes de fé e noutras experiências religiosas, porventura no invólucro de povos e culturas do outro lado do Planeta e do tempo
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