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Prioridade de um pároco é estar próximo das pessoas, e entre elas, primeiro dos pobres

Proximidade

Fui pároco durante seis anos: foi o trabalho mais belo que fiz. Não sei qual foi a primeira coisa que fiz, não me recordo. Mas penso que, se hoje fosse nomeado pároco, a primeira coisa que faria seria abrir a porta da igreja, estar sentado lá a acolher as pessoas. Esta é uma. E outra que se pode fazer, e que gosto tanto, é sair pelo bairro e saudar as pessoas: «Como te chamas? Prazer…». Olhar nos olhos. A primeira coisa que um pároco deve fazer: proximidade com as pessoas. Estar próximo. Uma vez conheci um antigo pároco – estava no serviço diplomático da Santa Sé – que me dizia: «Era tão feliz na vila onde era pároco. Conhecia cada pessoa, conhecia até os nomes dos cães!». É belo, isto. Está ali, está próximo, conhece tudo. O pároco próximo. É verdade que cansa estar próximo das pessoas porque, quando têm confiança, vês, perguntam, falam contigo…

Qual seria o primeiro conselho que eu daria como pároco às pessoas? Não murmurar. Por favor, uma paróquia que aprende a não falar mal um do outro é santa. Um padre francês contou-me que na paróquia havia uma senhora que dizia mal de todos, uma tagarela. A sua casa estava próxima da janela da paróquia, ao ponto de ela poder ver o interior da igreja. Um dia aquela mulher ficou doente. E chamou o pároco e disse-lhe: «Padre, eu não posso ir à missa, comungar, poderia trazer-me a Comunhão?». E o pároco, o que respondeu? «Minha senhora, não é preciso, com a língua que tem, da sua janela chega ao sacrário!». Isto é para entender um pouco. Mas é uma coisa terrível esta, falar mal. Não, não, nunca o façais. «E padre, como posso fazer para não dizer mal?». Há um remédio muito à mão e que não custa nada: morde a tua língua».

 

Viver com e para os pobres

Os pobres estão no centro do Evangelho. Quando eu era seminarista e jovem padre na América Latina, era o tempo do Maio de 68. O que contava mais era a guerrilha, o trabalho político. E se um padre fazia um trabalho com os pobres, era “comunista”. Porque a situação política era assim: parecia que o único grupo que se aproximava dos pobres e lutava pela justiça era dos comunistas. Não é assim: o Evangelho, o Evangelho põe os pobres no centro. Melhor, mete a pobreza no centro. Se tu não tens uma pobreza de espírito, não serás um bem-aventurado, um cristão corajoso. É a primeira das bem-aventuranças: os pobres, os pobres de espírito.

Depois, aproximar-se dos pobres, mas não de cima para baixo. É lícito olhar uma pessoa de cima para baixo só quanto te dobras para a elevar. Noutras situações não é lícito olhar uma pessoa de cima para baixo. Andar com os pobres ao mesmo nível, servir os pobres porque são a imagem de Cristo. E quando digo pobres, digo pobres de tudo: também os pobres de saúde, os doentes; os pobres de dinheiro; os pobres de cultura; os pobres que caíram nos vícios, nas dependências. Quantos vossos companheiros andam na droga, por exemplo: são pobres, pobres do Evangelho. «Não, aquele que anda na droga tem muito dinheiro e família rica, não é um pobre». Não, esse é um pobre, é um pobre. Aproximar-se do pobre para servi-lo. Mas erguê-lo em conjunto, ajoelhando-me e tomando-o. Quando tocas a doença de um pobre, estás a tocar as chagas de Cristo. Este é um pouco o sentido dos pobres na Igreja.

 

Não se pode ser cristão sem comprometer-se na sociedade

Quando Caim matou a Bíblia, como está na narração da Criação, no livro do Génesis, na Bíblia, Deus chamou Caim e fez-lhe a pergunta: «Onde está o teu irmão?». E ele ficou algo zangado e disse-lhe: «Mas serei eu porventura o guardião do meu irmão?». O oposto desta reação é a pedra angular do compromisso com os outros, seja o compromisso mais familiar, com os amigos, seja na sociedade. Inclusive o compromisso de fazer alguma coisa pela pátria, pelo mundo. Tomar conta dos irmãos, como tu precisas que os irmãos tomem conta de ti. E esta é a vida cristã: não vivemos isolados. Não estamos isolados, somos um corpo, um corpo, e Deus quer que andemos em comunidade, que tomemos conta um do outro, que procuremos ajudar-nos no caminho. Esta é a base do compromisso.

Não se pode ser cristão sem comprometer-se na sociedade, sem criar a sociedade. Não vos escandalizeis por isto. Para ser bom cristão é preciso sujar as mãos no ajudar os outros. Não só com ideias, não, com os factos. Comprometer-se. E muitas vezes erramos, errar é humano. Pede perdão e segue em frente. O compromisso. O que posso fazer pelos outros? Pela minha família, pela minha pátria, pelo mundo. Sempre à procura… O contrário de Caim. Caim lavou as mãos. Pilatos lavou as mãos. O cristão suja as mãos. Para fazer bem pelos outros.

Contra o compromisso cristão há dois inimigos terríveis. O primeiro é o egoísmo: «Eu protejo as minhas coisas, o meu dinheiro, a minha família…». O fechamento. E egoísmo é um fechamento. As pessoas egoístas não sabem olhar o horizonte. É um fechamento do coração. O outro inimigo, muito forte, que ocorre quando alguém começa a ter um compromisso mais alto na sociedade, quando tem um lugar importante, é a corrupção. A corrupção é viver para si próprio. Mão é tão terrível que acaba por não te deixar viver para ti mesmo, mas para fazer-te viver para o bolso: apega-te ao dinheiro. A corrupção do coração, a corrupção corta todos os ideais.

 

Seguir a Igreja nos bons e maus momentos

Faz-me pensar num adepto de um clube de futebol, e esta começa a ficar para trás, para trás, para trás, e então pergunta-se: como é que consigo ser deste clube? Talvez diga: não, assim não dá, vou mudar de clube. Se não tem uma grande paixão por esse clube, mas tem a paixão pelo futebol, escolhe outro clube que jogue melhor. Muda de clube, muda de instituição.

Mas a pertença à Igreja, antes de tudo, não é uma pertença a uma instituição, é uma pertença à pessoa, a Jesus. No Domingo de Ramos, Jesus foi posto em triunfo; quando fez a multiplicação dos pães, queriam fazê-lo rei; mas na Sexta-feira Santa foi crucificado. Trata-se se seguir Jesus, não seguir as consequências de Jesus. Não as consequências sociais. Segui-lo nos momentos tranquilos, quando a Igreja floresce; e segui-lo nos momentos em que a Igreja está em crise. A Igreja não foi levada por diante por grandes organizações, grandes partidos políticos, grandes instituições… Não. A Igreja foi levada por diante pelos santos. E hoje serão os santos a levá-la para a frente, não nós, nem sequer o papa. Não, os santos. Eles farão caminho à nossa frente. E porquê os santos? Porque seguem Jesus. A fé não é uma ideia: é um encontro com Jesus.


 

Papa Francisco
Edição de Rui Jorge Martins a partir da intervenção a um grupo de jovens da diocese de Grenoble-Vienne (França) | Vaticano, 17.9.2018
Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé
Imagem: P. Joaquín Giangreco (Argentina) | D.R.
Publicado em 18.09.2018

 

 
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