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Presença “crística”

Foi o que mais me surpreendeu durante a viagem. Ali, na rua que dá para a Praça Central, junto à antiga igreja, à direita de quem sobe, em letras bem visíveis, impossíveis de apagar, no edifício que em outros tempos teria sido uma escola primária, ali mesmo, em maiúsculas para que todos pudessem ler: «Agência Funerária». Algumas horas depois, quando me distanciei da pitoresca vila, vi ainda, ao lado da farmácia, o enorme letreiro fantasmagórico, destino incontornável de todos os habitantes «Agência…»

Uns quilómetros mais à frente, num vale revestido de carvalhos e pinheiros, lá estava, sereno e majestoso, o antigo mosteiro cisterciense. A estrutura secular alberga ainda uma comunidade monástica que, sete vezes ao dia, se reúne no coro alto para recitar, em canto gregoriano, os salmos, para escutar a Palavra e celebrar, com uma beleza litúrgica invulgar, a Eucaristia. Palavra e silêncio, uma conjugação que se entranha e faz-nos pensar que mistério é este que alimenta estes homens. São silenciosos e aparentemente inacessíveis. Uma espécie de “Comandos de Deus”, disseram-me um dia. São simplesmente uma presença, a expressão de uma força divina, sim, claramente divina, porque de outro modo, humanamente, seria impossível assumir tal modo de estar no mundo.

Ao longo dos séculos, a mesma família monástica ofereceu à Igreja e ao mundo um número razoável de doutores, especialistas na difícil arte da relação do homem com Deus e dos homens entre si, e muitos santos. Mais recentemente, foi notícia a beatificação dos sete mártires da Argélia, vítimas da fúria jihadista, em 1996.

Vale a pena conhecer esta história. Num domingo em que a liturgia da Palavra nos propõe o modelo do justo, vítima de ciladas, e ouvimos o Mestre a confessar o seu trágico fim aos atónitos discípulos, em que, pela boca do apóstolo Tiago, são escrutinadas as causas da violência e da guerra (a cobiça…), lembramos o exemplo concreto destes homens que, voluntariamente, assumiram ser sinal da Presença num contexto hostil.

«Monges numa terra não cristã. Sem futuro, é claro. Mas com a consciência de uma presença que deve viver aqui: serviço de oração e de contacto, visitas de amizade…», escreveu o mártir C. Lebreton, no Diário, 9/6. Em conformidade com a Regra de S. Bento, a comunidade queria ser sinal «de uma Igreja local levada para o deserto, diante de um Islão que interroga a nossa identidade, a nossa missão…» (Diário 19/6). Ser o «Corpo da Presença», e não a protagonista de uma estratégia missionária com intuito de conquistar novos territórios. Ela queria estar permanentemente «numa relação de amor vulnerável e exposto» (Diário, 7/3/94). Simplesmente presente. «Orantes no meio de orantes.»

Num mundo em que se multiplicam as Agências – as Imobiliárias, as de Viagens e as Funerárias – , faz-nos bem alargar o horizonte e procurar conhecer, fora do ciclo já conhecido, o sinal da presença “crística” no mundo. Estimulados por tão nobre exemplo, talvez possamos ser sinal da divina Presença no nosso ambiente.


 

Nélio Pita, CM
Imagem: D.R.
Publicado em 21.09.2018

 

 
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