Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Prémio Nobel participa em debate do Conselho Pontifício da Cultura para uma «economia mais humana e justa»

Imagem D.R.

Prémio Nobel participa em debate do Conselho Pontifício da Cultura para uma «economia mais humana e justa»

O prémio Nobel da Economia de 2015, Angus Deaton, é um dos participantes no encontro "Para uma economia mais humana e justa. Um novo paradigma económico inclusivo num contexto de desigualdades crescentes", que decorre a 21 de setembro, em Roma.

A iniciativa, organizada pela Embaixada da Itália junto da Santa Sé, em colaboração com o Conselho Pontifício da Cultura, insere-se no âmbito do "Átrio dos Gentios", plataforma de encontro e debate entre personalidades proeminentes das culturas laicas e católicas, que num espírito de abertura e acolhimento procuram a superação das desconfianças mútuas.

Além do professor da Universidade de Princeton (EUA) distinguido com o Nobel, a sessão conta com as intervenções do economista francês Jean-Paul Fitoussi e do economista belga Dominique Y van der Mensbrugghe, bem como do diretor do jornal "Il Sole 24 Ore", Roberto Napoletano, que coordena o encontro.

O debate visa «estimular uma reflexão sobre um tema central no atual debate político e académico e ao qual a opinião pública é cada vez mais sensível, ou seja, o das relações entre economia e sociedade e da necessidade de definir novos modelos económicos mais humanos e inclusivos», refere a página da Embaixada de Itália, que acolhe a iniciativa.

 

O contexto do debate
Embaixada de Itália junto da Santa Sé, Conselho Pontifício da Cultura

As desigualdades económicas e sociais representam hoje um desafio de nível global. Ainda que a globalização e a livre circulação dos bens e dos capitais tenham conhecido nos últimos anos uma rápida expansão, frequentemente acompanhadas por melhorias nas condições de vida, a desigual distribuição do bem-estar e das riquezas arrisca comprometer estes resultados e ameaçar os mecanismos de solidariedade no interior de cada país, assim como a estabilidade geopolítica dos cenários regionais e internacionais.

A melhoria das condições de trabalho e a intensificação das relações económicas obtidas graças à globalização contribuíram para melhorar o acesso aos cuidados de saúde e à educação em grande escala. Em muitos países a expetativa de vida média cresceu e os rendimentos e os salários tiveram ajustamentos positivos graças à difusão dos mecanismos e das estruturas de mercado. A agilização dos fluxos de informação, graças às tecnologias informáticas, garantiu depois uma maior consciência dos problemas à escala global.

Os estudos do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PDNU) revelam que, a nível global, entre 1990 e 2015, a taxa de pobreza das famílias desceu mais de dois terços e, em valor absoluto, o número de pessoas que vivem abaixo do limiar de extrema pobreza desceu de 1,9 mil milhões para 836 milhões de pessoas; a taxa de mortalidade infantil mais do que se reduziu para metade; mais 2,6 milhões de pessoas tiveram acesso a fontes de água potável, apesar de população global ter crescido de 5,3 para 7,3 mil milhões.

Estas conquistas não eliminam, todavia, a crescente iniquidade na distribuição do bem-estar e dos recursos: como sublinha o próprio PDNU, quase 800 milhões de pessoas no mundo sofrem a fome e vivem com menos de dois dólares por dia; cerca de 80 por cento da população global tem direito a apenas 6 por cento dos cuidados de saúde disponíveis e mais de 50 por cento da riqueza global é possuída por 1 por cento da população. Observando os dados relativos às desigualdades, como por exemplo o Índice de Gini fornecido pelo Banco Mundial, país por país, pode constatar-se a dimensão global do problema: quer os países de alto rendimento quer os de baixo rendimento são igualmente vulneráveis aos problemas que as desigualdades podem causar.

Contudo, os aspetos mais preocupantes do fenómeno dizem respeito não tanto e não só à presença em si das desigualdades. Estas, com efeito, sobretudo a curto prazo, podem ser consequência do progresso e do desenvolvimento: durante as fases de crescimento económico, efetivamente, nem todos enriquecem ao mesmo tempo, nem todos conseguem ter acesso automaticamente aos mesmos recursos que se tornaram mais remunerativos. O aspeto mais arriscado do fenómeno é o representado pelo género de desigualdades que o atual sistema económico está a contribuir para alimentar. Nos anos mais recentes, com efeito, como sublinhado por muitos economistas, cresceu a percentagem do PIB que remunera o capital, sobretudo financeiro, em comparação com aquela que retribui os rendimentos do trabalho.

Assim, num contexto como o atual, caracterizado pela incerteza e precariedade, o bem-estar de grande parte da população e as perspetivas de trabalho e de futuro, sobretudo dos mais jovens, parecem estar comprometidos, enquanto a concentração das disponibilidades financeiras nas mãos de poucos não parece deter-se.

Esta iníqua distribuição das riquezas cria o risco de uma separação e de uma divergência entre os interesses dos mercados, das praças bolsistas e de grandes grupos multinacionais, por um lado, e do resto do sistema económico-social, composto por empresas e trabalhadores, de outro. As desigualdades, juntamente com os impactos sobre o Estado Social que as políticas de "austeridade" e de reestruturação das dívidas públicas trazem consigo, podem, por isso, ter fortes repercussões sociais. Muitas vezes, com efeito, a opinião pública não compreende como, perante economias substancialmente em crescimento, as taxas de emprego, sobretudo as juvenis, possam estar estagnadas, e até em diminuição.

A concentração do poder económico num círculo exíguo, a ausência percecionada de equidade e inclusão no sistema económico, tornam-se assim impulsionadoras de várias formas de populismo, de protesto, assim como de nacionalismo e protecionismo. São evidentes os sinais de como as categorias que se sentem "perdedoras" devido à globalização, ou as mais expostas aos processos de abertura e concorrência próprias do mercado livre, têm hoje a intenção de se fechar e isolar, com a consequente expansão de conflitualidade social e intergeracional.

É por isso necessário definir renovados paradigmas económicos, que garantam maior justiça social e estabilidade política, a par com a sustentabilidade ambiental. É verdadeiramente importante notar também que, onde políticas e soluções eficazes contra a pobreza e desigualdade são conhecidas, essas mesmas políticas tornam-se extremamente complexas de colocar em prática por problemas de governo e de falta de coordenação entre políticas económicas, sociais e ambientais à escala global.

Esta sessão do Átrio dos Gentios pretende estimular uma reflexão sobre as crescentes desigualdades económicas e sociais numa ótica que seja propositiva e concreta, fornecendo, graças a um debate entre personalidades de altíssimo nível, as bases para uma ação eficaz que esteja em linha, entre outros, com o caminho traçado pelas Nações Unidas com a "Agenda 2030 para um desenvolvimento sustentável", que dá os objetivos essenciais a alcançar para um desenvolvimento económico mais atento, em primeiro lugar, às necessidades das categorias mais vulneráveis; seja com as encíclicas "Caritas in veritate", do papa emérito Bento XVI, e "Laudato si'", do papa Francisco, que se revelam, neste contexto, contributos preciosos para o debate sobre uma "economia integral" capaz de voltar a colocar o ser humano no centro dos processos económicos.

 

Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 06.09.2016

 

 

 
Imagem D.R.
Os estudos do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas revelam que, a nível global, entre 1990 e 2015, a taxa de pobreza das famílias desceu mais de dois terços e, em valor absoluto, o número de pessoas que vivem abaixo do limiar de extrema pobreza desceu de 1,9 mil milhões para 836 milhões de pessoas. Estas conquistas não eliminam, todavia, a crescente iniquidade na distribuição do bem-estar e dos recursos
Nos anos mais recentes, como sublinhado por muitos economistas, cresceu a percentagem do PIB que remunera o capital, sobretudo financeiro, em comparação com aquela que retribui os rendimentos do trabalho
As desigualdades, juntamente com os impactos sobre o Estado Social que as políticas de "austeridade" e de reestruturação das dívidas públicas trazem consigo, podem, por isso, ter fortes repercussões sociais. Muitas vezes, com efeito, a opinião pública não compreende como, perante economias substancialmente em crescimento, as taxas de emprego, sobretudo as juvenis, possam estar estagnadas, e até em diminuição
São evidentes os sinais de como as categorias que se sentem "perdedoras" devido à globalização, ou as mais expostas aos processos de abertura e concorrência próprias do mercado livre, têm hoje a intenção de se fechar e isolar, com a consequente expansão de conflitualidade social e intergeracional
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Evangelho
Vídeos