Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Leitura: "Portugal católico" destaca vitalidade, limitações e dinâmicas contemporâneas da Igreja

Leitura: "Portugal católico" destaca vitalidade, limitações e dinâmicas contemporâneas da Igreja

Imagem D.R.

A obra "Portugal católico - A beleza na diversidade", organizada por José Carlos Seabra Pereira, diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, e pelo historiador José Eduardo Franco, propõe apresentar um «fundamentado quadro da condição actual do Catolicismo» no país.

O volume evidencia, «com visão realista dos sinais de vitalidade e das limitações, as múltiplas facetas e as dinâmicas contemporâneas da comunidade católica nos vários domínios da vida da sociedade portuguesa», refere José Carlos Seabra Pereira na introdução.

Entre os âmbitos tratados na obra editada pelo Círculo de Leitores incluem-se a Ciência, as «marginalidades sociais», Política, Economia, Saúde, Justiça, Educação, Sindicalismo, Artes, Desporto, Espiritualidade e diálogo com não-crentes.

«Trata-se, em suma, de fazer o ponto da situação - presenças e ausências, acertos e desacertos, forças e fraquezas - do carácter comunitário próprio do Catolicismo e da irradiação das perspetivas cristãs, através de um discurso de rigor e numa escrita capaz de chegar a um vasto público de leitores católicos e não-católicos, de vários estratos socioculturais», sublinha a nota.



O livro sonda «os rostos e os passos de uma Igreja cristã, que muitas vezes se afigura pobre de Deus e de energias amorosas, outras vezes se mostra oscilante no confronto com o seu próprio passado e nos efeitos que tal continua a ter no presente»



A colaboração de dezenas de autores «de diferentes gerações e quadrantes, com distintas formações e opções entre os leigos, com várias sensibilidades espirituais entre os consagrados» permite que a obra seja uma «polifonia sobre as mais representativas faces do catolicismo em Portugal no século XXI».

As «duas centenas de textos breves» são intercaladas «com larga componente imagética e enquadrados por poemas de grandes escritores» da contemporaneidade, assinala a introdução.

«Esta obra quer-se gesto de realismo cristão, sem inibição cultural no mundo secularizado da modernidade tardia, numa concatenação de 14 capítulos que ganha harmonia analógica e alcance simbólico», aponta José Carlos Seabra Pereira.

O livro sonda «os rostos e os passos de uma Igreja cristã, que muitas vezes se afigura pobre de Deus e de energias amorosas, outras vezes se mostra oscilante no confronto com o seu próprio passado e nos efeitos que tal continua a ter no presente; uma Igreja cristã porventura ainda carente de uma pastoral do encantamento e da surpresa (para ser a alegria da comunicação e do mundo) e certamente hesitante em tomar a iniciativa no debate das ideias e na contextualização dos princípios».



Como se viu no debate em torno do papel do Cristianismo no construção da Europa, «também em Portugal muitos criadores do conhecimento e da arte, tal como muitos cidadãos comuns, reconhecem aquilo que em 2014 Vasco Graça Moura (grande poeta e ensaísta, interveniente na política portuguesa e europeia) proferiu: "há valores religiosos, políticos e filosóficos que importa preservar"»



Um dos «lugares-comuns que estigmatizam a imagem dos católicos», além das «igrejas vazias», é a «do abandono do Catolicismo pela maioria dos portugueses na idade solar da primeira maturidade (grosso modo, dos trinta e quarenta anos). Mas uma observação mais refletida não se dará conta de tratar-se de fenómeno diferente e já verificado nas épocas precedentes - o de afastamento cíclico de mulheres e homens que no fundo permanecem com vinculação religiosa e tendem a reanimá-la mais tarde?», questiona o co-organizador.

«Como avaliar os movimentos ou serviços, e as novas iniciativas ou dinâmicas (“células de evangelização”, “oficinas de oração”, etc.) que proliferam (...), segundo aquele espírito de diversidade dos dons e dos carismas, da espiritualidade e da sensibilidade, que sempre distinguiu a tradição católica», interroga a introdução, que acrescenta: «Analogamente, poderão continuar a ser quase ignoradas as atividades orgânicas de criação e fruição artística, de simbiose de culto e cultura, que emergem (...) pelas dioceses?», tema abordado no nono capítulo.

Evocando Fátima, mas também as dezenas de santuários espalhados por Portugal, os textos do livro abordam o «relançamento da peregrinação» enquanto fenómeno «sobredeterminado em termos psicossociais, que por vezes continua a encontrar motivações e modos que ladeiam o cerne da condição católica, mas outras vezes é buscado e assumido como percurso de reflexão, de ascese e de encontro jubiloso, tanto por gente jovem e culta, quanto por gente experimentada e laboriosa».

«Como se viu no debate em torno do papel fundacional e estruturante do Cristianismo no construção da Europa, a propósito da integração ou rasura dessa referência no preâmbulo da Magna Carta europeia, também em Portugal muitos criadores do conhecimento e da arte, tal como muitos cidadãos comuns, reconhecem aquilo que em 2014 Vasco Graça Moura (grande poeta e ensaísta, interveniente na política portuguesa e europeia) proferiu: "há valores religiosos, políticos e filosóficos que importa preservar. Não digo que todos devem ser cristãos. Eu, pessoalmente, não sou crente, mas os princípios da religião são fundamentais", observa o texto introdutório.



Ao auscultar e indagar as «evasões» e «destinos da comunidade católica no Portugal de hoje», pode concluir-se que «a mundividência cristã e a escala cristã de valores parecem persistir como proposta de projeto de vida com estrutura de horizonte - sem embargo da debilitação de certas formas tradicionais da sua presença no espaço público»



Num tempo marcado pelo «império da produção e do consumo, do espetáculo e da alienação, sem dúvida se degreda ou se degrada a edificação da vida comum sobre a pedra angular do Cristo redentor. Sob o aturdimento do riso iconoclasta ou sob o primado da superior ironia (decerto inalienável da consciência moderna) desgasta-se ou dispensa-se a inquietação espiritual e o imperativo ético do Amor justo e misericordioso».

Todavia, «não faltam os rebates de que "nem todo o riso é bom"», Raul Brandão), e «atravessa todos os estratos socioculturais (...), por vezes no recôndito silêncio da alma, aquele estado de espírito tão próprio do percurso erosivo da Modernidade de matriz iluminista e do império ambivalente da ironia a que Jorge de Sena, em soneto de "Fidelidade", deu voz inolvidável»:

«Como de Vós, meu Deus, me fio em tudo, / mesmo no mal que consentis que eu faça, / por ser-Vos indiferente, ou não ser mal, / ou ser convosco um bem que eu não conheço, // importa pouco ou nada que em Vós creia, / que Vos invente ou não a fé que eu tenha, / que a própria fé não prove que existis, / ou que existir não seja a Vossa essência. // Não de existir sois feito, e também não / de ser pensado por quem só confia em quem lhe fale, em quem o escute ou veja. // Humildemente sei que em Vós confio, / e mesmo isto o sei pouco ou quase esqueço, / pois que de Vós, meu Deus, me fio em tudo».

Ao auscultar neste livro as «evasões» e «destinos da comunidade católica no Portugal de hoje», pode concluir-se que «a mundividência cristã e a escala cristã de valores parecem persistir como proposta de projeto de vida com estrutura de horizonte - sem embargo da debilitação de certas formas tradicionais da sua presença no espaço público, sem embargo da argumentação embaraçada no confronto com o discurso da autarcia da consciência individual e com as questões ditas “de costumes”».

«Talvez nesta obra se torne patente que para muitos deles cada vez faz mais sentido ir fraternamente ao encontro do outro, desde os domínios do pensamento - cientes de que o pensar cristão, como ensinou luminosamente Xavier Zubiri, é «comover-se», é mover-se em relação com os outros (cf. cap. I, VIII) – até àqueles espaços da vida comum (cf. cap. VI, VII) onde mais premente se torna o Problema da Habitação, em que a alta poesia de Ruy Belo figurou a dor de um mundo humanamente inabitável, desertado pela Justiça e pela Misericórdia, deserdado do Sentido sem embargo de um Deus que parece absconditus et otiosus - e onde, por consequência, os católicos têm de ser rosto e mão da presença amorosa do Deus vivo», conclui José Carlos Seabra Pereira. 

   

 

SNPC
Publicado em 18.05.2017

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos