Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Porque é que o Vaticano volta a estar num encontro de alta tecnologia?

Porque é que o Vaticano volta a estar num encontro de alta tecnologia?

Imagem SWSW | D.R.

Depois da intervenção na "Web Summit", a "cimeira da internet", em Lisboa, no mês de novembro, o bispo irlandês Paul Tighe, secretário-adjunto do Conselho Pontifício da Cultura, participou na iniciativa "The South by Southwest" (SXSW), nos EUA, marcando a primeira presença do Vaticano no encontro que agrega interesses como a interatividade, filmes e indústrias musicais.

O prelado integrou o painel "Disrupção compassiva: inovação e o Vaticano", realizado no domingo, com especialistas em vídeo, televisão e comunicação, incluindo um membro da SIGNIS - Associação Católica Mundial para a Comunicação, de que o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura é o representante em Portugal.

«Quando a sua comunidade tem mais de 1,2 mil milhões de pessoas e opera há mais de dois mil anos, há muito a considerar quando se fala de integrar novos meios de comunicação e tecnologia. O empenhamento interativo do Vaticano no "continente digital" contrasta com a velocidade da adoção das principais correntes tecnológicas. Todavia a sua singular abordagem ao Twitter, Instagram e vídeo digital ajudaram a fazer do papa o mais influente líder mundial na internet», refere o texto de apresentação do painel.

A nota sublinha que o primeiro debate do género na SXSW se focou em como «a mais antiga e maior comunidade mundial se está a adaptar e a tirar vantagem dos novos meios de comunicação para encorajar uma nova forma de disrupção, orientada pela compreensão, empatia e compaixão».



A estratégia de Francisco para a comunicação - não pregação - no Twitter é clara: «Quando o papa nos deu instruções, afirmou: "a única coisa que eu quero acima de tudo é tentar encorajar as pessoas. Este mundo é duro, difícil, sejamos pelo menos encorajadores"»



«Num mundo onde cada vez mais não somos convidados a tomar parte de debates, penso que se as pessoas estão interessadas em nos ter, nós estamos encantados por estar aqui», declarou Paul Tighe à BBC, manifestando ainda o desejo de «aprender» e saber «quais são as coisas que impulsionam uma geração de pessoas que, de muitas formas, estão a modelar o mundo».

Há cinco anos o papa emérito Bento XVI decidiu inaugurar uma conta no Twitter - @Pontifex -, que continua hoje com o seu sucessor. Esta primeira presença nas redes sociais contribuiu para o Vaticano conhecer, sem intermediações, que «há um ambiente muito «áspero», com «muitas provocações, muita negatividade».

Este diagnóstico, contudo, não foi motivo para desistir: «Se as pessoas que querem usá-lo para o bem saírem dele, então as provocações ganharão. Há um potencial para construir ligações, para aprender de pessoas que nos podem surpreender», realçou Paul Tighe, que de 2007 a 2015 foi secretário do Conselho Pontifício para as Comunicações Sociais.

Aquando da estreia de um papa no Twitter houve «boas-vindas da parte de muitos, mas houve também uma enorme quantidade de negatividade», ao ponto de haver quem tivesse apelado a que se lançasse uma "bomba" na rede social para forçar o Vaticano a sair. «Mas nós permanecemos e dissemos "não", este é um fórum muito importante».



«Não vamos romantizar: algum do trabalho que pode deslocado [para os robôs] é muito duro, perigoso e servil. Talvez não seja uma grande perda. Mas precisamos de refletir em que medida é que os seres humanos que trabalham não são apenas unidades que produzem produtos, são pessoas com histórias e famílias».



A estratégia de Francisco para a comunicação - não pregação - no Twitter é clara: «Quando o papa nos deu instruções, afirmou: "a única coisa que eu quero acima de tudo é tentar encorajar as pessoas. Este mundo é duro, difícil, sejamos pelo menos encorajadores"».

 

Quando o mundo faz a Igreja pensar

«Para a Igreja talvez o mundo nos tenha perturbado, perturbou muitas das nossas maneiras de formar comunidade. Está-nos a fazer pensar novamente sobre como trabalharmos», acrescentou o prelado.

Parte desse trabalho passa por convidar as pessoas a considerarem em que tipo de mundo na internet querem existir, e como o alcançar face à hostilidade e divisão crescentes. Para explicar este conceito, recorreu a uma frase que pode ter ressoado na audiência que o escutou durante a conferência.

«Há alguns anos, todos falavam sobre conteúdo gerado pelo utilizador. Mas penso que também precisamos de recuperar um sentido da cultura gerada pela utilizador. É a escolha dos indivíduos. Se se passa o dia com muitas coisas negativas no ambiente, é fácil absorver isso, levar isso a bordo. Mas o desafio para todos nós é tentar e dizer "sim", eu vou estar lá [redes sociais] mas não vou ser condicionado pelos seus aspetos menos positivos», explicou.



«Temos de assegurar que os nossos valores humanos e conquistas, em termos de respeito da dignidade e do valor das pessoas, são de alguma maneira programadas nas máquinas com que trabalhamos»



No que respeita à emergência da inteligência artificial e da robótica nos ambientes de trabalho, Paul Tighe apontou para um debate sobre o relacionamento entre a pessoa e a sua atividade laboral: «Não vamos romantizar: algum do trabalho que pode deslocado [para os robôs] é muito duro, perigoso e servil. Talvez não seja uma grande perda. Mas precisamos de refletir em que medida é que os seres humanos que trabalham não são apenas unidades que produzem produtos, são pessoas com histórias e famílias».

O prelado lançou um apelo para que empresários e criadores de tecnologias inovadoras considerem como podem envolver a Igreja e outros membros da sociedade nos seus produtos: «Penso que está na hora para uma boa e robusta conversa entre programadores e pessoas que vêm de diferentes posições éticas e filosóficas».

«Temos de assegurar que os nossos valores humanos e conquistas, em termos de respeito da dignidade e do valor das pessoas, são de alguma maneira programadas nas máquinas com que trabalhamos», concluiu.

Criada há 30 anos, em 1987, na cidade de Austin, a SXSX, cuja edição de 2017 termina no sábado, conta com um programa de conferências, exposições e apresentações de produtos, provando que «as descobertas mais inesperadas acontecem quando diferentes temas e pessoas se juntam».



 

Dave Lee
In "BBC"
Edição: SNPC
Publicado em 14.03.2017

 

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Evangelho
Vídeos