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Leitura: “Porquê a teologia? Na universidade e espaço público”

«Que lugar pode ser hoje reconhecido à teologia?» Esta é a interrogação central do livro “Porquê a teologia? Na universidade e espaço público”, de Alexandre Palma, recentemente publicado pela Universidade Católica Editora.

«Após uma breve contextualização do problema, propõe-se a teologia como via para uma singular penetração nas representações crentes, como dispositivo que as interpreta, critica e traduz. Argumenta-se, portanto, em favor do seu valor público e académico», lê-se no resumo da obra.

“A teologia nasceu fora de casa”, “‘Regina’ fora palácio”, “Que defesa fazer da teologia?”, “Teologia a três dimensões” e “Teologia no multiverso universitário” são os temas refletidos pelo autor, doutorado pela Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma), professor da Faculdade de Teologia e investigador.

Para Alexandre Palma, «a teologia será um interlocutor relevante para qualquer sistema de saberes e ciências que se interesse pelo fenómeno humano na sua integralidade».

Por isso, a «falta de comparência da teologia é grave, não apenas pelo que mostra acerca das suas próprias (in)capacidades, mas também pelo que acarreta de empobrecimento do debate público e académico».

Na introdução à obra, que apresentamos na íntegra, Alexandre Palma defende também que em sociedades plurais e globalizadas não é possível «uma qualificação pública da teologia que não seja integradora da diversidade com que o religioso hoje, mais do que nunca, se mostra».

 

Introdução
Alexandre Palma
In “Porquê a teologia? Na universidade e espaço público”

Que lugar para a teologia no espaço público e no meio universitário? Num mundo secularizado, que direito de cidadania pode ter um saber que se ocupa do divino e da relação humana com ele? Que crédito lhe poderá ser hoje reconhecido por outros saberes e ciências, esses que (idealmente) se definem a partir de uma neutralidade fundamental e geral?

A questão é, a meu ver, séria, atual e de difícil resposta. A questão é séria, porque toca a possibilidade de extinção da própria teologia ou, pelo menos – o que não seria muito diferente, embora talvez hipótese mais verosímil –, de uma sua perigosa guetização. Tal efeito, se não redundaria na sua sumária supressão, confirmaria, contudo, a sua irrelevância e incapacidade de falar a todos e com todos.



Que não sejam as configurações extremadas de distanciamento científico ou de proximidade crente, e os receios que elas legitimamente despertam, a determinar a forma como se pensam os estudos de religião e o lugar da teologia na comunidade científica



A questão é atual, porque ela, no fundo, denuncia a relativa ausência da teologia nos atuais debates culturais e nos espaços académicos. Esta falta de comparência da teologia é grave, não apenas pelo que mostra acerca das suas próprias (in)capacidades, mas também pelo que acarreta de empobrecimento do debate público e académico. Uma universitas scientiarum sem lugar para a teologia (auto)limita a universalidade do saber que lhe dá nome e sentido, incorrendo assim no que J. H. Newman vigorosamente considerava um “absurdo intelectual”. Desta restrição resulta uma outra, socialmente não menos significativa: a exclusão dos interessados no estudo universitário de tais matérias e, portanto, uma restrição do ideal de um ensino académico abrangente, que possa formar públicos diversificados.

A questão é, ainda, de difícil resposta, porque ela não é nova e afrontá-la implica também revisitar um passado complexo de tensão entre teologia e ciências. Difícil, sobretudo, porque a superação deste impasse supõe mexer com formas estabelecidas de representar o que seja a teologia, tanto por parte daqueles que lhe dão corpo, como por parte daqueles que dela desconfiam. Ora tal operação não se cumpre sem expor o argumento a um inevitável potencial de controvérsia.

A questão que aqui quero colocar é a seguinte: que contributo pode a teologia prestar às outras ciências? Afrontar este problema supõe uma reflexão sobre o que seja a teologia e como ela é percebida. Por dever de clareza e concisão, adianto, desde já, o essencial do que procurarei argumentar: a teologia reflete as representações crentes, individualmente consideradas e comunitariamente configuradas. Nesta medida e assim entendida – é este o meu argumento –, a teologia será um interlocutor relevante para qualquer sistema de saberes e ciências que se interesse pelo fenómeno humano na sua integralidade.



O labor científico, para não degenerar num qualquer exercício de propaganda (social, política, religiosa, económica ou outra), requer um distanciamento crítico face ao objeto em análise. Eis o motivo por que se procura neutralidade em ciência. Também isto, muito legitimamente, se espera num estudo rigoroso da religião



Não me parece que uma rígida separação entre o Homem religioso e o estudioso da religião (teólogo ou outro) seja sempre o mais produtivo ou sequer possível. Quando em tantas áreas da atividade e cultura humanas se esbate essa nítida fronteira entre ator e espectador seria estranho, quando não anacrónico, que tal se exigisse ao domínio do religioso sem uma devida ponderação. Isso mesmo o vêm demonstrando quer as ciências físicas, quer a epistemologia em geral: “nunca há uma posição [absolutamente] neutra a partir da qual se procura a verdade” (CTI: n.º 83). Na esteira de Gadamer, impõe-se reconhecer, também no campo do estudo do religioso, que “não existe conhecimento ‘puro’, ‘não preconcebido’” e que, portanto, “todo o conhecimento é ‘misto’” (Wachholz).

O labor científico, para não degenerar num qualquer exercício de propaganda (social, política, religiosa, económica ou outra), requer, de facto, um distanciamento crítico face ao objeto em análise. Eis o motivo por que se procura neutralidade em ciência. Também isto, muito legitimamente, se espera num estudo rigoroso da religião: não apologético, mas também não contra-apologético. Este movimento, contudo, não pode ser o único. Por exigência do próprio ideal científico (a busca de conhecimento aprofundado e exato), tal distanciamento terá de se articular com um movimento de sentido contrário: de aproximação ao objeto em análise. Com efeito, não só de separação, mas também de contacto, se faz o estudo rigoroso e informado. Esta penetração científica nas dinâmicas e representações crentes abre um espaço para a teologia. Que não sejam, portanto, as configurações extremadas de distanciamento científico ou de proximidade crente, e os receios que elas legitimamente despertam, a determinar a forma como se pensam os estudos de religião e o lugar da teologia na comunidade científica. É neste círculo hermenêutico, que expõe criticamente o seu próprio distanciamento ou aproximação, que a teologia encontrará o seu lugar no consórcio das ciências e nos espaços académicos.



Não escasseiam os exercícios em que se procura demonstrar o serviço que a teologia presta às comunidades religiosas. Menos comuns e não menos urgentes serão as propostas em que se pensa a teologia como serviço à academia e à sociedade. É neste outro terreno que se situa este ensaio



Ainda que cedendo, em parte, a uma linguagem binária, poder-se-á perspetivar o contributo específico da teologia a partir do ponto de observação adotado: “interno” ou “externo” ao fenómeno religioso e às comunidades crentes. Quem queira abordar o fenómeno religioso não apenas a partir de uma  perspetivação externa (distanciada), mas conhecê-lo também a partir do seu interior (aproximado), reconhecerá a validade e pertinência de uma hermenêutica aplicada às lógicas e sentidos que os próprios crentes dão às suas práticas, conceções e formas. Sem este insight, o estudo do religioso não alcança ainda ao limite as suas possibilidades. Ora a teologia, enquanto disciplina, pode oferecer precisamente esta janela para o sentido que os crentes dão às suas vivências de fé. Por isso recorro à categoria de representações crentes para propor esse contributo específico da teologia. Enquanto instância que descreve, interpreta e critica essas representações, a teologia assume a sua vocação específica.

A. Dulles, em The Craft of Theology, interroga-se acerca dos benefícios que a chamada “teologia universitária” poderá trazer para a vida das Igrejas. Sem negar pertinência à questão, move-me preocupação bem distinta, talvez mesmo inversa: pensar os benefícios que a teologia poderá trazer à comunidade universitária e, de forma mais abrangente, à sociedade e à cultura. Estarei, portanto, mais próximo de L. Boeve, quando este se pergunta: “numa cultura e sociedade profundamente transformadas, que lugar e estatuto para a teologia nos campos aos quais tradicionalmente pertenceu: a universidade, Igreja e sociedade?” Não escasseiam os exercícios em que se procura demonstrar o serviço que a teologia presta às comunidades religiosas. Menos comuns e não menos urgentes, serão essas outras propostas, em que se pensa a teologia como serviço à academia e à sociedade. É neste outro terreno que se situa este ensaio.

R. Kearney, discípulo de P. Ricoeur, conta que a primeira pergunta que o seu mestre fazia aos alunos era “d’où parlez-vous – de onde fala?”. Uma vez mais, por dever de clareza para com o leitor, cabe-me explicitar que falo a partir da teologia cristã. É esse o meu contexto e, portanto, o lugar de onde falo. Procuro, porém, uma abordagem que não feche a abrangência necessária da reflexão numa fronteira confessional, mas que antes a abra ao largo espectro do religioso e, por inerência, do teológico. Neste sentido, sem esconder o lugar particular onde me situo, procuro que o itinerário que aqui proponho seja também válido para referências religiosas que não as minhas. Em sociedades plurais e globalizadas, não me parece possível uma qualificação pública da teologia que não seja integradora da diversidade com que o religioso hoje, mais do que nunca, se mostra. Isto não anula que as minhas grandes referências, bem como dos autores com que mais interajo, provenham, de facto, predominantemente da experiência cristã e da cultura ocidental.


 

Edição: SNPC
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 02.03.2018

 

Título: Porquê a teologia? Na universidade e espaço público
Autor: Alexandre Palma
Editora: Universidade Católica Editora
Páginas: 72
Preço: 5,00 €
ISBN: 9789725405833

 

 
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