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Poesia: «São as palavras de todos os dias e contudo não são as mesmas»

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Imagem D.R.

Foi redigida por Paul Claudel a frase citada no título, recordada por Eugénio Lisboa na mais recente edição do "Jornal de Letras", em texto que tem por epígrafe dois versos de Armando Silva Carvalho: «E as insistentes palavras/ parecem desistir enquanto avançam».

«São realmente as palavras de todos os dias, mas deslocadas - nem que ligeiramente - do seu sentido e uso corrente: por associações inesperadas e refrescantes com outras palavras ou por qualquer outro tipo de "deslocação", sublinha o ensaísta.

Mesmo de um escritor para outro, frisa Charles Péguy, «uma palavra não é a mesma», até porque «um arranca-a do ventre» e «outro tira-a do bolso do seu sobretudo».

Para o escritor e diplomata, «no texto literário e, sobretudo no texto poético, interessa não só o significado da palavra, mas também o seu som, o seu volume, o seu peso. O poema faz-se com palavras usadas com toda a sua carga significante e sonora».

O crítico literário observa que «as ideias, só por si, não fazem o poema: é preciso construir essas ideias com palavras determinadas, associadas de maneira especial e colocadas no discurso de maneira peculiar», observa o crítico literário.

«No final, fica-se sem muito bem saber se o que nos toca, nos comove, nos atinge, é a ideia ou o modo como ela é formulada, como aquele acervo peculiar de palavras e com aquele som (aquela música) que emitem. É o que exprimia o poeta Paul Valéry, ao dizer: "O poema é uma hesitação prolongada entre o som e o sentido"», assinala.

A crónica acentua que «muito embora o poeta saiba que a sua matéria prima é a palavra, por vezes hesita e duvida da sua eficácia, da extensão do seu poder, da sua adequação ao projeto que tem em vista». E dá como exemplo versos de T.S. Eliot: «É estranho que as palavras sejam tão inadequadas./ No entanto, qual asmático lutando por um pouco de ar,/ assim o amante deve lutar pelas palavras».

«O poeta sabe muito bem que vive de palavras e que fenece da falta delas: não da falta de quaisquer palavras, mas da falta daquelas palavras especiais de que precisa para fazer poesia. Perguntaram um dia ao poeta irlandês William Butler Yeates se ele se sentia bem. Responde: "Não muito bem. Hoje só consigo escrever prosa"», aponta Eugénio Lisboa.

E ainda que as palavras na prosa e na poesia seja, as mesmas, nesta elas «são diferentes, soam diferente, funcionam de maneira diferente, percutem um som diferente». Como dizia o poeta francês Léon-Paul Fargue: «É preciso que cada palavra que cai seja o fruto bem maduro da suculência interior».



 

Fonte: "Jornal de Letras"
Edição: SNPC
Publicado em 19.05.2017

 

 
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