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Leitura: “Poesia e prosa escolhidas" de Gerard Manley Hopkins

«O mundo está pleno da grandeza de Deus./ Seu fulgor inflama, qual lâmina fulgurante; / Une-se numa grandeza, qual óleo derramado/ Exangue. Porque não reconhecemos hoje seu poder?»

Este é um dos poemas recolhidos por Pedro Mexia para a recensão do livro “Poesia e prosa escolhidas" de Gerard Manley Hopkins, que a Paulinas Editora inseriu na sua coleção “Biblioteca indispensável”, publicada na mais recente edição do suplemento do jornal “Expresso”.

«Católico convertido, sacerdote jesuíta», o autor (1844-1889) «foi um vitoriano invulgar cujas elipses e imagens insólitas o tornariam mais legível para os vindouros (o “amigo que jamais verei”) do que para os seus contemporâneos», assinala.

A «intraduzibilidade» que se atribui aos poemas de Hopkins, homem «austero e exigente» que «não ignorava a sensualidade nem os estados depressivos», «deve-se em grande medida ao vocabulário idiossincrático, às aglutinações, à sonoridade vigorosa», que o autor denominou «“sprung rythm, um ritmo “estalado” ou “fendido”.

Traduzidos por Mário Avelar, há dois poemas que «valem a edição», “O naufrágio do Deutschland” e “A grandeza de Deus”. No primeiro, elegíaco, o autor «tenta compatibilizar a catástrofe com a ideia de um Deus compassivo», enquanto que o segundo «é um poema de louvor».



«As suas reflexões nunca são meros complementos, ou anotações marginais, ou ociosas, mas reflexões que marcariam a história da poesia moderna. A sua prática poética andava sempre à frente da sua teorização, expressão admirável de uma energia criadora angustiosa»



«Qual é a cada momento a vontade divina? Porque triunfam os pecadores? Porque esbarram as orações num “céu de bronze”? Deus é um justo juiz, mas com Ele o poeta mantém longa batalha, que é também uma batalha consigo mesmo», observa o crítico.

O Deus de “A grandeza” manifesta em tudo a sua grandeza, «no exemplo dos santos e dos mártires, no génio dos artistas, nas “paisagens interiores”, de cada sujeito, das quais emergem, todavia, «trevas ameaçadoras» reveladas em «poemas de desolação, esperanças baldadas, indignidades, fardos pesados, malogros».

Atribuindo-lhe cinco estrelas em cinco, o poeta lamenta a escassez do número de poemas selecionados, a par de não se tratar de uma edição bilingue, mas «em compensação, as notas de pé de página são úteis, ao passo que os excertos em prosa (cartas, diários, sermões) dizem mais sobre os conflitos de fé e os colapsos nervosos de Hopkins do que sobre a sua poesia».

«Estranhamento moderno», Hopkins «viveu no mundo, embora frequentemente como um recluso, enfrentou o diabo em diferentes rostos possíveis do mal, e a carne foi um dos seus motivos de reflexão e de sofrimento mais agudos», reflete por seu lado Hugo Pinto Santos no “Público”.

«As suas reflexões nunca são meros complementos, ou anotações marginais, ou ociosas, mas reflexões que marcariam a história da poesia moderna. A sua prática poética andava sempre à frente da sua teorização, expressão admirável de uma energia criadora angustiosa», refere.

O artigo anota que o volume «disponibiliza apenas cerca de duas dezenas de poemas, além de uma escolha, igualmente breve (embora necessariamente equilibrada, no conjunto, tendo em conta o volume que é dedicado à poesia), da muito importante prosa do poeta, entre cartas, diários e “outros textos”».


 

Rui Jorge Martins
Fontes: Expresso, Público
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 17.09.2018

 

Título: Poesia e prosa escolhidas
Autor: Gerard Manley Hopkins
Editora: Paulinas
Páginas: 88
Preço: 10,50 €
ISBN: 978-989-673-646-0

 

 
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