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Pobre para os pobres, dom de Deus para todos

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Pobre para os pobres, dom de Deus para todos

«Bendito o Menino que hoje fez exultar Belém./ Bendito o infante, que hoje rejuvenesceu a humanidade./ Bendito o fruto, que se inclinou a si próprio para a nossa fome./ Bendito o Bom, que num instante enriqueceu toda a nossa pobreza e preencheu a nossa indigência./ Bendito aquele que se curvou pela sua misericórdia para tomar conta da nossa enfermidade.»

Com estas palavras Santo Efrém confia à poesia a exaltação do mistério do Natal, num hino composto no século IV. As palavras são simples e profundas, vindas de uma palpável comoção. No coração do louvor, o segredo de um Menino revelado ao mundo: Ele é motivo de alegria para toda a Terra, de quem é rebento eleito, primícia de salvação. Deste Menino o santo siríaco celebra a condescendência, o seu curvar-se pela sua misericórdia, o seu fazer-se próximo da nossa miséria até a encher de abundância.

O Natal é o mistério de um presente: não de um presente qualquer, não um dos muitos que se juntam debaixo da árvore, tantas vezes para honrar mais um “dever” de circunstância do que uma necessidade real. «Um Menino nasceu para nós, um filho nos foi dado» (Isaías 9, 5). Ele é verdadeiramente para nós.

No Natal Deus dirige-se mais do que nunca a nós: sorri-nos no sorriso de uma criança, acolhe a nossa solicitude como o mais frágil e necessitado dos homens. É uma imagem muito querida para a nossa tradição, nunca faltando nos presépios que se iluminam nas nossas casas. É, todavia, uma imagem que evoca muitas outras. E convida a não esquecer.

No rosto do Menino de Nazaré a fé convida-nos a encontrar aquele, talvez menos beatífico, de muitas crianças igualmente necessitadas e frágeis. Nos contornos do filho de Maria deveremos descobrir, não sem consternação, aquele de muitos filhos que vêm ao mundo na precariedade, na indigência mais clamorosa. Nos primeiros, aflitos dias do Redentor envolto em faixas, deveremos rever a fatigante luta pela sobrevivência de famílias que também não renunciam à alegria de dar ao mundo uma nova vida, a dramática procura de alojamento, de segurança e de proteção, que muitas vezes as obriga a mudarem-se para longe das fronteiras das suas terras.

No mistério do Deus Menino não estará talvez refletido o suplício das crianças náufragas nas nossas costas? Vemo-las jacentes, abandonadas pelas ondas na areia, traídas pelo desespero que impeliu os seus entes queridos a levá-las consigo em busca de serenidade. E ainda assim, o Natal parece-nos, às vezes, outra coisa. Não deveria talvez suscitar o mesmo tremor de veneração o mistério do sofrimento de quem, inocente, tem de pagar por culpas alheias o preço de vir ao mundo?

Deveria indignar a facilidade com que a atual atenção mediática se desvia das tragédias do Mediterrâneo para a opulência das grandes festas. Chora-se e agasta-se pelo abuso, pela violência de que são objetos os mais pequenos, mas trata-se muitas vezes de um efeito “a termo certo”. O mistério do Natal, ao contrário, convida-nos a uma memória perene, a não esquecer. Porque «um menino nasceu para nós», a nós, cada um de nós «nos foi dado um filho».

No sulco do Jubileu extraordinário inaugurado pelo papa Francisco, o Menino de Nazaré aponta-nos o caminho da proximidade. Nele – diz-nos Santo Efrém – resplandece o exemplo de uma misericórdia que não se contenta com a candura dos bons propósitos, mas desce ao terreno para se fazer ação, reação, resgate. Aquele Menino, miserável entre os miseráveis, curvou-se sobre a nossa indigência, por misericórdia. Aprendamos dele a inclinar-nos também nós uns para com os outros. Aprendamos que não somos tão pobres que não possamos dar nem tão ricos que não tenhamos de receber. Porque um Menino nasceu para nós, um filho nos foi dado.

 

Card. Angelo Bagnasco
Presidente da Conferência Episcopal Italiana
In "Avvenire"
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 24.12.2015

 

 
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No mistério do Deus Menino não estará talvez refletido o suplício das crianças náufragas nas nossas costas? Vemo-las jacentes, abandonadas pelas ondas na areia, traídas pelo desespero que impeliu os seus entes queridos a levá-las consigo em busca de serenidade. E ainda assim, o Natal parece-nos, às vezes, outra coisa. Não deveria talvez suscitar o mesmo tremor de veneração o mistério do sofrimento de quem, inocente, tem de pagar por culpas alheias o preço de vir ao mundo?
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