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«Pobre diabo»

Não é sobre a expressão popular «pobre diabo» que aqui se pensa. Trata-se de compreender o sentido do mal como expressão pessoal – humana e não só, antes, de todas as entidades analogáveis logicamente ao ser humano – de pobreza ontológica, de pobreza segundo o ser.

A figura mítica do diabo é o paradigma da ação ética e política segundo não o princípio do bem comum como melhor bem universal possível realizado – o desígnio criador de Deus –, mas segundo o princípio do literal roubo – pois é sempre violento – do que são as possibilidades próprias dos outros.

Neste sentido, o diabo é o paradigma do ladrão. Mas não é apenas o seu paradigma como é o ápice de tal forma de ação: é a suprema besta predatória. Ainda neste sentido, o diabo, porque é o que mais e melhor rouba, é o que tem necessariamente de ser o mais pobre.

Só se consegue perceber tal por comparação com o que é o absoluto da riqueza de Deus, ou que Deus é como riqueza, precisamente ontológica, precisamente de ser.

Como se sabe, em certa forma tradicional, atribui-se o número sete a Deus, como sinal próprio da sua perfeição, e ao diabo o número seis, como marca própria da sua imperfeição. Não é a numerologia que aqui nos importa, mas perceber que o número «seis» do diabo marca o absoluto do limite a que está votada a sua ação predatória: é o limite do roubo da riqueza que não lhe pertence propriamente. Não pode ir mais longe. Nunca pode ser «sete»; não pode “roubar Deus”.



O sentido cristão da riqueza funciona ao contrário do sentido neopagão vigente: não é porque me enriqueço que o mundo fica mecanicamente mais rico; é porque enriqueço o mundo que, neste mesmo ato, fico mais rico.



A diferença entre o seis e o sete – infinita – constitui o absoluto da distância ontológica entre a perfeição e a imperfeição a que a besta está condenada. É também a marca da impotência da besta, impassível de franquear a distância que medeia entre a sua imperfeição e a perfeição divina. Esta incapacidade é o ato do inferno do diabo, pois é o próprio dele e o pior de todos.

Este abismo de mediocridade ontológica não tem comparação quer com a vulgar mítica prometeica quer com a aburguesada mítica fáustica, em que parece que é mesmo possível “chegar ao Olimpo”. Na mítica cristã, tal não é possível: não se vence Deus, não se negoceia a grandeza ontológica; não se alcança o céu por truque, comércio ou violência.

A grandeza ontológica – é a grande mensagem, tanto mítica quanto prosaicamente histórica como semente do possível desta – da criação é ou apenas dada por Deus – caso da natureza não autológica, não autónoma, porque não autológica – ou dada por Deus como forma de possibilidade de coconstrução da grandeza ontológica própria, caso dos entes autológicos, como os seres humanos, mas também como a figura do anjo, mesmo do anjo que quer ser Deus.

Em termos cristãos, não se assalta o Olimpo e não se ganha grandeza ontológica própria em forma comercial: o ser é dado ao ente não para que este se prostitua ou roube o bem que não lhe compete, mas para que, sobre o dom incoativo de seu ser como ato irredutível de seu possível próprio, construa o restante possível de seu ser como se de um lar em que co-habita com Deus se trate. É este o sentido profundo do Céu, não como lugar mítico, mas como copresença de Deus e da criatura. Copresença que é amor.



Saiamos do abstrato, concretizemos: o dirigente político que, em vez de trabalhar para o bem comum, rouba a parte desse bem que compete não a si, mas aos seus “governados”; o empresário que explora o trabalho dos que lhe constroem a riqueza, não lhes pagando o devido; mas também o empregado que não cumpre com a parte de ação de bem que lhe compete



Em termos cristãos, o mais rico dos seres humanos é esse que se constrói como ato de amor com Deus – não é apenas «a» Deus, contra a criação, o que seria absurdo, mas com Deus e com a criação, ambos amáveis e amados –, em que, amando cada vez mais e melhor, isto é, introduzindo no mundo cada vez mais bem, se enriquece. A possível «cidade de Deus».

O sentido cristão da riqueza funciona ao contrário do sentido neopagão vigente: não é porque me enriqueço que o mundo fica mecanicamente mais rico; é porque enriqueço o mundo que, neste mesmo ato, fico mais rico. A prioridade cristã não é ética – não parte do agente para a sua transcendência –, é política – parte do bem feito pelo agente aos outros, que, como forma de retorno poético, enriquece o agente, isto é, enriquece a dimensão ética, interior, da pessoa.

Ora, a figura do diabo é precisamente a figura do egoísta ético: do que quer o bem todo para si. Mas este é o pobre: não o «pobre de pedir», mas o «pobre de roubar», incapaz de ser sem que parasite o bem dos outros, numa ação política que, simbólica, mas também realmente, funda a realidade do inferno; do inferno mítico e do inferno em que se transforma o mundo submetido à ação de todos os «pobres diabos» que fazem da sua existência própria um constante ato de parasitação do bem que competiria a outros, assim lhes impossibilitando quer a existência própria como um todo quer a existência própria com a devida dignidade. Esta dignidade não é apenas ética e política, mas é, também e fundamentalmente, ontológica e, como se percebe cada vez melhor, ecológica, no sentido mais vasto do termo.

Saiamos do abstrato, concretizemos: o dirigente político que, em vez de trabalhar para o bem comum, rouba a parte desse bem que compete não a si, mas aos seus “governados”; o empresário que explora o trabalho dos que lhe constroem a riqueza, não lhes pagando o devido; mas também o empregado que não cumpre com a parte de ação de bem que lhe compete; o “pai” (progenitor, neste caso) que gasta em ações e paixões viciosas os bens que deveria dedicar à família; o “professor” que rouba as ideias dos alunos e faz carreira com elas; os exemplos poderiam continuar, pois constituem, no seu pormenor, a tessitura do que é o inferno na terra que a pobreza dos pobres diabos que somos produz, quando, em vez de amarmos, isto é, de agirmos no sentido do bem de algo, destruímos esse mesmo algo quer na forma de eliminar o que é ou parte do que é quer na forma, mais insidiosa, de destruir a sua possibilidade.

Sartre apontava – é conhecido – para o facto de o «inferno ser(em) os outros». No sentido que aqui temos vindo a explorar, tem razão sempre que os outros nos roubam o bem que é, por direito criatural, nosso; mas tem ainda mais razão se se perceber que nós somos esses outros quando, aos outros, roubamos o que é deles, por direito criatural.

Que queremos ser: «pobres diabos», feitos à imagem do impotente «6» do mito, ou grandes poetas da criação, cooperadores com Deus no poema possível de um mundo de suave riqueza, abundante paz, divina força criadora?


 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Imagem: "A tentação de Santo Antão" (det.) | Seguidor de Hieronymus Bosch | C. 1550
Publicado em 05.09.2018

 

 
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