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Pingos de chuva em chão molhado

Talvez sejam apenas mais alguns pingos de chuva num chão já muito molhado e não façam grande diferença no sentido para onde as águas correm, mas apetece-me falar do Papa Francisco e do modo como Jorge Bergoglio tem ocupado a cadeira de S. Pedro, especialmente na questão da pedofilia.

Mais do que apetecer, sinto que devo verbalizar, enquanto católico, a minha adesão total à posição do Papa Francisco sobre esta matéria e sobre outras que vão determinando o caminho da Igreja. Os bispos portugueses sentiram o mesmo e falaram diretamente ao Santo Padre. Sentiram que é estando próximo da realidade das vidas das pessoas que o Evangelho de Jesus marca a diferença. Foi um claro e sonoro “não” à política baixa de atacar o Santo Padre com argumentos falaciosos sobre o seu eventual encobrimento de casos de pedofilia. Um “não” à política de confrontação e de “guerra” que alguns setores mais radicais seguiram utilizando métodos que não fazem parte da ação da Igreja de Cristo que é uma Igreja que não deve pisar os mesmos terrenos da política mundana.

Ninguém duvida que o Papa sofra com a realidade perversa, abjeta e desviante que é a pedofilia no seio de clérigos bem como o encobrimento que foi feito dessa realidade durante décadas, pondo a instituição acima das pessoas. A esses, Jesus chamou, hipócritas. Mas a dimensão do problema também não pode ser ignorada e há que evitar, a partir de agora, que se volte a repetir um equívoco tão grande no seio da Igreja sobre a sua verdadeira missão na Terra. Mas o Papa não está pacificado com todo o drama, sente que o futuro é a grande preocupação. Há que falar e pensar em como não repetir os mesmos erros. Por isso, em fevereiro do próximo ano, vai encontrar-se com os presidentes das conferências episcopais de todo o mundo. Sobre esse encontro, apenas posso rezar que o Espírito guie os bispos e os ajude a decidirem bem sobre como a Igreja não pode voltar a estar numa posição tão frágil como a que está agora.

Ainda sobre a pedofilia, o Santo Padre disse recentemente que a Igreja não cuidou das crianças: “abandonámo-las", sublinhou Francisco ao reconhecer, com vergonha e arrependimento, que a Igreja não esteve onde devia ter estado e não agiu de forma atempada, percebendo a magnitude e a gravidade dos danos causados a tantas vidas.

Espero, ardentemente, que a Igreja esteja sempre onde deve estar e a agir de forma atempada para estar ao lado dos que não podem ser abandonados nem esquecidos.

A cada um de nós fica a interpelação de olharmos para as nossas vidas e vermos quem abandonamos e de quem não cuidamos. Ver a quem molestamos com o nosso egoísmo, a nossa prepotência e falta de humildade.

Fica o desafio de Jesus na cruz: “Tenho sede”. Sede de nós, filhos amados de Deus. Saibamos saciar a sede de Cristo e sermos pingos de chuva na terra cada vez mais árida deste planeta.


 

Paulo Nogueira
Jornalista
Imagem: Netfalls/Bigstock.com
Publicado em 19.09.2018

 

 
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