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Periferias: Crise e novidade para a Igreja

Imagem © 2013

Periferias: Crise e novidade para a Igreja

A condição humana mudou rapidamente no século XX: nos princípios de 1900 só um décimo dos habitantes do mundo vivia nas cidades, sobretudo na América do Norte e na Europa, enquanto que em 2030 se prevê que quase 60% da população mundial seja urbana. O planeta é uma realidade atualmente urbanizada: no século passado ocorreu a grande reviravolta, que inverteu a relação entre cidade e campo. Em 2007, em pleno processo de globalização, pela primeira vez na história humana, os habitantes das cidades ultrapassaram os do campo: o mundo tornou-se essencialmente urbano. Mas tudo isto aconteceu de maneira muito particular: grande parte da população das cidades vive agora nas periferias. Paolo Sellari observa que a cidade do Terceiro Mundo tende a reproduzir a dialética centro-periferia que em larga medida caracteriza ainda hoje o mundo sócio-económico, não só nos centros urbanos mas em países inteiros.

A periferia caracteriza em profundidade o mundo contemporâneo com aglomerados que se adensam em torno às cidades. Com efeito, o processo de urbanização global induz um fenómeno característico da cidade contemporânea: o crescimento dos bairros de barracas. Em 2003, 71,9% da população da África abaixo do deserto do Sahara vivia em barracas. Esta é a condição urbana mais espalhada no continente: a da periferia. A nível mundial, os habitantes das barracas atingem hoje os 31,6% da população. É um povo enorme. Um mundo que não tem voz mas que recebe constantes mensagens de um centro («mediático»), que atrai para níveis de vida impraticáveis. Os periféricos são um povo de «excluídos», que são continuamente solicitados e postos em contacto com modelos inalcançáveis.

Os problemas concretos colocados pela rápida mudança da condição de vida da população mundial são numerosos: dos relativos aos aprovisionamentos alimentares aos da diminuição ou inquinamento dos recursos hídricos, à dificuldades dos transportes urbanos (inadequados ou extremamente escassos em algumas cidades), aos óbvios, mas dramáticos, problemas do trabalho. A realidade humana e social das cidades do século XXI é muito diferente daquela da cidade do século anterior. A presença de grandes aglomerados de proletariado (portanto, de periféricos) na cidade de 1900 estava frequentemente em relação dialética ou cinflitual com o «centro» através da realidade da luta política e sindical, mas no fundo encontrava-se – ainda que em contraposição – no interior de um horizonte comum. Mediante o confronto e a politização das aspirações da periferia criava-se um processo integrador.

Hoje é muito diferente. As periferias, que são muito mais integradas de um ponto de vista de comunicação comparativamente às do século passado, estão por seu lado afastadas e não representadas de um ponto de vista social e político. Aqui, muitas vezes, as redes sociais são frágeis ou ausentes. O controlo sobre espaços urbanos periféricos torna-se complexo e difícil, de tal forma que vastas áreas – especialmente nas megalópoles – acabam sob o domínio das máfias e dos carteis internacionais ou nacionais do crime.

A cidade do século XXI é cada vez menos uma comunidade de destino. Com efeito, enquanto que uma parte dela é absorvida nos fluxos globais e continuam na via da internacionalização, outra fica à margem e fora dos circuitos de integração, isto quando não se afunda numa condição de isolamento. São os bairros abandonados onde muitas vezes as pessoas vivem toda a existência e onde provavelmente os filhos terão a mesma vida dos pais. O universo das megalópoles estruturou-se de forma a que muito espaço habitado se tenha tornado lugar de exclusão. A megalópole produz constantemente periferias urbanas e humanas. Perante esta realidade, espécie de Sul do mundo, o Estado e as instituições renunciam muitas vezes a um controlo real destes espaços. Torna-se um mundo perdido, em que os dramas humanos e sociais se ligam às redes criminosas e rebeldismos endémicos, no quadro de uma cultura da sobrevivência.

O cristianismo – sob o impulso do papa Bergoglio – tem a possibilidade de compreender de modo novo a condição humana e urbana do século XXI. Certamente que este processo exige profundas mudanças. Já não é possível enfrentá-lo com o mapeamento territorial, típico de outras épocas, fortemente influenciado pelo mundo do campo, que dividia o espaço em circunscrições predefinidas. A própria ideia de território como habitat exclusivo do homem e da mulher é colocada em causa pela mobilidade humana e dos transportes, além das comunicações via Internet. O sistema pastoral revela-se inadequado.

Após o Vaticano II, no seguimento da renovação da eclesiologia [tratado sobre a identidade e organização da Igreja], insistiu-se muito na dimensão da Igreja local, mas a renovação ficou a meio caminho. A Igreja local, à sua volta, tem muitas vezes uma visão centralista que não dá espaço às periferias. Não basta dividir as dioceses e tornar o centro mais próximo das periferias. É preciso suscitar novas realidades cristãs nas periferias, aceitando a sua história e configuração. Nem tudo pode ser programado do centro. E a diversidade das experiências cristãs sobre o mesmo território não significa competitividade. O verdadeiro ponto focal é o de um cristianismo inserido na cultura e na realidade urbana, sobretudo, das periferias.

O papa Francisco, falando aos superiores-gerais das congregações religiosas, proferiu uma importante afirmação: «Estou convencido de uma coisa: as grandes mudanças da história realizaram-se quando a realidade foi vista não do centro, mas da periferia. É uma questão hermenêutica [de interpretação]: só se compreende a realidade se ela é olhada da periferia, e não se o nosso olhar é colocado num centro equidistante de tudo».

A «chave hermenêutica» de Francisco não é um projeto de reforma da Igreja através de estruturas mais descentradas. É uma proposta que deve ser recebida e realizada construtivamente, inaugurando ou continuando percursos nas periferias e com uma visão a partir de baixo. É necessário, com efeito, perguntar-se o que significa viver o Evangelho num mundo urbano global tão alterado, ou melhor, numa “civilização” tão nova em tantos aspetos, como aquela que foi introduzida pela globalização. Para realizar esta operação tão importante, que representa uma passagem histórica, é preciso deslocar-se para as periferias como experiência cristã e como ponto de partida para uma inteligência da realidade. Não se trata de uma posição ideológica, mas de pensar uma história que pode e deve recomeçar destas posições  e de amadurecer uma visão nestes ambientes.

O tema das periferias e o da cidade global marcam uma passagem fundamental de uma conceção eclesiástica da Igreja e da pastoral, que com morosidade e com contradições recebeu o Concílio Vaticano II, a uma conceção de Igreja de povo. Não se trata, com certeza, de subvalorizar o ministério sacerdotal, mas de não concentrar nele toda a responsabilidade pastoral (como se faz geralmente, não obstante os muitos discursos de sinal contrário e aqueles recorrentes contra o clericalismo). Deve fazer-se emergir um povo que, na sua complexidade e totalidade, seja capaz de comunicar o Evangelho, de o viver nas periferias das cidades, de dar origem a percursos cristãos diversos, ainda que convergentes na única grande família da Igreja.

 

Andrea Riccardi
Historiador, fundador da Comunidade de Santo Egídio
In “Periferie. Crisi e novità per la Chiesa” (Periferias. Crise e novidade para a Igreja), Jaca Book; in "Corriere della Sera"
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 09.05.2016

 

 
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As periferias, que são muito mais integradas de um ponto de vista de comunicação comparativamente às do século passado, estão por seu lado afastadas e não representadas de um ponto de vista social e político
A Igreja local, à sua volta, tem muitas vezes uma visão centralista que não dá espaço às periferias. Não basta dividir as dioceses e tornar o centro mais próximo das periferias. É preciso suscitar novas realidades cristãs nas periferias, aceitando a sua história e configuração
É necessário, com efeito, perguntar-se o que significa viver o Evangelho num mundo urbano global tão alterado, ou melhor, numa “civilização” tão nova em tantos aspetos, como aquela que foi introduzida pela globalização. Para realizar esta operação tão importante, que representa uma passagem histórica, é preciso deslocar-se para as periferias como experiência cristã
O tema das periferias e o da cidade global marcam uma passagem fundamental de uma conceção eclesiástica da Igreja e da pastoral, que com morosidade e com contradições recebeu o Concílio Vaticano II, a uma conceção de Igreja de povo. Não se trata, com certeza, de subvalorizar o ministério sacerdotal, mas de não concentrar nele toda a responsabilidade pastoral
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