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A peregrinação para o Santuário, âmbito de Cultura

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A peregrinação para o Santuário, âmbito de Cultura

A ligação do Santuário à Cultura não precisa de prova: tem uma evidência histórica que atravessa incólume séculos e gerações, perfeitamente transversal a gostos, indiferente a alinhamentos ideológicos. Entre culto e cultura há um vínculo vital, que moldou e molda não apenas as formas do tempo, mas também a da alma. O Santuário foi desde sempre um laboratório de humanidade: acompanhando as idades da vida e as estações do ano, encontrando sentido na abundância e na escassez, sela ela material ou espiritual, fortalecendo as horas de fragilidade, ampliando as de alegria e festa. E operando tudo do modo mais essencial: avizinhando com simplicidade a experiência de Deus da experiência histórica, inscrevendo o divino na paisagem do mundo, revitalizando a indagação interior.

O Salmo 42, na ressonância íntima e pungente das suas imagens (o suspiro da corça, a sede de Deus, a recordação da Casa do Senhor...), traduz bem o que o Santuário representa na construção da experiência humana e crente.

«A minha alma estremece ao recordar
quando passava em cortejo para a Casa do Senhor,
entre vozes de alegria e de louvor
da multidão em festa» (v. 5).

O Santuário é esse estremecimento, esse sobressalto na linearidade do tempo. Ele é o mapa e a viagem, a sede e a fonte do desejo de Deus. No seu comentário ao Salmo 42, Gianfranco Ravasi explica que o desejo de «ver, de contemplar o rosto de Deus» se concretiza na chegada ao santuário, quando o crente se coloca, confiante, «diante do rosto de Deus». Nessa mesma linha, uma importante poeta portuguesa contemporânea, Sophia de Mello Breyner Andresen, escreveu:

«Esta casa é feita de matéria para habitação do espírito
Como o corpo do homem é feito de matéria e manifesta o espírito
A casa é construída no tempo
Mas aqui os homens se reúnem em nome do Eterno...».

Não se pode hoje pensar o significado e a missão do santuário sem ter em conta o quadro de alterações culturais em curso. No seu magistério, o papa Bento XVI insistiu nisso, por exemplo na sua visita a Portugal, quando alertava: «Nestes últimos anos, alterou-se o quadro antropológico, cultural, social e religioso da humanidade». Temos de integrar devidamente a complexidade dessa reflexão.

Por um lado, quando meditamos na convulsão cultural do nosso tempo, percebemos que diagnósticos proféticos como os de Odo Casel, nos idos da década de 50, não deixam de ganhar uma verosimilhança perturbadora. Dizia ele: «O homem quer ser para si o fim último, sem estar submetido a ninguém... A natureza perdeu o seu carácter de mistério. O mundo está sem sinais divinos... Não existe já aquele halo de mistério... Cada dia a Terra perde uma parte da sua grandeza e da sua profundidade».

Mas, por outro lado, o vento do Espírito não tem deixado de soprar, semeando sinais de vitalidade e esperança no coração do mundo moderno. Um desses grandes sinais é, precisamente, a reativação religiosa e cultural dos santuários e da figura do peregrino. Por todo o lado há vozes acordando os velhos caminhos de peregrinação. Retomam-se práticas e tradições que se julgavam sepultadas. O peregrino deixa de aparecer como uma curiosidade histórica, ou como uma personificação da excentricidade e da moda. O que as estatísticas revelam são mulheres e homens comuns, sem nada de excêntrico, de idades e proveniências diferentes que transportam, com muita sinceridade, questões fundamentais, muito para lá do imediato e da deriva exuberante.

É verdade que a chamada morfologia do peregrino não é isenta de ambiguidades e pode ainda corresponder a uma tipologia do sagrado contaminada pelos traços da cultura dominante: a mobilidade em detrimento do compromisso, a espontaneidade em detrumento do maturar aturado, o culto excitante do excecional em vez da aceitação corajosa e serena dos caminhos quotidianos. A afirmação de um registo estético, imbuído de intensidade e emoção, pode inclusive corresponder à sensibilidade mais epidérmica dos comportamentos contemporâneos. Mas isto não é uma fatalidade, nem, de longe, é o retrato todo. Pelo contrário, a reativação da figura do peregrino e do espaço do Santuário traz desafios de ordem eclesial e cultual de primeira grandeza. Enumero brevemente alguns.

1. No discurso que Bento XVI fez em Portugal, precisamente aos representantes do mundo da cultura, dizia que «a Igreja sente como sua missão prioritária, na cultura atual, manter desperta a busca da verdade». A revitalização pastoral do Santuário passará certamente por aqui: por despertar no coração do homem contemporâneo, soterrado em simulacros e contrafações, um desejo autêntico de verdade. Nesse sentido o Santuário não pode ser apenas um lugar de passagem ou distração. Deve sim relançar cada existência na procura de uma verdade que responda às altas exigências do coração humano.

2. O Santuário é chamado a constituir uma referência estável e estruturante no percurso do peregrino, que por sua natureza vive um percurso móvel, feito de perguntas, tecido de razões apenas esboçadas e de pontos de partida muitas vezes insuficientes e pobres. Nesse sentido, o Santuário é chamado a assumir uma proposta de evangelização clara, mas também criativa, num diálogo franco com a abertura e as expetativas daqueles que procuram, através dele, a confirmação para a aventura da sua fé. Este encontro só pode permitir a revalorização das estruturas profundamente narrativas da fé cristã.

3. No novo contexto antropológico e cultural, também as trajetórias da identidade crente se alteram: os percursos são mais individuais, mas não necessariamente menos exigentes; o sentido do Absoluto e do Transcendente é soletrado com outra dicção, mas não necessariamente despojada de intensidade; a mobilidade contraria as mediações estáticas de iniciação e celebração; novos espaços de construção social emergem nas vastas, e ainda desconhecidas, redes do eletrónico e do virtual; instalam-se novos códigos de cooperação com a realidade.
Um dado interessante é perceber como o Santuário continua a ser muito significativo para os chamados "cristãos-culturais", que não têm uma prática religiosa continuada. Ou permite uma aproximação aos não-crentes, que ali reconhecem um espaço importante de silêncio, acolhimento e meditação.

4. Se o Mistério de Deus se soletra pela tríada Verdade, Bem e Beleza, quer dizer que esta última integra o património íntimo que dá substância à própria Fé. Sem a Beleza, a experiência cristã permanece incompleta, porque Deus é Beleza, esplendor, glória. Nós sabemos bem os riscos de um cristianismo puramente histórico, articulado simplesmente entre convicções e práticas. O cristianismo é também um sobressalto de infinito, paixão pelo absoluto, uma epifania que nos transcende, uma inexplicável emoção que nos derruba nos caminhos de Damasco que são os de todas as vidas. Nesse sentido, é essencial que o Santuário redescubra a "Via Pulchritudinis" e estimule a relação entre património artístico e evangelização.

5. É tempo, por fim, de ultrapassar apressadas antinomias e revalorizar aquilo que aproxima o peregrino do viajante ou avizinha a peregrinação religiosa dessa "peregrinatio" secular a que chamamos turismo.
O turista e o peregrino têm m ais em comum do que possa parecer. Um pelo caminho do lazer, outro pela volta do sagrado: é, contudo, um impulso antropológico semelhante que os move. O peregrino conserva alguma coisa do turista. A peregrinação também é uma forma de viagem. Na prova real da deambulação pelo espaço, o peregrino busca, também ele, uma visão. Com uma diferença qualitativa: a natureza dessa visão é interior. Não se trata simplesmente de ver mundo, mas de ver dentro e para lá do mundo, tateando um sentido, uma luz, um encontro, uma revelação.
Mas o tursiat conserva coisas do peregrino. Qualquer viagem pressupõe, por exemplo, uma reflexividade, uma experimentação sobre si mesmo, uma descoberta de si. Mesmo se o que vemos são linhas, digressões por cidades ou caminhos, mesmo se nos parece estar apenas perante a representação objetiva da paisagem diurna ou do deslumbramento noturno: por detrás de cada fragmento solto do mundo encontra-se uma pergunta maior.

 

Esta transcrição omite as notas de rodapé.

 

José Tolentino Mendonça
Publicado em 23.08.2016

 

 
Imagem D.R.
O vento do Espírito não tem deixado de soprar, semeando sinais de vitalidade e esperança no coração do mundo moderno. Um desses grandes sinais é, precisamente, a reativação religiosa e cultural dos santuários e da figura do peregrino. Por todo o lado há vozes acordando os velhos caminhos de peregrinação. Retomam-se práticas e tradições que se julgavam sepultadas
A revitalização pastoral do Santuário passará certamente por aqui: por despertar no coração do homem contemporâneo, soterrado em simulacros e contrafações, um desejo autêntico de verdade. Nesse sentido o Santuário não pode ser apenas um lugar de passagem ou distração. Deve sim relançar cada existência na procura de uma verdade
Um dado interessante é perceber como o Santuário continua a ser muito significativo para os chamados "cristãos-culturais", que não têm uma prática religiosa continuada. Ou permite uma aproximação aos não-crentes, que ali reconhecem um espaço importante de silêncio, acolhimento e meditação
Qualquer viagem pressupõe, por exemplo, uma reflexividade, uma experimentação sobre si mesmo, uma descoberta de si. Mesmo se o que vemos são linhas, digressões por cidades ou caminhos, mesmo se nos parece estar apenas perante a representação objetiva da paisagem diurna ou do deslumbramento noturno: por detrás de cada fragmento solto do mundo encontra-se uma pergunta maior
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