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Paz e medo

Paz e medo

Imagem Flynt/Bigstock.com

O sentido corrente que se atribui a «medo» é o de ser um sentimento, algo de subjetivo, mas sempre numa relação com um qualquer determinado objeto, que, por sua vez, determina o próprio medo: tem-se medo «de», de algo. Este «ter medo de» é percebido comummente como algo de “natural”, de “normal”, queiram estes termos dizer o que quiserem, não discutimos isso aqui. O medo é sempre transitivo na direção e sentido do seu suposto objeto. «Ter medo» é um “verbo” transitivo.

Por sua vez, ter medo intransitivamente, é considerado como algo de estranho, mesmo de patológico: para que se possa ter medo, há que se ter um objeto de que se tenha medo: do papão, ao patrão; dos freudianos pai e mãe, ao pavlovianamente político oligarca; da morte – quantas vezes em prosopopeia – à vida plena (de que se tem mais medo, muitas vezes, do que da morte, que é um descanso) –, tudo serve para justificar objetivamente não apenas o ter medo, mas o poder ter medo.

Ora, o medo nada tem de objetivo. O medo é mesmo subjetivamente intransitivo e não é da ordem do sentimento, mas da ordem do ato, ético, portanto.



Maria não temeu. Agiu. Agiu no sentido de fazer o melhor que lhe era possível e que, no caso vertente, foi o melhor que qualquer ser humano poderia fazer em sua plena humanidade



Quanto à objetividade, pode haver todos os supostos objetos causadores ou motivadores (justificadores) de medo e pode um sujeito qualquer não ter qualquer medo deles, quaisquer sejam. Esta é a posição teórica pura, enquanto tal incontrovertível. De facto, logicamente, pode haver quem não tenha medo. Nada pode desmentir esta possibilidade teórica.

Factual e historicamente, há quem não tenha medo. Há mesmo quem não tenha medo de coisa alguma. Não colhem as afirmações pseudo-científicas –que, aliás, manifestam o que parece ser ressentimento – segundo as quais «todas as pessoas têm medo». Empiricamente, tal não é verificável, por várias razões, longas demais para aqui se analisarem; mas empiricamente há mesmo quem não tenha medo.

Não se deve confundir a prudência de quem pondera as várias possibilidades efetivamente ponderáveis de ação, de modo a escolher a que se afigura racionalmente mais acertada e menos custosa genericamente, com medo.

Ambas as hipóteses são do âmbito do ético, ambas dependem da ação de quem se encontra perante a possibilidade do medo.



Maria não é tesouro de virtude “por acaso”: nesta sua decisão, neste seu ato, encontramos sabedoria, coragem, temperança, logo, justiça; encontramos também fé, esperança e caridade



Vejamos concretamente, três exemplos:

Primeiro. Quando, perante o avanço medonhamente avassalador das forças armadas ao serviço de Hitler, diante de quem todos pareciam acobardar-se e querer ceder, por medo, Churchill vai ao Parlamento e proclama a sua famosa frase «we shall never surrender», não está a manifestar um sentimento qualquer, muito menos de medo, está a realizar um ato de afirmação de princípios culturais e civilizacionais. É um ato cuja objetividade é puramente subjetiva e que consiste na decisão de não ceder perante aquilo que, para quem cedia, era mesmo medo, mas que, assim, enfrentado, no e pelo mesmo ato de enfrentamento, anula o que poderia ser o medo.

Segundo. Quando o anjo anuncia a Maria que pode, se assim o quiser, ser a mãe do Deus que se faz carne para salvífico bem dos seres humanos, o mesmo anjo diz-lhe «Não temas, Maria ("me phobou, Mariam")». Ora, Maria poderia ter tido medo: medo do anjo, medo de ser mãe, não importa de quem ou para quê, medo do que o povo dissesse, muitos outros possíveis medos.

Mas Maria não teve medo. Não se quer com isto dizer que Maria não pensou – cartesianamente, e bem, sentir é uma forma de pensar – eventualmente em tudo isto e muito mais (na economia do texto, parece ter sido rápida a fazê-lo). Mas tal não significa medo, significa simplesmente que era uma rapariga muito inteligente. Medo teria sido o ato de se negar ao que era pedido, invocando, por exemplo, como razão da escolha algo do que enunciámos; isso ou outra coisa qualquer, tanto monta, pois o que é determinante é a escolha: é esta que cria o medo ou que nunca o cria, precisamente quando se age no sentido que elimina a própria possibilidade do medo.



A decisão por beber do cálice imediatamente elimina o que poderia ser o medo que existiria caso “o cálice” não fosse bebido – que outra razão senão o medo poderia ser invocada? Ao beber, a possibilidade do medo foi aniquilada



Maria não temeu. Agiu. Agiu no sentido de fazer o melhor que lhe era possível e que, no caso vertente, foi o melhor que qualquer ser humano poderia fazer em sua plena humanidade.

O ato subjetivo que põe em ser a objetividade do bem anula o que poderia ser o medo. Maria não é tesouro de virtude “por acaso”: nesta sua decisão, neste seu ato, encontramos sabedoria, coragem, temperança, logo, justiça; encontramos também fé, esperança e caridade: esta ganha nela carne e é parida como Emanuel, Deus connosco. E tudo porque Maria não teve medo.

Terceiro. Jesus e o seu possível cálice. Conhecemos a narrativa. O filho de Maria sabia muito bem o que o cálice significava. Perante a possibilidade do sofrimento e da morte, põe a lógica hipótese de o cálice não ser bebido. Mais, fá-lo na forma de uma súplica ao Pai. Que faz o Pai? Nada. Esta ausência de ação – que é um ato por abstenção de ação, em sentido comum – imediatamente põe Cristo perante o absoluto da escolha lógica que consumará precisamente todo o "logos" da sua ação – e implica o ato de aceitação de Maria, o cálice de Maria, de que Maria não teve medo.

O pensamento de Cristo teve presente o que era humanamente possível a um pensamento humano perfeito ter: toda a antecipação lógica da narrativa do possível subsequente à decisão. É no beber do conteúdo do cálice que Cristo verdadeiramente incarna a perfeição de entidade ética.



Não ter medo do mal é imediatamente eliminá-lo ainda como pura possibilidade. O medo é campeão ilusório do mal, o seu general das fáceis vitórias



A decisão por beber do cálice imediatamente elimina o que poderia ser o medo que existiria caso “o cálice” não fosse bebido – que outra razão senão o medo poderia ser invocada? Ao beber, a possibilidade do medo foi aniquilada.

Deste modo, o medo é o ato no qual se escolhe ser vencido não pela realidade de algo, mas pela sua possibilidade. É uma dupla derrota: não se é vencido por um ato real, eventualmente esmagador; é-se vencido por uma mera possibilidade, por algo que existe apenas teoricamente.

Ora, pondo de parte Churchill, no que já é ingrata tradição, e pegando nas figuras de Maria e de Jesus, podemos perceber a razão fundamental pela qual são Príncipes da Paz: é que os seus atos, tendo de eliminar o medo, eliminando efetivamente o medo, puderam enfrentar, confrontar e derrotar isso que, a outros, causa medo e os derrota antecipadamente. Isso que mete medo é, por definição, o mal, em todas as suas imensas variantes possíveis.

Não ter medo do mal é imediatamente eliminá-lo ainda como pura possibilidade. O medo é campeão ilusório do mal, o seu general das fáceis vitórias.

Não ter medo, é impossibilitar o mal à nascença.

Faça-se como Jesus perante o tentador: soberanamente, olhe-se a besta nos olhos, sem medo. O anjo do amor de Deus continua sempre dizendo-nos: «não temas Maria».

Santo ano de Paz, se não tivermos medo.



 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Publicado em 05.01.2017

 

 
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