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Patti Smith: «Talvez escreva uma canção pensando no papa Francisco»

Imagem Patti Smith em celebração evocativa de Martin Luther King | Nova Iorque, EUA, 2012 | Craig Ruttle/AP | D.R.

Patti Smith: «Talvez escreva uma canção pensando no papa Francisco»

Antes de participar no concerto de Natal promovido pelo Vaticano, que se realizou este sábado, a cantora e compositora norte-americana Patti Smith conversou com o jornalista italiano Dario Pappalardo.

Fé, espiritualidade, S. Francisco de Assis, papa Bergoglio, amor, música e Natal são alguns dos temas da entrevista, recolhida em forma de texto contínuo, publicada este sábado pelo jornal italiano “La Repubblica”.

Excertos do artigo:

«O rock pode conjugar-se com a espiritualidade? Posso responder só por aquela que é a minha experiência. Para mim, sim. Porque na vida não meto as coisas em compartimentos diferentes. Se tenho um lado espiritual, levo-o em todas as coisas que faço: quando corto o pão, tomo conta das tuas crianças, escrevo uma poesia, canto uma música.

O rock não me torna uma mulher diferente daquelas que estão em casa: é só um aspeto daquilo que faço. Gosto de fazer-me perguntas, sempre. Quando canto ou componho, ao mesmo tempo rezo e ponho-me perguntas. No meu álbum de estreia, “Horses”, a primeira canção, “Glória”, é uma recolha de perguntas: é uma afirmação da própria individualidade e ao mesmo tempo uma oração. Mas é-o cada álbum. Na Páscoa escrevi uma canção sobre a ressurreição (...).

Creio que a minha canção “People have the power” exprime muitas ideias do papa Francisco, e por isso estou feliz por a cantar hoje, em Roma, durante o concerto de Natal do Vaticano. Senti uma ligação especial com este papa desde o primeiro momento. O ano passado, a 13 de março, dia da proclamação, estava à frente da televisão com a minha filha.

Alguns meses antes tinha ido de viagem a Itália, entre os lugares franciscanos: Assis, Arezzo, as pinturas de Giotto, o convento do Monte Alverne, a Úmbria, a Toscânia. Compreendi a importância que pode ter a mensagem de S. Francisco na cultura de hoje. Entre o materialismo disseminado, o desinteresse pelo ambiente e pela natureza, o seu ensinamento é hoje mais útil que nunca. Disse a mim própria que este é o tempo perfeito para que qualquer pessoa abrace os ideais de Francisco de Assis e os ponha à frente dos olhos do mundo.

Pouco depois, Bento XVI deixou o seu encargo. Então comecei a esperar. «Faz com que o novo papa tome o nome de Francisco», dizia eu entre mim e mim. Depois a espera pelo anúncio na televisão americana: quarenta e cinco minutos. «Faz com que seja Francisco, faz com que seja Francisco». Quando o nome foi pronunciado, a minha filha abraçou-me. «Uau», gritámos de alegria, ficámos comovidas.

Um dia vi-o na praça de S. Pedro, entre a multidão. Olhei-o bem: aquilo que ele faz não é simples respeito pelos ritos. Ele quer, verdadeiramente, estar entre as pessoas. Quer que os outros falem com ele, riam com ele, lhe contem os seus problemas. Agora encontrar-me-ei de novo diante dele. Mas, na verdade, não quero pôr-lhe perguntas pessoais. Ele responde já a muitas das minhas perguntas. Inclusive com o silêncio. Não sou católica. Nunca adotei nenhuma religião em particular.

Mas gosto de reconhecer o bom e o justo de um líder: aprecio o Dalai Lama, o compromisso de Jimmy Carter pela paz, o rigor moral de Ralph Nader. Francisco, na sua simplicidade, mostra-nos a possibilidade de reconstruir o mundo. Jesus lavou os pés dos seus discípulos, dando-nos um exemplo de humildade. Ele faz o mesmo. Recorda qual é a essência do cristianismo: o amor.

Espero que através do papa Francisco as pessoas descubram uma nova forma de pacifismo. O seu poder não é material ou económico, mas espiritual. Desejo que as pessoas o compreendam e o sigam verdadeiramente. Estou a aprender dele, estou a redescobrir coisas que acreditava que já sabia.

Como o respeito por todas as religiões (...). Ele também o apoia com as palavras, mas depois chega ao passo seguinte: une-se em oração com aqueles que creem num outro Deus. O papa Wojtyla foi à prisão para rezar com o jovem que tinha disparado contra ele. Aquela fotografia nas primeiras páginas de todo o mundo ensinou-nos a profundidade do perdão. O papa Francisco, ainda que vivendo uma situação pessoal menos dramática, repete milagres deste género a cada dia e com aquela mesma intensidade.

Este ano, pela primeira vez, compus uma canção para um filme: “Noé”, de Darren Aronofsky. “Mercy is” (“A misericórdia é”) é um hino à esperança. Num planeta destruído – aquele em que vive Noé, mas que é muito parecido ao nosso –, de geração em geração refloresce a recordação do jardim do Éden, de uma comunhão direta com Deus que voltará. Parece quase uma canção do Novo Testamento, identificada numa narrativa, como a da arca, que pertence ao Antigo.

Talvez um dia escreva uma canção pensando no papa Francisco, mas é cedo para dizê-lo. As palavras chegam-me de improviso. Não planeio nada. Por agora estou feliz por estar novamente diante deste papa e de celebrar assim o Natal. Que é uma convenção: não sabemos o dia exato em que Jesus Cristo nasceu, mas esta festa, para além da fé, leva-nos a pensar na inocência das crianças, faz-nos bem.

Recordo os meus dias de Natal, em Nova Jérsia, com os pais, os irmãos. A simplicidade de uma pequena casa, o entusiasmo e a euforia, a Natividade e as velas acesas. A minha mãe era testemunha de Jeová, não celebrava a festa, mas era de vistas muito largas.

O meu grande amigo Robert Mapplethorpe gostava de passar esse dia especial connosco. Ele, proveniente de uma família católica muito rigorosa e com um pai militar, gostava daquele caos. Se hoje penso no meu Natal mais feliz, a lembrança vai inevitavelmente para aí.»

 

Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 15.12.2014

 

 
Imagem Patti Smith em celebração evocativa de Martin Luther King | Nova Iorque, EUA, 2012 | Craig Ruttle/AP | D.R.
No meu álbum de estreia, “Horses”, a primeira canção, “Glória”, é uma recolha de perguntas: é uma afirmação da própria individualidade e ao mesmo tempo uma oração. Mas é-o cada álbum
Entre o materialismo disseminado, o desinteresse pelo ambiente e pela natureza, o ensinamento de S. Francisco é hoje mais útil que nunca. Disse a mim própria que este é o tempo perfeito para que qualquer pessoa abrace os ideais de Francisco de Assis e os ponha à frente dos olhos do mundo
Espero que através do papa Francisco as pessoas descubram uma nova forma de pacifismo. O seu poder não é material ou económico, mas espiritual. Desejo que as pessoas o compreendam e o sigam verdadeiramente. Estou a aprender dele, estou a redescobrir coisas que acreditava que já sabia
Por agora estou feliz por estar novamente diante deste papa e de celebrar assim o Natal. Que é uma convenção: não sabemos o dia exato em que Jesus Cristo nasceu, mas esta festa, para além da fé, leva-nos a pensar na inocência das crianças, faz-nos bem
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