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Família, corrupção, lágrimas, Óscar Romero, dalai lama, China, América: Papa Francisco no regresso da viagem ao Sri Lanka e Filipinas (2)

Imagem Papa Francisco na viagem entre Manila e Roma | 19.1.2015 | REUTERS/Stefano Rellandini | D.R.

Família, corrupção, lágrimas, Óscar Romero, dalai lama, China, América: Papa Francisco no regresso da viagem ao Sri Lanka e Filipinas (2)

A defesa da «paternidade responsável», o escândalo da corrupção no mundo e na Igreja, a explicação da recusa em receber o dalai lama, a comoção que sentiu na missa em Tacloban, o dom das lágrimas, a pobreza, a beatificação de Óscar Romero e as próximas viagens ao continente americano foram alguns dos temas que Francisco conversou com os jornalistas no regresso a Roma, esta segunda-feira, após a viagem que realizou ao Sri Lanka e às Filipinas.

O papa frisou várias vezes durante a entrevista a importância da «paternidade responsável» (cf. Artigos relacionados), dizendo que ela se obtém através do «diálogo», e é por isso que «na Igreja há grupos matrimoniais, há especialistas, há pastores», a par de muitas opções «legítimas».

Após ter referido que três filhos por casal é um número «importante para manter a população», Francisco declarou: «Alguns acreditam que - desculpai-me a palavra - para se ser bons católicos devemos ser como coelhos. Não. Paternidade responsável».

«É também curiosa outra coisa que não tem nada a ver mas que está relacionada com isto. Para as pessoas mais pobres, um filho é um tesouro. É verdade, aqui também se deve ser prudente. Mas para elas um filho é um tesouro. Deus sabe como ajudá-las. Talvez alguns não sejam prudentes nisto, é verdade. Paternidade responsável. Mas olhar também para a generosidade daquele pai e daquela mãe que vê em cada filho um tesouro», apontou.

A corrupção, outra questão abordada na entrevista, «está na ordem do dia» e «é um problema mundial», vincou Francisco, sublinhando que quem é corrupto «rouba o povo», antes de declarar: «Devemos pedir perdão por aqueles católicos, aqueles cristãos, que escandalizam com a sua corrupção».

Sobre o dalai lama, o papa ressaltou que o facto de não se ter realizado uma audiência quando aquele responsável estava na capital italiana não se deveu a pressões da China nem resultou de uma estratégia do Vaticano para desanuviar as relações com aquele país tendo em vista os católicos que nele residem, mas devido a questões cerimoniais.

«É hábito no protocolo da Secretaria de Estado [da Santa Sé] não receber chefes de Estado ou pessoas desse nível quando estão numa reunião internacional em Roma. Por exemplo, aquando da assembleia da FAO [Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura] não recebi ninguém. É por isso que não foi recebido», explicou.

«Vi que alguns jornais disseram que não o recebi por medo da China: não é verdade. Naquele momento, esta foi a razão. Ele pediu uma audiência e apontaram-lhe uma data. Ele pediu para ser antes, mas não para aquele momento; e mantemos as relações. Mas o motivo não era a recusa da pessoa ou medo da China», acrescentou.

Salientando que a Igreja quer «a paz com todos», Francisco falou das relações com a China: «O governo chinês é educado. Nós também somos educados, e fazemos as coisas passo a passo, como se fazem as coisas na História. Ainda não se sabe, mas eles sabem que estou disposto a receber ou a ir lá. Sabem-no», assinalou.

Para Francisco, o momento mais significativo da viagem ao Sri Lanka e às Filipinas foi a celebração da missa em Tacloban: «Ver todo o povo de Deus firme, a rezar, depois daquela catástrofe [tufão Yolanda], pensar nos meus pecados e naquelas pessoas... Foi forte, um momento muito forte».

«No momento da missa, senti-me como que aniquilado, quase não me vinha a voz. Não sei o que me aconteceu, talvez fosse a emoção, não sei», afirmou, acrescentando: «Ali estava o povo de Deus, e o Senhor estava lá. É a alegria da presença de Deus, que nos diz: pensai bem que sois servidores deles. Eles são os protagonistas».

Comovente para o papa foram também as lágrimas: «Uma das coisas que se perde quando há demasiado bem-estar, ou não se compreendem bem os valores, ou estamos habituados à injustiça, a esta cultura do descartável, é a capacidade de chorar. É uma graça que devemos pedir», porque chorar abre o ser humano à «compreensão de novas realidades ou novas dimensões da realidade».

Ignorando a pergunta de como se sentia ao ter presidido a uma missa, em Manila, que, com seis a sete milhões de participantes, ultrapassou o número máximo estabelecido por S. João Paulo II na mesma cidade, o papa Francisco dedicou as últimas palavras da entrevista à importância da pobreza.

«Se nós tirarmos os pobres do Evangelho, não podemos compreender a mensagem de Jesus. Os pobres evangelizam-nos. "Eu vou evangelizar os pobres." Sim, mas deixa-te evangelizar por eles, porque têm valores que tu não tens», assinalou.

Francisco afirmou que não presidirá à celebração em que o arcebispo salvadorenho Óscar Romero vai ser declarado beato, dado que as missas que incluem o rito da beatificação são «normalmente» presididas pelo cardeal responsável pela Congregação para as Causas dos Santos ou por outro prelado.

Referindo-se à viagem aos EUA, o papa afirmou que visitará Filadélfia, onde decorre o Encontro Mundial das Famílias, Nova Iorque, onde intervém na sede da ONU, e Washington, onde, com muita probabilidade, canonizará (declarará santo) Junípero Serra, evangelizador da costa oeste dos atuais Estados Unidos.

Depois de explicar que foi ponderada a deslocação à Califórnia ou a entrada nos EUA pela fronteira com o México, como sinal de fraternidade com os emigrantes, o papa declarou que essas hipóteses, não estando totalmente afastadas, terão poucas probabilidades de acontecer.

O estudo de uma deslocação à América Latina em 2015, nomeadamente ao Equador, Bolívia e Paraguai, está em curso, e o papa equaciona igualmente a viagem, em 2016, ao Chile, Argentina e Paraguai, ficando em aberto a possibilidade de inserir o Peru numa destas duas eventuais deslocações.

À chegada a Roma, Francisco deslocou-se à basílica de Santa Maria Maior, onde rezou, em ação de graças, junto à imagem da Virgem Maria.

 

Rui Jorge Martins
Publicado em 20.01.2015

 

 
Imagem Papa Francisco na viagem entre Manila e Roma | 19.1.2015 | REUTERS/Stefano Rellandini | D.R.
Para as pessoas mais pobres, um filho é um tesouro. É verdade, aqui também se deve ser prudente. Mas para elas um filho é um tesouro. Deus sabe como ajudá-las
O governo chinês é educado. Nós também somos educados, e fazemos as coisas passo a passo, como se fazem as coisas na História. Ainda não se sabe, mas eles sabem que estou disposto a receber ou a ir lá. Sabem-no
Na missa, senti-me como que aniquilado, quase não me vinha a voz. Não sei o que me aconteceu, talvez fosse a emoção, não sei», afirmou, acrescentando: «Ali estava o povo de Deus, e o Senhor estava lá. É a alegria da presença de Deus, que nos diz: pensai bem que sois servidores deles. Eles são os protagonistas
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