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«Pastores não deviam esquecer a luz de Cristo que vem através de todos os cristãos, de dentro e de fora da Igreja»

«Estaremos no bom caminho? Parece-me que sim. Digo isto com toda a convicção, mas nada está garantido, à partida. A história da Igreja não é, nunca foi, nem pode ser, desenhada como uma auto-estrada de santidade.»

É com um olhar de esperança, acompanhado cm alguma reserva em atenção ao percurso da Igreja, que o Fr. Bento Domingues inicia a crónica semanal desta semana no jornal “Público”, recordando as «condenações e excomunhões odiosas» decretadas «em defesa da revelação divina e da sua verdade contida nas escrituras».

«Os tormentos chegaram ao fim com a eleição do Papa João XXIII, o milagre maior que eu já vivi», destaca o religioso, acrescentando: «Podíamos verificar que ele gostava de nós todos, os que estavam lá e os que não estavam, crentes e não crentes, porque todos acreditávamos que ele era a voz da humanidade à procura de paz e de esperança. Este João era a alegria bem-humorada».

Começou o Vaticano II (1962-1965), João XXIII «morreu antes de o poder levar ao fim a sua santa loucura. Foi triste. Muito triste», e a seguir ao concílio levantou-se nova tormenta, cujas vagas continuam, como por exemplo, «as manobras sobre a pílula, o impedimento de padres casados, a situação dos divorciados recasados» ou «o impedimento do acesso das mulheres aos ministérios ordenados».



É «injusto reduzir o que a Igreja realizou em todos os continentes, no pós-Vaticano II, a esses milhares de vítimas de crimes horrorosos»



A lista prossegue com «o cerceamento da liberdade de investigação e expressão teológicas, a impossível reforma da cúria e dos escândalos financeiros do Banco do Vaticano, o êxito ambíguo das viagens papais, etc.», que «encobriram e fizeram esquecer, em muitas situações, o principal: a vida real das comunidades cristãs e a forma como estavam a ser servidas ou atraiçoadas».

Referindo-se aos «abusos sexuais de padres, bispos e cardeais sobre os menores que lhes tinham sido confiados», o Fr. Bento Domingues considera que é «injusto reduzir o que a Igreja realizou em todos os continentes, no pós-Vaticano II, a esses milhares de vítimas de crimes horrorosos».

«Sinto o sofrimento de muitos cristãos de terem de lidar com o espelho dos meios de comunicação que lhes falam do que nunca se tinham dado conta. É preciso compreender que é uma fonte de vergonha», assinala.

Depois de manifestar a sua irritação quanto às «manobras para fazer do Papa Francisco o bode expiatório de décadas de encobrimentos, distrações e resistências a reformas inadiáveis», o teólogo dominicano observa que quem pediu a sua demissão teve de se confrontar com «um coro imenso de apoio ao seu programa de reformas».

«Não sei porque esquecemos o espantoso ritual do Batismo, “Effathá”: abre os olhos, abre os ouvidos para poderes falar. Os cristãos não recebem um báculo de pastores, mas recebem uma vela. Os pastores não deviam esquecer a luz de Cristo que vem através de todos os cristãos, de dentro e de fora da Igreja», conclui.


 

Rui Jorge Martins
Fonte: Público
Imagem: trofalena/Bigstock.com
Publicado em 01.10.2018

 

 
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