Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Partilhar a riqueza injusta

Imagem O administrador desonesto (det.) | Marinus van Reymerswale | 1540 | Museu Kunsthistorisches, Viena, Áustria

Partilhar a riqueza injusta

Há parábolas de Jesus bem construídas e com uma mensagem evidente, outras, pelo contrário, mais sinuosas, menos lineares, cuja mensagem deve ser procurada com cuidado e inteligência. No capítulo 16 do Evangelho segundo Lucas encontramo-nos diante de duas parábolas respeitantes ao dinheiro e à riqueza, proclamadas uma neste domingo (Lucas 16, 1-13) e a outra no próximo (Lucas 16, 19-31).

Sem dúvida que a parábola do 25.º Domingo, do administrador injusto, desonesto, que não age com retidão, pode parecer escandalosa, para o leitor superficial pode inclusivamente surgir como imoral, mas é preciso prestar atenção e discernir o vértice teológico presente na narrativa; então ela compreender-se-á com fidelidade à intenção de Jesus.

Um homem rico tem um administrador que lhe gere os negócios, mas subitamente este último torna-se um esbanjador dos seus bens. Então o proprietário chama-o e pergunta-lhe: «Que coisa ouço dizer de ti? Dá-me contas da tua administração, porque não poderás continuar a ser meu administrador».

É algo que acontece com frequência porque a tentação da injustiça, do pensar em si próprio e não se ser responsável pela propriedade de outros é fácil e recorrente. Mas como reagir quando se é descoberto? Aqui o administrador, perante a ameaça do proprietário e a perspetiva de perder o trabalho, começa a pensar no seu futuro. E medita para si mesmo: «Que farei? Trabalhar a terra? Não o sei fazer e já não tenho força. Mendigar? Tenho vergonha».

E eis que no seu diálogo interior chega a uma solução: fazer-se amigo de alguns devedores do seu proprietário, para poder contar com eles. Mas não pode perder tempo, e por isso convoca rapidamente os devedores. Ao primeiro pergunta: «Quanto deves ao meu proprietário?». Este responde: «Cem talhas de azeite». E ele replica: «Toma a tua conta, senta-te já e escreve cinquenta». A outro, que devia cem sacas de grão, o ecónomo perdoa-lhe vinte.

Eis uma verdadeira fraude, um perdão dos débitos sem autorização do credor, uma injustiça flagrante. E todavia o proprietário, vindo a saber do engano feito às suas custas, congratula-se com o administrador desonesto, que segundo Jesus faz parte do mundo das trevas, delas é filho, e portanto é um filho de Satanás, o qual combate os filhos da luz que vivem na justiça.

Então porquê o elogio, as congratulações? Pela ação injusta? Não, mas pela capacidade de fazer amigos, dando e partilhando precisamente aquela riqueza injusta. Dessa forma aquele administrador injusto já não esbanja os bens que gere, mas honra-os, partilhando-os com quantos não têm nada.

Eis onde está a boa notícia, o Evangelho: o que é urgente, a ação boa, é distribuir o dinheiro de injustiça aos pobres, não conservá-lo ciosamente para si. Estas palavras de Jesus querem ser, justamente, uma boa notícia para os ricos, porque agora sabem como devem administrar os bens: distribuindo-os a todos.

Atenção, nesta narrativa e no seguinte comentário de Jesus aparece cinco vezes o termo injustiça/injusto para definir o administrador e a riqueza, "Mammona". A injustiça é portanto denunciada e condenada: não há outro caminho de justiça a não ser o de dar a riqueza, partilhando-a com os pobres, aqueles que são bem-aventurados e aos quais é prometido o Reino de Deus.

O dinheiro continua a ser «Mammona de injustiça», definição presente também nos escritos de Qumran, que dele proclama a radical iniquidade. Bem o sabemos: o dinheiro engana, encanta, seduz, dá falsa segurança, rouba o coração e torna-se o tesouro precioso no qual se confia. É verdade que o dinheiro é só um instrumento, mas perante ele é preciso vigiar, para o dar, distribuir, partilhar. Se se o acumula e o mantém para si, acaba por se tornar alienante: deixa de ser posse, mas é ele a possuir quem o tem nas próprias mãos.

É por isto que no Evangelho segundo Lucas há uma grande revelação feita pelo próprio demónio a Jesus no momento das tentações no deserto: «A mim foi dada toda esta riqueza» - dada por Deus, poderemos dizer -, «e eu dou-a a quem quero» (4, 6).

Sim, quem acumula riquezas é um administrador de Satanás, quer o saiba ou não. Por isso, na nossa parábola o homem rico que dá ao administrador muitos bens para gerir poder ser figura do demónio. O único modo para escapar à escravidão satânica é distribuir, dar o dinheiro, os bens, perdoar as dívidas. O dinheiro acumulado é sempre sujo, para o limpar basta partilhá-lo.

O cristão sabe, portanto, que há um "Mammona" com maiúscula, um ídolo forte e sedutor que pode tornar-se num senhor, tornando servo e escravo quem o administra. O discípulo de Jesus - como Ele recorda claramente - não pode servir dois senhores, mas é colocado diante de uma escolha: ou amar e servir um, ou amar e servir o outro.

No termo desta reflexão podemos olhar para o horizonte do Reino, onde nos pode esperar a grande comunhão dos amigos na vida eterna. Acolher-nos-ão com amizade entre precisamente os pobres, aqueles de quem nos fizemos amigos aqui na Terra, dia após dia, com a dança do dom e o exercício da partilha. Não seremos sós, mas seremos uma comunhão de amigos, se na amizade nos exercitarmos aqui e agora, dando e aceitando os dons.

 

Enzo Bianchi
In "Monastero di Bose"
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 17.09.2016

 

 
Imagem O administrador desonesto (det.) | Marinus van Reymerswale | 1540 | Museu Kunsthistorisches, Viena, Áustria
Porquê o elogio, as congratulações? Pela ação injusta? Não, mas pela capacidade de fazer amigos, dando e partilhando precisamente aquela riqueza injusta. Dessa forma aquele administrador injusto já não esbanja os bens que gere, mas honra-os, partilhando-os com quantos não têm nada
É verdade que o dinheiro é só um instrumento, mas perante ele é preciso vigiar, para o dar, distribuir, partilhar. Se se o acumula e o mantém para si, acaba por se tornar alienante: deixa de ser posse, mas é ele a possuir quem o tem nas próprias mãos
O único modo para escapar à escravidão satânica é distribuir, dar o dinheiro, os bens, perdoar as dívidas. O dinheiro acumulado é sempre sujo, para o limpar basta partilhá-lo
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Evangelho
Vídeos