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Para uma teologia do meu quotidiano

Imagem Buildings made of sky III (det.) | Peter Wegner | 2009 | D.R.

Para uma teologia do meu quotidiano

«Porque os leigos, supostamente, transfiguram o mundano. A fé torna-se a chave hermenêutica do profano, da bagatela... para aí mesmo ver insinuada a presença de Deus e o convite ao Bom e ao Belo.» (Maria Carlos Ramos, comunicação pessoal)

Quando era muito jovem (últimos anos do ensino secundário) fui premiada nos Jogos Florais do Liceu Carolina Michaelis, no Porto, com um poema intitulado: “Senhora das Coisas Pequenas”. É óbvio que, depois de ler, saborear e alimentar-me de tanta poesia ao longo da minha vida - tenho sempre um livro de poesia à  cabeceira, tal como tenho a Bíblia... - me não identifico com o tipo de poesia que então escrevia. Agora não ouso escrever poesia, tão bela poesia tenho à mão, basta-me saboreá-la..., mas identifico-me, sim, com as “minudências” de que esse poema antigo falava. Ainda hoje escrevo sobre os fios do meu quotidiano, tecendo-os, refletindo-os, e reconstruindo-os à luz da trama da minha vida. Deixo entretecer-se nessa trama a de outros, do que se passa no mundo – sou acima de tudo cidadã do meu país e da minha igreja – mas também recorrendo à poesia, música, por vezes, até, "dançando" as minhas preocupações, olhando para a reprodução de um quadro ou, simplesmente, para o “estado” das plantas da minha varanda.

Por isso a citação da Maria Carlos Ramos (companheira do Graal , teóloga e ex-aluna desta Faculdade de Teologia) que li no início inspira e redimensiona o contexto em que me movo: mulher leiga, membro do movimento do Graal, cristã, mente e coração abertos a tantas outras buscas de Deus entre os seres humanos. Creio que ser “senhora das coisas pequenas” é intuir a presença de Deus na “bagatela”, no ”rasteiro”, naquilo que parecerá de somenos importância...  A isso chamo fazer a “teologia do meu quotidiano”: tocar Deus em mim, nas outras e nos outros, na natureza, na alegria e no desastre, no sofrimento e na escuridão... vejo-me “discípula” de Cristo, a viver no mundo e com o mundo, sabendo que o cristão do futuro ou será “místico” ou não será cristão (K. Rahner). Mística, para mim, é este "trespassar" do quotidiano pelo divino, este "sofrimento" iluminado pela graça de me saber conectada com outros.

Como sou um “pássaro da manhã” e em geral me levanto mesmo muito cedo, é nessas horas de silêncio e  (ainda) quietude que vou escrevendo regularmente, a um ritmo praticamente diário, num caderno de capa grossa (já lá vão tantos!...).   Vou tecendo a teologia do meu quotidiano que não está desligada da construção da minha mais profunda humanidade. É desse caderno que partilho convosco algumas “entradas” mais recentes, conforme o tempo que tiver disponível. Estão num português pelo menos escorreito já que as pude reler, coisa que raramente faço:

 

28 de janeiro de 2014, 3.ª feira

Faço 65 anos e estou no Fratel, às portas do Ródão na casa da minha amiga MJ. Três dias na natureza, que bom! Balbucio: «Gratias a la vida que me ha dado tanto, me ha dado la risa me ha dado el llanto», imaginando a voz inesquecível de Violeta Parra. Graças a Deus que me chamou pelo nome. No Fratel de que gosto tanto, à lareira em boas conversas pela noite fora, respirando o campo, a manhã em que todos os outros dormem, as plantas e o cheiro das rosas, as três oliveiras velhinhas e os dois pujantes jacarandás e o limoeiro carregado de limões... o canteiro em que ontem, até me doerem os rins, retirei as ervas más para deixar crescer a hortelã no seu cheiro acre-preguiçoso. Perceber quais as raízes a tirar, mantendo a hortelã. Um verdadeiro “ofício de paciência”, nas palavras de Eugénio de Andrade. Fazer tudo isto concentrada, como se fosse a coisa mais importante deste mundo. Vida, no seu estado mais puro. Estar no presente. À noite comemos fatias de pão barrado com azeite e hortelã: capricho dos deuses! Enternece-me o número de telefonemas e "sms": saboreio cada mensagem como uma festa, pensando na pessoa que ma envia e como quero bem a tanta gente. «Gratias a la vida.» Sinto-me abençoada. Faço “des provisions de douceur” para os dias mais cinzentos que vierem. Releio a antífona de hoje: «Voltai-vos para o Senhor e sereis iluminados, o vosso rosto não será confundido». A promessa de Deus no centro da minha vida.

 

14 de maio, 4.ª feira

Cá saio disciplinadamente para a ginástica ­- a sub-cultura dos ginásios daria um romance -. Faço alongamentos sob orientação desse verdadeiro "Adónis"que é o D: contemplar a beleza daquele jovem enche os olhos.  Levar o meu corpo a superar-se indo cada vez mais longe no esforço físico, é uma lição. Assim eu vá também aprendendo, no meu quotidiano, a superar-me humana e espiritualmente. Passo pelo “meu” romeno a quem compro sempre a revista "Cais" nos semáforos entre a Av. Padre Cruz e a Rainha D. Amélia. Se o semáforo se demora interagimos um bocadinho. Costuma chamar-me "Mãe". Gosto. Não tenho filhos, não sou diretamente mãe de ninguém, mas sinto-me tão irmã, tão prima, tão amiga, tão sangue-do-meu-sangue com tanta gente... «A tua Mãe e os teus irmãos estão lá fora», dizem a Jesus, que olha em seu redor: «Estes são a minha mãe e os meus irmãos». Desde que a querida Mãe Teresa morreu que deixei de dizer «a minha mãe», mas passei a balbuciar «Mãe» quando à noite apago a luz e me viro para o outro lado da cama: um sussurro, um suspiro. E continuo sem saber se estou a chamar pela minha mãe, se por Deus – prefiro pensar que são as duas coisas porque, agora, ela e Deus são Um, como afirma Teresa de Ávila.

 

26 de julho, sábado

Sigo esta tarde para a Golegã para o programa “Mulheres, Teologia e Mística”. Vou falar, ao longo de cinco momentos das manhãs sobre Teresa de Ávila, a “teóloga da experiência” que é doutorada igreja. Praticamente quatro meses a estudá-la, lendo os seus escritos em primeira mão – ganhei mais um pneu na barriga de tanto estar sentada... Mas tem valido a pena - uma inspiração, essa grande e apaixonada Teresa. E o Espírito sopra onde quer: que melhor forma de fazer face à absurda morte da "nossa" A do que mergulhar em Teresa de Ávila?  Deus dá-me destas coisas...  Preparei-me o melhor que pude: quanto ao resto deixo que o Espírito me guie. Não sou teóloga, não me sinto competente e segura, mas amo Santa Teresa: farei então o melhor que puder e souber, na consciência dos meus limites. Que consiga passar a quem estiver no programa a interpelação espiritual que Teresa me traz e ficarei serena e contente: essa mística que podia viver a pão, água e meia sardinha, mas que simultaneamente se deliciava com as uvas doces da mesa do bispo... aquela que falava nas “pestilências” do quotidiano – adoro soprar a palavra: «pestilências»! – as pestilências que, apesar do nosso desejo de Deus, nos impedem de entrar na Segunda Morada. Teresa, a que fala da união com Deus como de duas velas que se juntam numa chama única... na consciência de que são entidades separadas – porque só a morte nos poderá trazer a comunhão absoluta "em" Deus. Teresa, a que escreve a mais bela das orações  e que rezo sempre que posso  e me lembro: 

«Se me queres na alegria
por amor de Ti, quero alegrar-me.
Se me enviais trabalhos para realizar,
quero morrer a trabalhar.
Eu sou vossa, por Vós nasci.
Que quereis que eu faça?»

 

14 de setembro, domingo

Continuo com a mente longe, grudada ainda na estadia em Moçambique [onde passei o meu “querido mês de agosto” fazendo voluntariado com o Graal em Maputo e na Beira]. Foi um lavar a alma e ainda tenho nos ouvidos aquele português “moçambicanamente falado” mencionado pelo Mia Couto. E o dom da hospitalidade, da alegria, do humor e da colorida resiliência dos moçambicanos – consciente de que estou de que o contexto de vida da maioria é o da mera sobrevivência. Introduzi Teresa de Ávila em duas paróquias, nos encontros das “mamãs” da Legião de Maria (que se juntam semanalmente para rezar o terço). Encontrar a metodologia mais apropriada fez-me revisitar o mestre Paulo Freire. Na paróquia da Polana quiseram que eu voltasse na semana seguinte para explicar as "Moradas” – usei as metáforas que Santa Teresa usa para cada uma das Moradas, só substitui a metáfora do “crisol” pela do “pilão”. Como elas entenderam bem o que representa o gesto de moer o milho e fazê-lo combinando harmoniosamente o duplo esforço quando esta “arte” é feita de modo colaborativo entre duas mulheres...

Na paróquia de S. João Batista na Beira, as mamãs elencaram quais as “sevandijas” (insetos repelentes) e “pestilências” que nos impedem de entrar na 2ª Morada (palmas e "tritris" quando se identificavam com o que uma delas dizia...) e usei duas velas unidas por uma única chama para demonstrar a nossa união com Deus. D. Cláudio, bispo da Beira, relatou como se estão a recrutar e/ou comprar crianças e jovens de famílias pobres para serem levados para madraças fundamentalistas e regressarem ao seu país com o cérebro «bem lavado».  Que acontecerá dentro de uns anos em Moçambique, onde a sã convivência entre religiões tem sido exemplo para tantos outros países do continente africano?

Em casa revisito o disco de jazz moçambicano/sul-africano que o Clovis me ofereceu: Jimmy Dludlu, "Tonota", enquanto me movimento dengosamente ao sol da minha sala. “Chove-me” no computador a coluna do Público de Frei Bento sobre “O Desterro da Teologia” e cito: «Não me sinto mal na teologia do fragmento, do provisório (...) A Teologia deve ajudar a criar, no espaço eclesial, condições para que a palavra seja reconhecida a todos (...) O teólogo tem de abandonar a mania dos monopólios. É uma voz entre outras». Lufada de ar fresco para mastigar e saborear: também tenho direito à minha voz.

Mas a teologiado meu quotidiano tem de ser alimentada: acabei de me inscrever no curso livre do Padre João Lourenço sobre "Profetas e Profetismo". Já há dois anos que o Padre João Lourenço me tem vindo a ajudar a “mastigar” João Evangelista. Agora os profetas. O estado de “aposentada” permite-me luxos destes.

 

22 de setembro, 2.ª feira

Dou por mim a passajar roupa, nestes tempos de contenção de despesas: maravilhosa oportunidade de me debruçar sobre o nada e de deixar que a alma saboreie o gesto mecânico da agulha e linha. “Amo 'deste' trabalho”, diria o poeta Manoel de Barros. Regressei num “bajón” do Porto (como dizem "nuestros hermanos") - e a escuridão, quando me vem, é escura, bem escura... -: apesar da alegria esfuziante dos 10 sobrinhos-netos, a preocupação imensa com a situação de desemprego recorrente da M... [minha irmã mais nova, e minha afilhada]. Já não se oferece emprego a uma experimentada mulher de 50 e alguns anos, amplamente reconhecida no seu setor de atividade profissional: anátema, isolamento, depressão... injustiça nua e crua. Duas noites a dormir mal até conseguir colocar as coisas no “patamar de Deus” e, aí, parece que a mente se ilumina em saídas possíveis: "tudo bem, nada mal", autoconvenço-me - à maneira da maioria dos moçambicanos, quando se referem à sua duríssima vida...

Somos uma família que “cerra fileiras” quando um/a de nós está aflito/a: abri um “gabinete de crise” nos “paços do Lumiar” (minha casa): fiz contas e mais contas à minha pensão de reforma sistematicamente diminuída, olhei para as parcas poupanças e tenho o suficiente para, durante alguns meses, poder ajudar a minha irmã. Corta-se noutras coisas, paciência. Mas sei, no mais íntimo de mim, que não posso viver o sofrimento por ela: no sofrimento da M, há uma enorme solidão.  Como Verónica, que enxugou o rosto de Cristo, só posso agarrar numa toalha e limpar-lhe as lágrimas com carinho para não a magoar ainda mais: e aceitar que essa solidão é parte da nossa condição humana. Acendo a vela da mesa em frente do meu sofá. Deixo que a vela se consuma enquanto rezo por ela e nela: "tudo bem, nada mal..."

Termino citando novamente Teresa de Ávila: «Poder falar a Deus a partir da vida é vida de oração»,e relembro o meu amigo Frei Carlos Maria Antunes, monge cisterciense, numa homilia que fez no passado mês de julho quando visitou a sua antiga paróquia da Golegã: «No dia em que olharmos a nossa vida, tal como é e não como gostaríamos que fosse, com gratidão, com assombro, com alegria, então é porque Deus já tomou conta do nosso coração». Assim seja!

 

Teresa Vasconcelos
Movimento do Graal
5.ª Jornada de Teologia Prática, Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 14.11.2015
Publicado em 15.02.2015

 

 
Imagem Buildings made of sky III (det.) | Peter Wegner | 2009 | D.R.
Creio que ser “senhora das coisas pequenas” é intuir a presença de Deus na “bagatela”, no ”rasteiro”, naquilo que parecerá de somenos importância... A isso chamo fazer a “teologia do meu quotidiano”: tocar Deus em mim, nas outras e nos outros, na natureza, na alegria e no desastre, no sofrimento e na escuridão...
Faço 65 anos e estou no Fratel, às portas do Ródão na casa da minha amiga MJ. Três dias na natureza, que bom! Balbucio: «Gratias a la vida que me ha dado tanto, me ha dado la risa me ha dado el llanto»
Não tenho filhos, não sou diretamente mãe de ninguém, mas sinto-me tão irmã, tão prima, tão amiga, tão sangue-do-meu-sangue com tanta gente...
Que consiga passar a quem estiver no programa a interpelação espiritual que Teresa me traz e ficarei serena e contente: essa mística que podia viver a pão, água e meia sardinha, mas que simultaneamente se deliciava com as uvas doces da mesa do bispo...
Dou por mim a passajar roupa, nestes tempos de contenção de despesas: maravilhosa oportunidade de me debruçar sobre o nada e de deixar que a alma saboreie o gesto mecânico da agulha e linha
Fiz contas e mais contas à minha pensão de reforma sistematicamente diminuída, olhei para as parcas poupanças e tenho o suficiente para, durante alguns meses, poder ajudar a minha irmã. Corta-se noutras coisas, paciência
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