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Para uma nova ética do trabalho

Imagem Fábrica (det.) | Joseph Albers | 1925 | D.R.

Para uma nova ética do trabalho

Não faz qualquer sentido separar, em nós, o ser humano que pensa ou sente do ser humano que trabalha. Fazer, fazer coisas, produzir ativamente, trabalhar com dedicação, é uma maneira de edificar o mundo e de realizar criativamente o encontro com os outros e connosco próprios. Mesmo o trabalho aparentemente mais simples oferece a quem o faz, além do mero aspeto material, uma possibilidade de sentido. Mas isto um “workaholic” não o sabe.

Pode parecer fina a linha que separa um “workaholic” de um trabalhador altamente motivado e com prestações excecionais. Não nos enganemos, porém: a distinção é bem real. O “workaholic” tornou-se patologicamente dependente do trabalho. A ele sacrifica tudo e todos. E uma dependência considerada “respeitável” enquanto ainda não é vista socialmente como uma perturbação nem está associada ao sofrimento e a pesados custos humanos. Mas é disso que se trata. Tende-se a tomar por normal uma patologia que está a tornar-se estatisticamente frequente. É uma realidade que nos deve fazer pensar.

Para um “workaholic”, o trabalho começou por representar a realidade mais importante da vida, e rapidamente passou a ser a vida. Na sua narrativa “A metamorfose”, Franz Kafka traça um quadro impressionante da questão, que é lida inclusivamente do ponto de vista psicológico: «… o pai [de Gregor] não queria tirar o uniforme nem sequer em casa; o pijama permanecia pendurado no armário e ele dormia, cuidadosamente vestido, na poltrona, como se estivesse sempre em serviço e também ali esperasse a voz de um superior». Muitos pais são assim. Evasivos no dia a dia, tendencialmente abstratos, prontos a fazer promessas para o primeiro fim de semana possível (a não ser que depois estejam demasiadamente cansados ou ocupados). Exibem uma ambição desmesurada e inflexível que mortifica todo a situação que tenha a ver com a gratuidade das relações e com uma efetiva partilha da vida dos outros.

Os dias do “workaholic” são cada vez maiores, mas sempre demasiadamente breves, e esgotam-se numa interminável sucessão de tarefas, muitas das quais autoimpostas, sem uma finalidade visível, que reclamam uma atividade frenética e uma velocidade obsessiva, de modo que tudo o resto passa para segundo plano. Os elevados níveis de adrenalina requeridos por esse exercício amplificam uma certa ilusão de omnipotência. A encenação é protegida pela ocupação obsessiva de todos os buracos na agenda. A isto se chama substituição, armadura, escudo protetor, compensação, olvido, pretexto: tudo nomes efetivamente coerentes com esse modo de vinculação.

Quando a atividade profissional se torna o eixo em torno do qual tudo, literalmente, gira, encontramo-nos na presença de uma fuga, um medo, um vazio de outra natureza que se resiste a confrontar. O hiperativismo, o perfeccionismo e o narcisismo ligados à dependência do trabalho são sintomas fulgurantes, mesmo quando não os queremos ver. Naturalmente, tudo isto, mais cedo ou mais tarde, produz consequências: a rutura com o mundo social e a autoexclusão. Estar presente diante de outros revela-se, inicialmente, uma coisa difícil a organizar, e bem depressa se torna impossível só de o pensar. O horizonte da vida pessoal e familiar reduz-se cada vez mais, até se tornar insignificante. A dimensão afetiva fica capturada pela ideia do sucesso profissional, perseguido de maneira compulsiva, e do aparato exterior de poder que dele resulta.

Como recorda Luigi Ballerini, esta é uma patologia que pode ferir todos, homens e mulheres, em qualquer tipo de profissão: gestores de topo e domésticas, profissionais liberais e administradores, professores ou comerciante. A ninguém está garantida a imunidade. Com um problema acrescido: nos dias de hoje é o próprio sistema de trabalho que se tornou “workaholic”. Nas suas expetativas, no que incentiva ou no que premeia. Uma das coisas que devemos rever, como sociedade, é a ética do trabalho.

 

José Tolentino Mendonça
In "Avvenire"
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 28.04.2016

 

 
Imagem Fábrica (det.) | Joseph Albers | 1925 | D.R.
Quando a atividade profissional se torna o eixo em torno do qual tudo, literalmente, gira, encontramo-nos na presença de uma fuga, um medo, um vazio de outra natureza que se resiste a confrontar
Tudo isto, mais cedo ou mais tarde, produz consequências: a rutura com o mundo social e a autoexclusão. Estar presente diante de outros revela-se, inicialmente, uma coisa difícil a organizar, e bem depressa se torna impossível só de o pensar. O horizonte da vida pessoal e familiar reduz-se cada vez mais, até se tornar insignificante
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