Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Leitura: Para memória de Antoine Sibertin-Blanc, mestre no órgão, exemplar em humanidade

Leitura: Para memória de Antoine Sibertin-Blanc, mestre no órgão, exemplar em humanidade

Imagem Capa | D.R.

«Um modelo de nobreza de espírito, de probidade intelectual e artística: um exemplo a seguir»: é com estas palavras que Édith Weber, professora emérita da Universidade da Sorbonne, em Paris, se refere ao organista Antoine Sibertin-Blanc (1930-2012), no livro "Ad memoriam", publicado pelo Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa (MPMP).

O volume, com prefácio do cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, abre com apontamentos biográficos de SIbertin-Blanc, desde a formação, passando pelas participações em festivais em Portugal e no estrangeiro, a docência, o encargo de organista titular da sé patriarcal e os concertos, a par do elenco de atividades como a composição, improvisação e a participação em congressos, colóquios e concursos.

O segundo capítulo compreende perto de cinco dezenas de testemunhos de colegas, discípulos, fabricantes de órgão, amigos e admiradores, que são «unânimes em sublinhar as suas qualidades humanas fora do comum e a sua vocação de organista ao serviço da música litúrgica e das grandes celebrações da catedral».

«De maneira geral, destacam a sua personalidade excecional e calorosa, a sua delicadeza, a sua gentileza, a sua extraordinária presença espiritual. Todos estão conscientes do raro privilégio de ter conhecido e ter estado ao lado do mestre considerado como o construtor da escola de órgão portuguesa. Pelas suas qualidades humanas e artísticas, ele suscitará durante muito tempo respeito, admiração e emoção», salienta Édith Weber.



Encorajado «nos seus projetos e realizações pela sua mulher, tão sensível e aberta às suas aspirações espirituais - e por tantos admiradores, por amigos próximos ou afastados e por pessoas da paróquia -, as suas atividades foram, simultaneamente, as de um organista litúrgico ao serviço da Igreja - celebrações litúrgicas e ofício - e as de um concertista internacional fora do comum»



Nascido em Paris, Sibertin-Blanc envolveu-se até ao ano da morte em «múltiplas atividades de ensino, de organista litúrgico e de concertista, tendo no ativo digressões em França, Bélgica, Suíça, Itália, Portugal e Brasil». Colaborou com a Orquestra da Fundação Gulbenkian e dirigiu o coro da Igreja evangélica alemã de Lisboa. Inaugurou vários órgãos e foi membro de comissões e de júris de concursos internacionais, tendo «contribuído amplamente para a história da cultura do seu país de adoção».

Francês de nascimento e pela formação musical, português por adopção, «integrou-se profundamente no mundo musical português, francês e europeu e, a seguir, na comunidade organística internacional», assinala a investigadora, que assina um dos testemunhos contidos no volume, que entre as várias fotografias inclui «esplêndidas reproduções de órgãos ibéricos».

Sibertin-Blanc dispunha «de um repertório muito variado e abrangente, dominando de igual modo, tanto a estética ibérica dos Séculos XVI, XVII e XVIII (Manuel Rodrigues Coelho, Juan Cabanilles, Carlos Seixas…) quanto as obras organísticas da esfera de influência nórdica-alemã, desde Dietrich Buxtehude, seguido de Jan Pieterszoon Sweelinck, até Johann Sébastien Bach e Georg Friedrich Haendel… sem esquecer a música contemporânea».

«Dominava como mestre absoluto o Órgão da Catedral de Lisboa, explorando com sabedoria as suas numerosas possibilidades de registos, em função dos critérios estéticos usados nas épocas em questão. Mesmo as subtilezas contrapontísticas e estilísticas de Max Reger (1873-1916) – as quais, com justa razão, afastam, por vezes, alguns organistas (sobretudo franceses) -  não lhe escapavam e, apesar da escrita sobrecarregada, ele conferia à "Introdução" e à "Passacaille", de entre todas as mais terríficas páginas, uma clareza estrutural que raramente os virtuosos atingem», acrescenta.



«Havia uma dimensão que eu apreciava muito na sua execução: a espiritualidade. O professor via as peças antes, metia-se dentro delas, fazia-as suas e interiorizava-as, e isso refletia-se nas suas improvisações a iniciar ou a concluir as peças. Era um homem que, de certa forma, rezava no órgão, e com o órgão, a liturgia, os textos e a música»



Encorajado «nos seus projetos e realizações pela sua mulher, tão sensível e aberta às suas aspirações espirituais - e por tantos admiradores, por amigos próximos ou afastados e por pessoas da paróquia -, as suas atividades foram, simultaneamente, as de um organista litúrgico ao serviço da Igreja - celebrações litúrgicas e ofício - e as de um concertista internacional fora do comum».

«Na igreja, tal como na sala de concertos, nunca se sentiu inebriado pelo sucesso; antes pelo contrário, soube conservar uma grande simplicidade, o que não é mais do que um sinal de inteligência», fazendo do organista franco-português «um homem que sabia ir ao encontro dos seus interlocutores, atraía de imediato a sua simpatia e amizade, tanto pelo sua delicadeza natural, a sua solicitude e a sua cordialidade, quanto pelo seu sorriso e a doce luminosidade do seu olhar, considerado por alguns, como o "reflexo da alma"».

Sibertin-Blanc foi «um modelo de nobreza de espírito, de probidade intelectual e artística», acentua Édith Weber, que conclui: «Através das suas composições e gravações, através dos seus alunos e discípulos, através de tantas recordações tão vivas e duradouras, através do seu apostolado ao serviço da música religiosa autêntica, a sua obra "segui-lo-á"».

«Era um homem muito humilde, discretíssimo. Muito preocupado em realçar os aspetos positivos das pessoas, das situações, das execuções, sempre com uma palavra acalentadora para todos. Nunca reivindicou grande protagonismo ou atos de reconhecimento da sua competência», realçou o pároco da Sé de Lisboa, em depoimento ao Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (cf. artigos relacionados).

«Havia uma dimensão que eu apreciava muito na sua execução: a espiritualidade. O professor via as peças antes, metia-se dentro delas, fazia-as suas e interiorizava-as, e isso refletia-se nas suas improvisações a iniciar ou a concluir as peças. Era um homem que, de certa forma, rezava no órgão, e com o órgão, a liturgia, os textos e a música. Isto conferia à celebração e ao seu trabalho uma enorme grandeza», acrescentou o cón. Luis Manuel Pereira da Silva.









 

SNPC
Publicado em 21.04.2017

 

Título: Ad memoriam Antoine Sibertin-Blanc
Organização: Leonor de Lucena Sibertin-Blanc
Editora: MPMP
Páginas: 128 + 16 a cores
Preço: 12,50 €

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos