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Papa sublinha urgência do diálogo entre teologia e cultura

Imagem © olly/Fotolia

Papa sublinha urgência do diálogo entre teologia e cultura

O papa Francisco considera que as perguntas do «povo, as suas angústias, os seus combates, os seus sonhos, as suas lutas, as suas preocupações» não podem ser ignoradas na elaboração teológica.

Na videomensagem, divulgada hoje, que dirigiu por ocasião do Congresso Internacional de Teologia sobre o tema “O Concílio Vaticano II – Memória, presente e perspetivas”, promovido entre 1 e 3 de setembro para celebrar os 100 anos da Faculdade de Teologia da Universidade Católica da Argentina e os 50 anos do encerramento do Concílio Vaticano II, o papa traçou o perfil do teólogo: ser filho do seu povo, ser crente e ser profeta.

O texto critica a absolutização do passado e da Tradição da Igreja, bem como a desautorização de tudo o que não é novidade, sublinhando a urgência de um caminho que passe pela «reflexão, o discernimento», tomando «muito a sério a Tradição Eclesial e muito a sério a realidade, pondo-as a dialogar».

Excertos da mensagem:

«Não existe uma Igreja particular isolada, que possa dizer-se só, como pretendendo ser dona e única intérprete da realidade e da ação do Espírito. Não existe uma comunidade que tenha o monopólio da interpretação ou da inculturação. Como, pelo contrário, não existe uma Igreja universal que esteja de costas voltadas, ignore ou se desentenda da realidade local. A catolicidade exige, pede essa polaridade em tensão entre o particular e o universal, entre o uno e o múltiplo, entre o simples e o complexo. Aniquilar esta tensão vai contra a vida do Espírito. Todo o propósito, toda a busca de reduzir a comunicação, de romper a relação entre a Tradição recebida e a realidade concreta, põe em risco a fé do Povo de Deus. Considerar insignificante uma das duas instâncias é metermo-nos num labirinto que não será portador de vida para a nossa gente. Romper esta comunicação levar-nos-á facilmente a fazer do nosso olhar, da nossa teologia uma ideologia. (…) O local e o universal encontram-se para se alimentarem, para se estimularem no carácter profético do qual é portadora toda a Faculdade de Teologia. Recordemos as palavras do papa João a um mês de começar o Concílio:

“Pela primeira vez na história os padres do Concílio pertencerão realmente a todos os povos e nações, e cada um deles levará a contribuição da sua inteligência e da sua experiência para curar e sanar as cicatrizes dos dois grandes conflitos que alteraram profundamente a face de todas as nações.” E depois sublinha que uma das principais contribuições dos países em vias de desenvolvimento neste contexto universal seria a visão da Igreja que eles trazem; e continua assim: “A Igreja apresenta-se como é e como quer ser, como Igreja de todos, em particular como a Igreja dos pobres”.

Há uma imagem proposta por Bento XVI que gosto muito. Referindo-se à Tradição da Igreja, afirma que “não é uma transmissão de coisas ou das palavras, uma coleção de coisas mortas, [mas] é o rio vivo que remonta às origens, o rio no qual as origens estão sempre presentes”. Este rio vai regando diversas terras, vai alimentando diversas geografias, fazendo germinar o melhor dessa terra, o melhor dessa cultura. Desta maneira, o Evangelho continua a encarnar-se em todos os cantos do mundo de maneira sempre nova.

E isto leva-nos a refletir que não se é cristão da mesma maneira na Argentina de hoje que na Argentina de há 100 anos. Não se é cristão da mesma maneira na Índia, no Canadá, que em Roma. Pelo que uma das principais tarefas do teólogo é discernir, refletir: que significa ser cristão hoje, ‘no aqui e agora’?; como é que esse rio das origens consegue regar hoje estas terras e tornar-se visível e vivível? Como tornar viva a densa expressão de S. Vicente de Lérins “ut annis consolidétur, dilatetur tempore, sublimétur aetate” [Progride, consolidando-se com os anos, desenvolvendo-se com o tempo, aprofundando-se com a idade]”? (…)

E para encarar este desafio, temos de superar duas possíveis tentações: condenar tudo. Cunhando a já conhecida frase “todo o passado foi melhor”, refugiando-nos em conservadorismos ou fundamentalismos; ou, pelo contrário, consagrar tudo, desautorizando tudo o que não tenha “sabor a novidade”, relativizando toda a sabedoria cunhada pelo rico património eclesial.

Para superar estas tentações, o caminho é a reflexão, o discernimento, tomar muito a sério a Tradição Eclesial e muito a sério a realidade, pondo-as a dialogar.

Neste contexto, penso que o estudo da teologia adquire um valor de suma importância. Um serviço insubstituível na vida eclesial.

Não são poucas as vezes em que se gera uma oposição entre teologia e pastoral, como se fossem duas realidades opostas, separadas, que nada tivessem que ver uma com a outra. Não são poucas as vezes que identificamos o doutrinal com conservador, retrógrado; e, pelo contrário, pensamos a pastoral a pastoral a partir da adaptação, redução, acomodação. Como se nada tivessem que ver entre si. Gera-se, deste modo, uma falsa oposição entre a teologia e a pastoral; entre a reflexão crente e a vida crente; a vida, então, não tem espaço para a reflexão e a reflexão não encontra espaço na vida. Os grandes padres da Igreja, Ireneu, Agostinho, Basílio, Ambrósio, para nomear alguns, foram grandes teólogos porque foram grandes pastores.

Procurar superar este divórcio entre teologia e pastoral, entre fé e vida, foi precisamente um dos principais contributos do Concílio Vaticano II. Animo-me a dizer que revolucionou, em certa medida, o estatuto da teologia, a maneira de fazer e do pensar crente.

Não posso esquecer as palavras de João XXIII no discurso de abertura do Concílio quando dizia: uma coisa é a substância da antiga doutrina, do “depositum fidei”, e outra a maneira de formular a sua expressão.

Devemos tomar o trabalho, o árduo trabalho, de distinguir a mensagem de Vida da sua forma de transmissão, dos seus elementos culturais nos quais foi codificado num determinado tempo. (…)

Não fazer este exercício de discernimento conduz com toda a certeza a trair o conteúdo da mensagem. Faz que a Boa Nova deixe de ser nova e, especialmente, boa, tornando-se uma palavra estéril, vazia de toda a sua força criadora, sanadora, ressuscitadora, pondo assim em perigo a fé das pessoas do nosso tempo. A falta deste exercício teológico eclesial é uma mutilação da missão que estamos convidados a realizar. A doutrina não é um sistema fechado, privado de dinâmicas capazes de gerar interrogações, dúvidas, questionamentos. Pelo contrário, a doutrina cristã tem rosto, tem corpo, tem carne, chama-se Jesus Cristo e é a sua Vida que é oferecida de geração em geração a todos os homens e em todos os lados. Guardar a doutrina exige fidelidade ao recebido e, por sua vez, ter em conta o interlocutor, o seu destinatário, conhecê-lo e amá-lo.

Este encontro entre doutrina e pastoral não é opcional, é constitutivo de uma teologia que pretenda ser eclesial.

As perguntas do nosso povo, as suas angústias, os seus combates, os seus sonhos, as suas lutas, as suas preocupações possuem valor hermenêutico que não podemos ignorar se queremos levar a sério o princípio da encarnação. As suas perguntas ajudam-nos a perguntarmo-nos, os seus questionamentos questionam-nos. Tudo isto nos ajuda a aprofundar o mistério da Palavra de Deus, Palavra que exige e pede diálogo, entrar em comunicação. Daí que não possamos ignorar a nossa gente na hora de fazer teologia. O nosso Deus escolheu este caminho. Ele encarnou-se neste mundo, atravessado por conflitos, injustiças, violências; atravessado por esperanças e sonhos. Pelo que não nos resta outro lugar para o procurar senão este mundo concreto, esta Argentina concreta, nas suas ruas, nos seus bairros, na sua gente. É aí que Ele já está a salvar.

As nossas formulações de fé nasceram no diálogo, no encontro, no confronto, no contacto com as diversas culturas, comunidades, nações, situações que pediam uma maior reflexão perante o que não foi explicitado antes. Daí que os acontecimentos pastorais têm um valore relevante. E as nossas formulações de fé são expressão de uma vida vivida e refletida eclesialmente.

No contexto cristão, algo torna-se suspeito quando deixa de admitir a necessidade de ser criticado por outros interlocutores. As pessoas e as suas distintas conflitualidades, as periferias, não são opcionais, mas necessárias para uma maior compreensão da fé. Por isso é importante perguntar: para quem estamos a pensar quando fazemos teologia? Que pessoas temos diante de nós? Sem esse encontro, com a família, com o Povo de Deus, é quando a teologia corre o grande risco de se tornar ideologia. Não nos esqueçamos, o Espírito Santo no povo orante é o sujeito da teologia. Uma teologia que não nasça no seu seio tem esse odor de uma proposta que pode ser bela, mas não real.

Isto revela-nos o desafiante da vocação do teólogo. O estimulante que é o estudo da teologia e a grande responsabilidade que se tem ao fazê-lo. A propósito, permito-me explicitar três rasgos da identidade do teólogo:

1. O teólogo é, em primeira instância, um filho do seu povo. Não pode e não quer desentender-se dos seus. Conhece a sua gente, a sua língua, as suas raízes, as suas histórias, a sua tradição. É o homem que aprende a valorizar o recebido, como sinal da presença de Deus, já que sabe que a fé não lhe pertence. Recebeu-a gratuitamente da Tradição da Igreja, graças ao testemunho, a catequese e a generosidade de muitos. Isto leva-o a reconhecer o Povo crente em que nasceu tem um sentido teológico que não pode ignorar. Sabe-se “enxertado” numa consciência eclesial e nada nessas águas.

2. O teólogo é um crente. O teólogo é alguém que fez experiência de Jesus Cristo e descobriu que sem Ele já não pode viver. Sabe que Deus se faz presente, como palavra, como silêncio, como ferida, como sanação, como morte e como ressurreição. O teólogo é aquele que sabe que a sua vida está marcada por essa pegada, essa marca, que deixou aberta a sua sede, a sua ansiedade, a sua curiosidade, o seu viver. O teólogo é aquele que sabe que não pode viver sem o objeto/sujeito do seu amor e consagra a sua vida para poder partilhá-lo com os seus irmãos. Não é teólogo quem não possa dizer “não posso viver sem Cristo”, e portanto, quem não queira ou procure desenvolver em si mesmo os mesmos sentimentos do Filho.

3. O teólogo é um profeta. Um dos grandes desafios colocados no mundo contemporâneo não é só a facilidade com que se pode prescindir de Deus. A crise atual centra-se na incapacidade que as pessoas têm de crer em qualquer coisa mais além de si mesmas. A consciência individual tornou-se a medida de todas as coisas. Isto gera uma fissura nas identidades pessoais e sociais. Esta nova realidade provoca todo um processo de alienação devido à carência do passado e, portanto, de futuro. Por isso o teólogo é o profeta, porque mantém viva a consciência de passado e o convite que vem do futuro. É o homem capaz de denunciar toda a forma alienante porque intui, reflete no rio da Tradição que recebeu da Igreja, a esperança a que estamos chamados. E desde esse olhar convida a despertar a consciência adormecida. Não é o homem que se conforma, que se acostuma. Pelo contrário, é o homem atento a tudo aquilo que pode danificar e destruir os seus.

Por isso, só há uma forma de fazer teologia: de joelhos. Não é somente um ato piedoso de oração para logo pensar a teologia. Trata-se de uma realidade dinâmica entre pensamento e oração. Uma teologia de joelhos é animar-se a pensar rezando e rezar pensando. Gera um jogo entre o passado e o presente, entre o presente e o futuro. Entre o já e o ainda não. É uma reciprocidade entre a Páscoa e muitas vidas não realizadas que se perguntam: onde está Deus?

É santidade de pensamento e lucidez orante. É, sobretudo, humildade que nos permite colocar o nosso coração, a nossa mente, em sintonia com o “Deus semper maior”. Não tenhamos medo de nos pormos de joelhos no altar da reflexão e fazê-lo com “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem” (Gaudium et spes, 1), ante o olhar daquele que faz novas todas as coisas.

Então inserir-nos-emos cada vez mais nesse povo crente que profetiza, povo crente que anuncia a beleza do Evangelho, povo crente que “não maldiz mas que é acolhedor e sabe realizar a vida bendizendo-a. Assim busca uma correspondência criadora com os problemas do nosso tempo” (O. Clement, “Un ensayo de lectura ortodoxa de la Constitución”, 651).»

 

Papa Francisco
In Sala de Imprensa da Santa Sé
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 04.09.2015

 

 
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Todo o propósito, toda a busca de reduzir a comunicação, de romper a relação entre a Tradição recebida e a realidade concreta, põe em risco a fé do Povo de Deus. Considerar insignificante uma das duas instâncias é metermo-nos num labirinto que não será portador de vida para a nossa gente
Não são poucas as vezes em que se gera uma oposição entre teologia e pastoral, como se fossem duas realidades opostas, separadas, que nada tivessem que ver uma com a outra. Não são poucas as vezes que identificamos o doutrinal com conservador, retrógrado; e, pelo contrário, pensamos a pastoral a pastoral a partir da adaptação, redução, acomodação
Não fazer este exercício de discernimento conduz com toda a certeza a trair o conteúdo da mensagem. Faz que a Boa Nova deixe de ser nova e, especialmente, boa, tornando-se uma palavra estéril, vazia de toda a sua força criadora, sanadora, ressuscitadora, pondo assim em perigo a fé das pessoas do nosso tempo
No contexto cristão, algo torna-se suspeito quando deixa de admitir a necessidade de ser criticado por outros interlocutores. As pessoas e as suas distintas conflitualidades, as periferias, não são opcionais, mas necessárias para uma maior compreensão da fé. Por isso é importante perguntar: para quem estamos a pensar quando fazemos teologia?
Sem esse encontro, com a família, com o Povo de Deus, é quando a teologia corre o grande risco de se tornar ideologia. Não nos esqueçamos, o Espírito Santo no povo orante é o sujeito da teologia. Uma teologia que não nasça no seu seio tem esse odor de uma proposta que pode ser bela, mas não real
O teólogo é o profeta, porque mantém viva a consciência de passado e o convite que vem do futuro. É o homem capaz de denunciar toda a forma alienante porque intui, reflete no rio da Tradição que recebeu da Igreja, a esperança a que estamos chamados. E desde esse olhar convida a despertar a consciência adormecida. Não é o homem que se conforma, que se acostuma
Uma teologia de joelhos é animar-se a pensar rezando e rezar pensando. Gera um jogo entre o passado e o presente, entre o presente e o futuro. Entre o já e o ainda não. É uma reciprocidade entre a Páscoa e muitas vidas não realizadas que se perguntam: onde está Deus?
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