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Papa sublinha que «caminho da Igreja é o de não condenar eternamente» e lembra que «credibilidade» dos católicos joga-se no «Evangelho dos marginalizados»

Imagem Papa Francisco | Vaticano, basílica de S. Pedro, 15.2.2015 | Lauren Cater/CNA | D.R.

Papa sublinha que «caminho da Igreja é o de não condenar eternamente» e lembra que «credibilidade» dos católicos joga-se no «Evangelho dos marginalizados»

A compaixão, a marginalização e a integração constituíram a base da homilia que o papa pronunciou hoje, no Vaticano, na missa a que presidiu na basílica de S. Pedro com membros do Colégio Cardinalício, incluindo os que criou cardeais neste sábado, entre os quais D. Manuel Clemente, patriarca de Lisboa.

A intervenção de Francisco apoiou-se no trecho do Evangelho proclamado nas missas deste domingo, em que Jesus tem compaixão de um leproso que lhe pede para ser curado. Excerto da homilia:

«Moisés, tratando juridicamente a questão dos leprosos, pede que sejam afastados e marginalizados da comunidade, até que o seu mal seja tratado, e declara-os impuros [cf. Levítico 13, 1-2.45-46, primeira leitura bíblica das missas deste domingo]. Imaginai quanto sofrimento e quanta vergonha devia passar um leproso: fisicamente, socialmente, psicologicamente é espiritualmente. Ele não é só vítima da doença, mas ouve que é também o culpado, punido pelos seus pecados. É um morto vivo, como a alguém a quem o seu pai cuspiu na cara [cf. Números 12, 14].

Além disso, o leproso incute medo, desdém, repugnância, e por isso é abandonado pelos próprios familiares, evitado por outras pessoas, marginalizado pela sociedade; por isso a própria sociedade expulsa-o e obriga-o a viver em lugares afastados das pessoas saudáveis, exclui-o. E isto ao ponto de que se uma pessoa sã se aproximasse de um leproso, seria severamente punido e muitas vezes tratado, por seu lado, como leproso.»

É verdade que a finalidade de tal norma era a de salvar os sãos, proteger os justos, e, para os salvaguardar de todo o risco, marginalizar o perigo, tratando o contagiado sem piedade. Assim, com efeito, exclamou o sumo-sacerdote Caifás: "É melhor que morra um só homem pelo povo e não pereça a nação inteira" [João 11, 50].

Jesus revoluciona e abala fortemente aquela mentalidade fechada no medo e autolimitada pelos preconceitos. Ele, todavia, não abole a lei de Moisés mas leva-a ao cumprimento, declarando, por exemplo, a ineficácia contraproducente da lei de Talião; declarando que Deus não aprecia a observância do Sábado que despreza o homem e o condena; quando, diante da mulher pecadora, não a condena, mas salva-a do zelo cego daqueles que já estavam prontos a lapidá-la sem piedade, de acordo com a lei de Moisés.

Jesus revoluciona também as consciências no "Discurso da montanha" [cf. Mateus 5], abrindo novos horizontes para a humanidade e revelando plenamente a lógica de Deus. A lógica do amor que não se baseia no medo mas na liberdade, na caridade, no zelo saudável e no desejo salvífico de Deus: "Deus, nosso salvador (...) quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade" [1 Timóteo 2, 3-4]; "Misericórdia Eu quero, e não sacrifícios" [Mateus 12, 7; Oseias 6, 6].

Jesus, novo Moisés, quis curar o leproso, quis tocá-lo, quis reintegrá-lo na comunidade, sem se autolimitar nos preconceitos; sem se conformar com a mentalidade dominante das pessoas; sem se preocupar absolutamente com o contágio. Jesus responde à súplica do leproso sem demora e sem os habituais adiamentos para estudar a situação e todas as eventuais consequências. Para Jesus, o que conta, sobretudo, é chegar aos afastados e salvá-los, curar as feridas dos doentes, reintegrar todos na família de Deus. E isto escandaliza qualquer um.

E Jesus não tem medo deste tipo de escândalo. Ele não pensa nas pessoas fechadas que se escandalizam sobretudo por uma cura, que se escandalizam diante de uma qualquer abertura, a um qualquer passo que não entre nos seus esquemas mentais e espirituais, a qualquer carícia ou ternura que não corresponda aos seus hábitos de pensamento e à sua pureza ritual. Ele quis integrar os marginalizados, salvar os que estão fora do acampamento.

São duas lógicas de pensamento e de fé: o medo de perder os que estão salvos e o desejo de salvar os perdidos. Ainda hoje acontece, às vezes, encontrarmo-nos na encruzilhada destas duas lógicas: a dos doutores da lei, ou seja, marginalizar o perigo afastando a pessoa contagiada, e a lógica de Deus, que, com a sua misericórdia, abraça e acolhe, reintegrando e transfigurando o mal em bem, a condenação em salvação e a exclusão em anúncio.

Estas duas lógicas percorrem toda a história da Igreja: marginalizar e reintegrar. S. Paulo, cumprindo o mandamento do Senhor de levar o anúncio do Evangelho até aos confins da Terra, escandalizou e encontrou forte resistência e grande hostilidade, sobretudo daqueles que exigiam uma observância incondicional da lei de Moisés, mesmo da parte dos pagãos convertidos. Mesmo S. Pedro é criticado duramente pela comunidade quando entrou na casa do centurião pagão Cornélio [cf. Atos dos Apóstolos, 10].

O caminho da Igreja, desde o Concílio de Jerusalém [primeiros anos do cristianismo], é sempre o de Jesus: a misericórdia e a integração. Isto não significa menosprezar os perigos ou fazer entrar os lobos no rebanho, mas acolher o filho pródigo arrependido; sanar com determinação e coragem as feridas do pecado; arregaçar as mangas e não ficar a olhar passivamente para o sofrimento do mundo. O caminho da Igreja é o de não condenar eternamente ninguém; de infundir a misericórdia de Deus a todas as pessoas que a pedem de coração sincero; o caminho da Igreja é precisamente o de sair do próprio canto para ir procurar os distantes nas periferias essenciais da existência; o de adotar integralmente a lógica de Deus; de seguir o Mestre que disse: "Não os são os sãos que precisam do médico, mas os doentes; Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores" [Lucas 5, 31-32].

Curando o leproso, Jesus não leva dano algum a quem está são, antes o liberta do medo; não lhe causa perigo mas dá-lhe um irmão; não despreza a lei mas valoriza o homem, para o qual Deus inspirou a lei. Com efeito, Jesus liberta os sãos das tentações do "irmão mais velho" [cf. Lucas 15, 11-32, parábola do filho pródigo] e do peso da inveja e das murmurações dos "operários que suportaram o peso do dia e o calor" [cf. Mateus 20, 1-16].

Por isso, a caridade não pode ser neutra, assética, indiferente, morna ou imparcial. A caridade contagia, apaixona, arrisca e envolve. Porque a caridade verdadeira é sempre imerecida, incondicional e gratuita [cf. 1 Coríntios 13]. A caridade é criativa a encontrar a linguagem justa... O contacto é a verdadeira linguagem comunicativa, a mesma linguagem afetiva que transmitiu a cura ao leproso. Quantas curas podemos concretizar e transmitir aprendendo esta linguagem do contracto. Era um leproso e tornou-se anunciador do amor de Deus. Diz o Evangelho: "Ele afastou-se e pôs-se a proclamar e a divulgar o facto [a cura de Jesus]".

Caros novos cardeais, esta é a lógica de Jesus, este é o caminho da Igreja: não só acolher e integrar, com coragem evangélica, aqueles que batem à nossa porta, mas sair, ir à procura, sem preconceitos e sem medo, os distantes, manifestando-lhes gratuitamente o que gratuitamente recebemos. "Quem diz que permanece em Deus também deve caminhar como Ele caminhou" [1 João 2, 6]. A total disponibilidade no servir os outros é o nosso sinal distintivo, é o único nosso título honorífico.

E ponderai bem, nestes dias em que recebestes o título cardinalício, invocamos a intercessão de Maria, Mãe da Igreja, que sofreu na primeira pessoa a marginalização por causa das calúnias e do exílio, para que nos conceda sermos fiéis a Deus. Que ela, que é Mãe, nos ensine a não ter medo de acolher com ternura os marginalizados; a não ter medo da ternuda. Quantas vezes temos medo da ternura. Que nos ensine a não ter medo da ternura e da compaixão; que nos revista de paciência para os acompanhar no seu caminho, sem procurar os resultados de um sucesso mundano; que nos mostre Jesus e nos faça caminhar como Ele.

Caros irmãos, novos cardeais, olhando para Jesus e para a nossa Mãe, exorto-vos a servir a Igreja de tal modo que os cristãos - edificados pelo nosso testemunho - não sejam tentados a estar com Jesus sem querer estar com os marginalizados, isolando-se numa casta que nada tem de autenticamente eclesial. Exorto-vos a servir Jesus crucificado em cada pessoa marginalizada por qualquer motivo; a ver o Senhor em cada pessoa excluída que tem fome, que tem sede, que está nua; o Senhor que está presente também naqueles que perderam a fé, ou que se afastaram da vivência da própria fé, ou que se declaram ateus; o Senhor que está na prisão, que está doente, que não tem trabalho, que é perseguido; o Senhor que está no leproso - no corpo ou na alma -, que é discriminado. Não descobrimos o Senhor se não acolhemos de modo autêntico o marginalizado. Recordemos sempre a imagem de S. Francisco, que não teve medo de abraçar o leproso e de acolher aqueles que sofrem qualquer género de marginalização. Na realidade, caros irmãos, no Evangelho dos marginalizados joga-se, descobre-se e revela-se a nossa credibilidade.»

Após a missa, o papa rezou a oração mariana do "Angelus", na praça de S. Pedro, no final da qual dirigiu votos «de serenidade e de paz a todos os homens e mulheres que no Extremo Oriente e em várias partes do mundo se preparam para celebrar o Ano Novo lunar».

«Tais festividades oferecem-lhes a feliz ocasião de redescobrir e viver intensamente a fraternidade, que é vínculo precioso da vida familiar e alicerce da vida social. Este regresso atual às raízes da pessoa e da família possa ajudar esses povos a construir uma sociedade em que se tecem relações interpessoais marcadas pelo respeito, justiça e caridade, apontou.

Francisco pediu um aplauso para os novos cardeais e agradeceu aos peregrinos que se deslocaram ao Vaticano por ocasião do consistório em que foram criados os cardeais, bem como «os países que quiseram estar presentes (...) com delegações oficiais», como foi o caso de Portugal.

 

Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 15.02.2015

 

 
Imagem Papa Francisco | Vaticano, basílica de S. Pedro, 15.2.2015 | Lauren Cater/CNA | D.R.
Cristo não pensa nas pessoas fechadas que se escandalizam sobretudo por uma cura, que se escandalizam diante de uma qualquer abertura, a um qualquer passo que não entre nos seus esquemas mentais e espirituais, a qualquer carícia ou ternura que não corresponda aos seus hábitos de pensamento e à sua pureza ritual. Ele quis integrar os marginalizados
Ainda hoje acontece, às vezes, encontrarmo-nos na encruzilhada destas duas lógicas: a dos doutores da lei, ou seja, marginalizar o perigo afastando a pessoa contagiada, e a lógica de Deus, que, com a sua misericórdia, abraça e acolhe, reintegrando e transfigurando o mal em bem, a condenação em salvação e a exclusão em anúncio
Curando o leproso, Jesus não leva dano algum a quem está são, antes o liberta do medo; não lhe causa perigo mas dá-lhe um irmão; não despreza a lei mas valoriza o homem, para o qual Deus inspirou a lei
Caros novos cardeais, esta é a lógica de Jesus, este é o caminho da Igreja: não só acolher e integrar, com coragem evangélica, aqueles que batem à nossa porta, mas sair, ir à procura, sem preconceitos e sem medo, os distantes, manifestando-lhes gratuitamente o que gratuitamente recebemos
Exorto-vos a servir a Igreja de tal modo que os cristãos - edificados pelo nosso testemunho - não sejam tentados a estar com Jesus sem querer estar com os marginalizados, isolando-se numa casta que nada tem de autenticamente eclesial. Exorto-vos a ver o Senhor em cada pessoa excluída que tem fome, que tem sede, que está nua; que está presente também naqueles que perderam a fé, ou que se afastaram da vivência da própria fé, ou que se declaram ateus
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