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Papa Francisco pede «pobreza» e «misericórdia» ao clero e religiosos

Imagem O regresso do filho pródigo (det.) | Esteban Murillo | 1667-70 | National Gallery of Art, Washington, EUA | D.R.

Papa Francisco pede «pobreza» e «misericórdia» ao clero e religiosos

O papa Francisco presidiu este domingo à oração da hora litúrgica de Vésperas, na catedral de Havana, capital da Cuba, com padres, religiosos, religiosas e seminaristas, tendo-lhes pedido «pobreza» e «misericórdia».

Após ouvir as palavras de uma religiosa e do arcebispo de Havana, a quem chamou de «profetas», Francisco entregou o discurso que tinha preparado, para posterior publicação, e preferiu intervir de improviso.

«O cardeal Jaime pronunciou uma palavra muito incómoda, sumamente incómoda, que, inclusive, vai em contramão» de toda a cultura «do mundo»: «pobreza», assinalou o papa, acrescentando que «o espírito mundano não a conhece, não a quer, esconde-a, não por pudor, mas por desprezo. Se tem de pecar e ofender a Deus para que não lhe chegue a pobreza, fá-lo».

Francisco recordou as palavras de Santo Inácio de Loyola, fundador dos Jesuítas, congregação religiosa a que pertenceu, para quem «a pobreza era o muro e a mãe da vida consagrada: mãe porque gerava mais confiança em Deus, e muro porque a protegia de toda a mundanidade».

Na alocução, o papa referiu-se às muitas «almas destruídas»: «Terminaram mal, isto é, medíocres, terminaram sem amor, porque a riqueza empobrece, mas empobrece mal, tira-nos o melhor que temos, faz-nos pobres da única riqueza que vale a pena».

Aludindo ao «espírito de pobreza, o espírito de despojo, o espírito de deixar tudo para seguir Jesus», Francisco frisou que Deus quer que a Igreja seja «pobre», antes de recordar a «primeira bem-aventurança: felizes os pobres de espírito, que não estão apegados às riquezas deste mundo».

«Quantas religiosas e religiosas queimam - e repito queimam - a sua vida acariciando material de descarte, acariciando a quem o mundo descarta, a quem o mundo despreza», pessoas «que são nada», que «não são mostrados», «que não são visitadas», assinalou.

Francisco agradeceu às mulheres consagradas que estão «aos serviço dos inúteis, porque não se pode fazer nenhuma empresa, não se pode ganhar dinheiro» nem nada «de construtivo - entre aspas - se pode fazer» com «os mais pequenos», como é o caso das crianças que são impedidas de nascer por terem doenças degenerativas.

Depois de apontar para o capítulo 25 do Evangelho segundo S. Mateus, em que Jesus afirma que o que é feito em favor dos mais desfavorecidos, é a Ele mesmo que se faz, o papa realçou que há também um um «lugar privilegiado» onde se pode encontrar «esse último, esse mínimo, esse mais pequeno: é o confessionário».

«Quando um homem ou mulher te mostra a tua miséria», «por favor, não o castigues», pediu Francisco, que prosseguiu: «Se não tens pecados, atira-lhe a primeira pedra - mas só nessa condição; se não, pensa nos teus pecados, e pensai que podes ser essa pessoa».

«Pensai que nesse momento tendes um tesouro nas mãos, que é a misericórdia nas mãos», vincou o papa, que endereçou um pedido aos padres: «Por favor, sacerdotes, não se cansem de perdoar; sejam perdoares; não se cansem de perdoar, como fazia Jesus».

Nesta segunda-feira, 21 de setembro, lembrou Francisco, a Igreja evoca São Mateus: Como roubava, como traía o seu povo, e diz o Evangelho que, à noite, Jesus foi jantar com ele e com outros como ele».

«Santo Ambrósio tinha uma frase que me comove muito: "Onde há misericórdia, está o Espírito de Jesus; onde há rigidez, estão somente os seus ministros"», apontou o papa, que lançou um apelo aos padres e bispos: «Não tenhais medo da misericórdia».

Na intervenção que preparou, Francisco salientava que «é frequente confundir unidade com uniformidade, com fazer, sentir e dizer todos o mesmo».

«Isto não é unidade, mas homogeneidade. Isto é matar a vida do Espírito, matar os carismas que Ele distribuiu para utilidade do seu povo. A unidade fica ameaçada sempre que queremos fazer os outros à nossa imagem e semelhança. Por isso, a unidade é um dom; não é algo que se possa impor à força ou por decreto», apontava.

«Peçamos a Deus que faça crescer em nós o desejo de proximidade; que possamos sentir-nos próximos, ser vizinhos, com as nossas diferenças, propensões, estilos, mas vizinhos; com as nossas discussões, os nossos "litígios", falando cara a cara e não pelas costas.»

«Que sejamos pastores próximos do nosso povo, que nos deixemos questionar, interrogar pela nossa gente. Os conflitos, as discussões na Igreja são previsíveis e, ouso dizer, necessárias; sinal de que a Igreja está viva e o Espírito continua a agir, continua torná-la dinâmica. Ai das comunidades onde não há um sim ou um não! São como os esposos que já não discutem, porque perderam o interesse um pelo outro, perdeu-se o amor», referia no texto publicado pelo Vaticano.

Antes da celebração de Vésperas, o papa encontrou-se com o presidente cubano, Raúl Castro, a quem ofereceu um mosaico da "Virgem da Caridade do Cobre", padroeira de Cuba.

De Raúl Castro, Francisco recebeu uma obra de grandes dimensões do artista plástico cubano Kcho (Alexis Leyva Machado), criada com remos (alusão aos migrantes que atravessam os mares em busca de um país com melhores condições de vida), representando a crucificação Jesus.

 

Celebração de Vésperas - Havana, 20.9.2015 (diferido)

 




 

Visita do papa Francisco a Cuba e EUA : transmissão em direto

 




Rui Jorge Martins
Publicado em 27.09.2015

 

 

 
Imagem O regresso do filho pródigo (det.) | Esteban Murillo | 1667-70 | National Gallery of Art, Washington, EUA | D.R.
«Quantas religiosas e religiosas queimam - e repito queimam - a sua vida acariciando material de descarte, acariciando a quem o mundo descarta, a quem o mundo despreza», pessoas «que são nada», que «não são mostrados», «que não são visitadas»
«Pensai que nesse momento tendes um tesouro nas mãos, que é a misericórdia nas mãos», vincou o papa, que endereçou um pedido aos padres: «Por favor, sacerdotes, não se cansem de perdoar; sejam perdoares; não se cansem de perdoar, como fazia Jesus»
«A unidade fica ameaçada sempre que queremos fazer os outros à nossa imagem e semelhança. Por isso, a unidade é um dom; não é algo que se possa impor à força ou por decreto»
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