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Peço perdão aos pobres pelos cristãos que os ignoraram: Papa recebeu pessoas excluídas

Peço perdão aos pobres pelos cristãos que os ignoraram: Papa recebeu pessoas excluídas

Imagem Papa Francisco | Vaticano, 11.11.2016 | © L'Osservatore Romano

O papa pediu hoje aos «pobres, em nome dos cristãos que não leem o Evangelho, que tem no centro a pobreza, perdão por todas as vezes em que os cristãos, diante de uma pessoa pobre ou uma situação de pobreza, viraram as costas».

O apelo foi feito durante a audiência a pessoas que vivem ou viveram na rua, por ocasião do Jubileu das pessoas socialmente excluídas, último encontro antes da conclusão, a 20 de novembro, domingo, do Ano Santo da Misericórdia.

Francisco pediu aos seis mil pobres presentes no encontro para ensinarem à humanidade a capacidade de sonhar, a dignidade, a solidariedade e a paz, tendo concluído a audiência a rezar, rodeado por um grupo de pessoas sem-abrigo.

A intervenção do papa, depois do testemunho de dois pobres, Christian, francês, e Robert, polaco, foi pronunciada de improviso.

«Uma coisa que Robert dizia é: nós não somos diferentes dos grandes do mundo, temos paixões e sonhos, mil paixões até, queremos dar a volta às dificuldades. A paixão, por vezes, faz-nos sofrer, cria-nos barreiras, externas e internas, às vezes a paixão é patológica, mas há também a boa paixão, uma paixão positiva que nos leva a sonhar.



«Ensinai a todos, a nós que temos um teto sobre a cabeça, não nos faltam alimento e cuidados de saúde, ensinai-nos a não ficarmos satisfeitos com os vossos sonhos, e ensinai-nos a sonhar a partir do Evangelho, a partir do coração do Evangelho»



Para mim, um homem, uma mulher muito pobre pode ter uma pobreza diferente da vossa, quando perde a capacidade de sonhar, quando perde a capacidade de levar por diante uma sua paixão.

Não cesseis de sonhar. O sonho de um pobre, de uma pessoa sem teto, como será? Eu não sei, mas vós sonhais. Sonhais que um dia talvez pudesses vir a Roma, e neste caso o sonho realizou-se, sonhais que o mundo possa mudar, é uma semente que nasce do vosso coração.

Recordais uma palavra que uso muitas vezes: a pobreza está no coração do Evangelho. Só aquele que sente que lhe falta alguma coisa olhar para o alto e sonha. Aquele que tem tudo, não pode sonhar. A gente, as pessoas simples, aqueles que seguiam Jesus, seguiam-no porque sonhavam, sonhavam que seriam curados, libertados, e Ele libertava.

Homens e mulheres com paixões e sonhos, esta é a primeira coisa que desejo dizer-vos: ensinai a todos, a nós que temos um teto sobre a cabeça, não nos faltam alimento e cuidados de saúde, ensinai-nos a não ficarmos satisfeitos com os vossos sonhos, e ensinai-nos a sonhar a partir do Evangelho, a partir do coração do Evangelho.



«A capacidade de encontrar a beleza mesmo nas coisas mais tristes, e mais tocadas pelo sofrimento, isto pode fazê-lo apenas uma pessoa que tem dignidade. Pobre, sim, mas que não se arrasta, esta é a dignidade»



A segunda palavra que nos foi dita… ou melhor, não foi dita mas estava presente na atitude daqueles que falaram», prosseguiu o papa, em espanhol, «é quando Robert disse, na sua língua, «la vie devient si belle», a vida torna-se bela, e como conseguimos vê-la bela inclusive nas piores situações que viveis.

Isto significa dignidade, esta é a palavra que me vem à cabeça. A capacidade de encontrar a beleza mesmo nas coisas mais tristes, e mais tocadas pelo sofrimento, isto pode fazê-lo apenas uma pessoa que tem dignidade. Pobre, sim, mas que não se arrasta, esta é a dignidade», afirmou Francisco, entre aplausos.

«A mesma dignidade que teve Jesus, que nasceu pobre e viveu como pobre, é a dignidade do Evangelho, a dignidade que têm um homem e uma mulher que vivem do seu trabalho, pobres, sim, mas não dominados, não explorados. Eu sei que muitas vezes encontrastes pessoas que quiseram explorar-vos, explorar a vossa pobreza (…). Esta dignidade salvou-vos de serem escravos. Pobres, sim, escravos, não. A pobreza está no coração do Evangelho para ser vivida, a escravidão não existe para ser vivida no Evangelho, mas para ser libertada.»

«Sei que para cada um de vós, como dizia Robert, muitas vezes é difícil, a vossa vida foi muito mais difícil do que a minha, e Robert disse que para outros foi ainda mais difícil do que para ele: encontraremos sempre alguém mais pobre do que nós. Dignidade é também isto: saber ser solidário, saber dar a mão a quem está a sofrer mais do que eu. A capacidade de ser solidário é um dos frutos que nos dá a pobreza, quando há muita riqueza esquece-se de ser solidário, está-se habituado ao facto de que não falta nada.»



«O vosso perdão é água abençoada para nós, é limpidez para voltar a compreender que no coração do Evangelho está a pobreza e que nós, cristãos, devemos construir uma Igreja pobre para os pobres, e cada homem e mulher de cada religião deve ver em cada pobre um mensageiro de Deus, que se fez pobre para nos acompanhar na vida»



Retomando sempre as palavras dos dois testemunhos iniciais, o papa falou sobre a paz. «A maior das pobrezas é a guerra», sublinhou, «a pobreza que destrói: ouvir isto dos lábios de um homem que sofreu a pobreza material, a pobreza de saúde, é um apelo a trabalhar pela paz. A paz para nós, cristãos, começou num estábulo, numa manjedoura, de uma família marginalizada, a paz que Deus quer para cada um dos seus filhos. E vós, a partir da vossa pobreza, da vossa situação, podeis ser artífices de paz.

A guerra faz-se entre os ricos, para possuírem mais (…). Os pobres, por causa da sua pobreza, tendem mais a trabalharem pela paz, artífices de paz, acreditam na paz. Dai um exemplo de paz. Precisamos de paz no mundo. Precisamos de paz na Igreja. Todas as Igrejas precisam de paz, todas as religiões precisam de crescer na paz porque todas as religiões devem crescer na paz. Cada um de vós, na vossa religião, pode ajudar, a paz que nasce no coração, procurando a harmonia que dá a dignidade. Agradeço-vos terem vindo aqui a visitar-me, agradeço aqueles que deram o seu testemunho.»

«Peço-vos perdão» - concluiu o papa - «se às vezes vos ofendi com as minhas palavras ou por não ter dito as coisas que deveria ter dito. Peço-vos perdão em nome dos cristãos que não leem o Evangelho, que tem no centro a pobreza, perdão por todas aquelas vezes em que os cristãos, diante de uma pessoa pobre ou uma situação de pobreza, voltaram as costas. O vosso perdão é água abençoada para nós, é limpidez para voltar a compreender que no coração do Evangelho está a pobreza e que nós, cristãos, devemos construir uma Igreja pobre para os pobres, e cada homem e mulher de cada religião deve ver em cada pobre um mensageiro de Deus, que se fez pobre para nos acompanhar na vida.»



Étienne Villemain, fundador da associação parisiense “Lázaro”, propôs, nos momentos iniciais da audiência, que além da Jornada Mundial da Juventude, se organizasse uma “Jornada Mundial dos Pobres”.




Francisco finalizou a audiência com uma oração: «Deus Pai de cada um de nós, peço-te que nos dês força, alegria, que nos ensine a sonhar, para olhar para a frente, que nos ensines a sermos solidários porque somos irmãos, e nos ajudes a defender a dignidade: Tu és o Pai de cada um de nós, abençoa-nos, Pai».

Antes da missa do Jubileu das pessoas socialmente excluídas, marcada para domingo, está prevista uma vigília de oração presidida pelo cardeal Philippe Barbarin, arcebispo de Lyon, que introduziu o encontro de hoje.

Étienne Villemain, fundador da associação parisiense “Lázaro”, propôs, nos momentos iniciais da audiência, que além da Jornada Mundial da Juventude, se organizasse uma “Jornada Mundial dos Pobres”.







 

Iacopo Scaramuzzi
In "Vatican Insider"
Publicado em 11.11.2016

 

 
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