Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Papa no Parlamento Europeu: Onde está a dignidade humana?

Imagem Papa Francisco | Estrasburgo, Parlamento Europeu | 25.11.2014 | CTV | D.R.

Papa no Parlamento Europeu: Onde está a dignidade humana?

O papa Francisco discursou hoje perante o Parlamento Europeu, em Estrasburgo, onde questionou os deputados sobre o facto de milhões de pessoas no Velho Continente e no mundo continuarem a debater-se diariamente com condições de vida que atentam contra a sua dignidade.

Apresentamos alguns excertos da intervenção de Francisco, extraídos da Sala de Imprensa da Santa Sé, com subtítulos, ordenados alfabeticamente, da responsabilidade da redação do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

 

Aborto, eutanásia

«O ser humano corre o risco de ser reduzido a uma mera engrenagem de um mecanismo que o trata como um simples bem de consumo para ser utilizado, que modo que – lamentavelmente o percebemos com frequência -, quando a vida já não serve para esse mecanismo, é descartada sem muitos reparos, como no caso dos doentes terminais, dos idosos abandonados e sem atenções, ou das crianças assassinadas antes de nascer.»

 

Abuso de poder

«Que dignidade é possível sem um enquadramento jurídico claro, que limite o domínio da força e faça prevalecer a lei sobre a tirania do poder?»

 

Alargamento

«A consciência da própria identidade é necessária também para dialogar de modo propositivo com os estados que pediram para fazer parte da União no futuro. Penso especialmente naqueles dos Balcãs, para os quais a entrada na União Europeia poderá responder ao ideal da paz, numa região que sofreu enormemente pelos conflitos do passado.»

 

Cristianismo

«Uma história bimilenária liga a Europa e o cristianismo. Uma história que não é privada de conflitos e de erros, também de pecados, mas sempre animada pelo desejo de construir para o bem. Vemo-lo na beleza das nossas cidades, e mais ainda na das múltiplas obras de caridade e de edificação humana comum que constelam o continente. Esta história, em grande parte, está ainda por escrever. Ela é o nosso presente e também o nosso futuro. Ela é a nossa identidade. E a Europa tem forte necessidade de redescobrir o seu rosto para crescer, segundo o espírito dos seus pais fundadores, na paz e na concórdia, porquanto ela própria não está ainda isenta de conflitos.»

 

Deus

«Uma Europa que não é capaz de se abrir à dimensão transcendente da vida, é uma Europa que corre o risco de perder lentamente a própria alma, e também aquele “espírito humanista” que, todavia, ama e defende.»

«Um dos mais célebres frescos de Rafael que se encontram no Vaticano retrata a denominada “Escola de Atenas”. No centro estão Platão e Aristóteles. O primeiro com o dedo que aponta para o alto, para o mundo das ideias, podemos dizer para o céu; o segundo estende a mão para a frente, para quem olha, para a terra, a realidade concreta. Parece-me uma imagem que descreve bem a Europa e a sua história, feita do contínuo encontro entre céu e terra, onde o céu indica a abertura ao transcendente, a Deus, que desde sempre distinguiu o homem europeu, e a terra representa a sua capacidade prática e concreta de enfrentar as situações e os problemas.»

 

Dignidade humana

«Promover a dignidade da pessoa significa reconhecer que ela possui direitos inalienáveis de que não pode ser privada pelo arbítrio de alguém, e muito menos em benefício de interesses económicos.»


«Afirmar a dignidade da pessoa significa reconhecer a preciosidade da vida humana, que nos é dada gratuitamente e não pode, por isso, ser objeto de troca ou de comércio.»

 

Discriminação

«Que dignidade pode alguma vez ter um homem ou uma mulher que são objeto de todo o género de discriminações?»

 

Economia

«Chegou a hora de construir a Europa que gire não em torno da economia, mas em torno da sacralidade da pessoa humana.»

 

Esperança

«Ao dirigir-me hoje a vós, a partir da minha vocação de pastor, desejo enviar a todos os cidadãos europeus uma mensagem de esperança e de alento. Uma mensagem de esperança baseada da confiança de que as dificuldades podem converter-se em fortes promotoras de unidade, para vencer todos os medos que a Europa – juntamente com todo o mundo – está a atravessar. Esperança no Senhor, que transforma o mal em bem e a morte em vida.»

 

Família

«A família unida, fértil e indissolúvel transporta com ela os elementos fundamentais para dar esperança ao futuro. Sem tal solidez acaba-se por construir sobre a areia, com graves consequências sociais. Por outro lado, sublinhar a importância da família não só ajuda a dar perspetiva e esperança às novas gerações, como também aos numerosos idosos, muitas vezes obrigados a viver em condições de solidão e de abandono porque deixou de existir o calor de um lar doméstico capaz de os acompanhar e apoiar.»

 

Fome

«Não se pode tolerar que milhões de pessoas no mundo morram de fome, enquanto toneladas de sobras de alimentos se descartem diariamente das nossas mesas.»

 

Liberdade religiosa

«Que dignidade existe quando falta a possibilidade de exprimir livremente o próprio pensamento ou professar sem limitações a própria fé religiosa?»

 

Migrantes

«Não se pode tolerar que o mar Mediterrâneo se converta num grande cemitério. Nas barcaças que chegam diariamente às costas europeias há homens e mulheres que necessitam de acolhimento e ajuda. A ausência de um apoio recíproco dentro da União Europeia corre o risco de incentivar soluções particulares do problema que não têm em conta a dignidade humana dos imigrantes, favorecendo o trabalho escravo e contínuas tensões sociais.»

 

Parlamento Europeu

«Vós, na vossa vocação de deputados, sois chamados também a uma grande missão, ainda que possa parecer inútil: tomar-vos de cuidados pela fragilidade, pela fragilidade dos povos e das pessoas. Tomar-vos de cuidados da fragilidade quer dizer força e ternura, quer dizer luta e fecundidade no interior de um modelo funcionalista (...) que conduz inexoravelmete à “cultrua do descartável”. Tomar-se de cuidados pela fragilidade das pessoas e dos povos significa proteger a memória e a esperança; significa encarregar-se do presente na sua situação mais marginal e angustiante, e ser capaz de ungi-la de dignidade.»

 

Perseguições (por motivos religiosos)

«Não podemos esquecer aqui as numerosas injustiças e perseguições que sofrem diariamente as minorias religiosas, e em particular as cristãs, em diversas partes do mundo. Comunidades e pessoas que são objeto de violências cruéis: expulsas das suas próprias casas e pátrias; vendidas como escravas; assassinadas, decapitadas, crucificadas e queimadas vivas, sob o vergonhoso e cúmplice silêncio de muitos.»

 

Solidão (idosos, jovens, pobres, migrantes)

«Uma das doenças que vejo mais espalhada hoje na Europa é a solidão, própria de quem está privado de laços.»
«Isto vê-se particularmente nos idosos, muitas vezes abandonados ao seu destino, como também nos jovens privados de pontos de referência e de oportunidade para o futuro; vê-se nos numerosos pobres que povoam as nossas cidades; vê-se nos olhos perdidos dos migrantes que vêm cá à procura de um futuro melhor.»

 

Trabalho

«Que dignidade pode alguma vez encontrar uma pessoa que não tem o alimento ou o mínimo essencial para viver, e, pior ainda, o trabalho que o unge de dignidade?»

«É tempo de favorecer as políticas de emprego, mas sobretudo é necessário voltar a dar dignidade ao trabalho, garantindo também condições adequadas para a sua execução. Isto implica, por um lado, encontrar novas maneiras para conjugar a flexibilidade do mercado com a necessidade de estabilidade e certezas de perspetivas laborais, indispensáveis para o desenvolvimento humano dos trabalhadores; por outro lado, significa favorecer um adequado contexto social que não esteja apontado à exploração das pessoas, mas a garantir, através do trabalho, a possibilidade de construir uma família e educar os filhos.»

 

União Europeia

«[Trago uma mensagem de] encorajamento a voltar à firme convicção dos pais fundadores da União Europeia, que desejavam um futuro baseado na capacidade de trabalhar em conjunto para superar as divisões e para favorecer a paz e a comunhão entre todos os povos do continente. No centro deste ambicioso projeto político estava a confiança no homem, não tanto enquanto cidadão, nem enquanto sujeito económico, mas no homem enquanto pessoa dotada de uma dignidade transcendente.»

«O moto da União Europeia é “Unidade na diversidade”, mas a unidade não significa uniformidade política, económica, cultural ou de pensamento. Na realidade, cada unidade autêntica vive da riqueza das diversidades que a compõem: como uma família, que é tanto mais unida quando mais cada um dos seus membros pode ser ele próprio até ao fundo, sem medo.»

 

Uma longa ovação dos deputados, de pé, saudou o discurso do papa, depois de uma intervenção pontuada por aplausos do hemiciclo, especialmente nas passagens sobre a imigração, o trabalho e a pobreza.

A personalidade de Francisco «orienta em momentos de perda de orientação», comentou o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, que acrescentou: «As suas palavras ajudar-nos-ão».

O programa do papa em Estrasburgo prossegue com a visita ao Conselho da Europa. A partida para o regresso ao Vaticano está marcada para as 12h50 (hora de Lisboa), prevendo-se que o avião chegue a Roma pelas 14h50.

 

Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 25.11.2014

 

 
Imagem Papa Francisco | Estrasburgo, Parlamento Europeu | 25.11.2014 | CTV | D.R.
Uma Europa que não é capaz de se abrir à dimensão transcendente da vida, é uma Europa que corre o risco de perder lentamente a própria alma, e também aquele “espírito humanista” que, todavia, ama e defende
Um dos mais célebres frescos de Rafael que se encontram no Vaticano retrata a denominada “Escola de Atenas”. No centro estão Platão e Aristóteles. O primeiro com o dedo que aponta para o alto, para o mundo das ideias, podemos dizer para o céu; o segundo estende a mão para a frente, para quem olha, para a terra, a realidade concreta. Parece-me uma imagem que descreve bem a Europa e a sua história
Que dignidade pode alguma vez encontrar uma pessoa que não tem o alimento ou o mínimo essencial para viver, e, pior ainda, o trabalho que o unge de dignidade?
Não se pode tolerar que o mar Mediterrâneo se converta num grande cemitério. Nas barcaças que chegam diariamente às costas europeias há homens e mulheres que necessitam de acolhimento e ajuda
Chegou a hora de construir a Europa que gire não em torno da economia, mas em torno da sacralidade da pessoa humana
A família unida, fértil e indissolúvel transporta com ela os elementos fundamentais para dar esperança ao futuro. Sem tal solidez acaba-se por construir sobre a areia
Comunidades e pessoas que são objeto de violências cruéis: expulsas das suas próprias casas e pátrias; vendidas como escravas; assassinadas, decapitadas, crucificadas e queimadas vivas, sob o vergonhoso e cúmplice silêncio de muitos
Vós, na vossa vocação de deputados, sois chamados também a uma grande missão, ainda que possa parecer inútil: tomar-vos de cuidados pela fragilidade, pela fragilidade dos povos e das pessoas. Tomar-vos de cuidados da fragilidade quer dizer força e ternura, quer dizer luta e fecundidade
No centro deste ambicioso projeto político estava a confiança no homem, não tanto enquanto cidadão, nem enquanto sujeito económico, mas no homem enquanto pessoa dotada de uma dignidade transcendente
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Evangelho
Vídeos