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Papa Francisco: O ano de um construtor de pontes

Imagem Papa Francisco | Assembleia-geral da ONU, Nova Iorque, EUA, 25.9.2015 | D.R.

Papa Francisco: O ano de um construtor de pontes

Viajou para 11 países de quatro continentes: Sri Lanka, Filipinas, Bósnia-Herzegovina, Equador, Bolívia, Paraguai, Cuba, EUA, Quénia, Uganda e República Centro-Africana. Escreveu a primeira encíclica sobre o ambiente, "Laudato si'". Inaugurou o Jubileu Extraordinário da Misericórdia (tema central do seu pontificado), não no Vaticano, mas em Bangui, a capital da República Centro-Africana.

Este foi um ano intenso para Francisco, que consolidou a sua liderança moral. O seu papel de papa diplomático ficou fortalecido com o histórico degelo entre os EUA e Cuba. A sua viagem de setembro à ilha comunista e o histórico voo que fez entre Santiago de Cuba e a base aérea Andrews, em Washington, demonstraram que, se há vontade, pode resultar a cultura do diálogo que prega desde a sua eleição, a 13 de março de 2013.

«Uma das suas frases favoritas é de que há que derrubar muros e construir pontes», recorda Mariano Fazio, vigário-geral do Opus Dei. O degelo entre Cuba e EUA, impensável há dois anos, marca a passagem de Francisco a um papel político-diplomático de imensa transcendência num mundo flagelado por aquilo que ele considera uma «terceira guerra mundial em pedaços».

«Caído o muro na dialética Este-Oeste e o socialismo real, S. João Paulo II pensou que então teriam de cair os muros na dialética Norte-Sul. Este do papa entre Cuba e EUA prossegue, de alguma maneira, essa intuição profética, afirma o uruguaui Guzmán Carriquiry, o leigo com o cargo mais alto no Vaticano: secretário da Comissão Pontifícia para a América Latina.

O papel de papa-diplomático foi mais além de Cuba. Desde a Praça da Revolução, onde a silhueta de outro argentino, Che Guevara, dominava o ambiente, Francisco interessou-se pelo fim de outro conflito com mais de 50 anos e milhares de mortos: o confronto entre as Farc e o governo colombiano: «Não temos direito a permitir-nos mais outro fracasso neste caminho de paz», disse, aludindo às negociações.

Antes de Cuba e EUA, o papa visitou o Equador, a Bolívia e o Paraguai, na sua primeira viagem ao seu continente. «Está a ensinar-nos que os primeiros são os mais humildes. E viajou para três países periféricos mas com uma grande riqueza, que é a sua fé», comenta Fazio.

E falando de periferias, o papa fechou o seu ano de viagens com o Quénia, Uganda e República Centro-Africana, a visita mais arriscada do seu pontificado. Neste país, noutra rutura com a tradição católica, converteu-se no primeiro papa que não abre um ano santo no Vaticano.

«Pela primeira vez na história, um gesto típico do centralismo da Igreja, como abrir a Porta Santa de um Jubileu, foi realizado numa periferia de periferias. Isso foi muito inovador», destaca o padre Carlos Galli, membro da Comissão Teológica Internacional, do Vaticano.

Para este sacerdote, um discurso-chave de Francisco foi proferido por ocasião da comemoração do cinquentenário do Sínodo dos Bispos: «Disse então que a Igreja deve ser uma pirâmide invertida: o povo, acima; os ministros, bispos e os demais, no meio; e o papa, abaixo de tudo, como servo dos servos de Deus».

«Quem conhece a história da eclesiologia [identidade e organização da Igreja] sabe que antes do Concílio Vaticano II [1962-1965] a imagem da Igreja era piramidal, mas ao contrário: o povo de Deus, abaixo, e os ministros e o papa, no topo. Essa figura simbólica mostra claramente esta rotação coperniciana da pirâmide invertida, onde todos nos servimos mutuamente», acrescenta.

Nesse mesmo discurso, no meio de um sínodo marcado por divisões, Francisco reafirmou a sua autoridade. Recordou que é o «supremo garante da obediência da Igreja à vontade de Deus», apelou ao reforço da escuta do povo, a uma «saudável descentralização» da Igreja e até à «conversão do papado».

Foram palavras fortes, num ano em que as resistências à reforma estrutural da cúria romana que está a levar a cabo se tornaram mais evidentes que nunca em dos livros "best sellers" ("Avaricia", de Emiliano Fittipaldi, e "Via Crucis", de Gianluigi Nuzzi), baseados em documentação reunida a partir de fugas do próprio Vaticano.

Esta não foi, aliás, a única dificuldade que se colocou a Francisco em 2015. Pouco antes do início do Sínodo sobre a família, que se realizou em outubro, no Vaticano, o padre e teólogo polaco Krysztof Charamsa, membro da Congregação para a Doutrina da Fé, afirmava que era homossexual e que tinha um parceiro.

Falou-se depois de uma carta com a suposta assinatura de 13 cardeais, dirigida ao papa, com acusações e críticas sobre a forma como se desenrolava o Sínodo. E no momento em que esta assembleia chegava ao fim, um jornal italiano relatava que tinha sido descoberto um pequeno tumor cerebral em Francisco.

Mais tarde, a Justiça do Vaticano enviava para tribunal cinco pessoas: o sacerdote espanhol Lucio Ángel Vallejo Balsa, a ex-acessora Francesca Chaouqui, o empregado Nicola Maio e os jornalistas Emiliano Fittipaldi, e "Via Crucis", de Gianluigi Nuzzi, acusados de, alegadamente, estarem envolvidos na divulgação de documentos considerados secretos sobre as finanças da Sé Apostólica.

Para Francisco, a subtração de documentos reservados do Vaticano foi um «ato deplorável» e um «delito», mas esse «triste facto» não o desviaria do trabalho de reformas que estava e continua a promover.

Num ano de 2015 marcado pelos atentados de Paris e o alerta mundial por receio de novos ataques fundamentalistas, que ameaçam inclusivamente o papa, Francisco converteu-se no primeiro pontífice que fez subir um imã ao seu papamóvel, durante a visita que realizou a um enclave muçulmano da República Centro-Africana.

Nesse enclave foi aclamado não como chefe máximo da Igreja católica, mas como líder moral credível, cuja presença concreta, mais além de qualquer discurso, significou uma mensagem de paz. Uma mensagem de esperança de que as coisas podem mudar se houver vontade e fé, para além da «terceira guerra mundial em pedaços» que está em curso.

 

Elisabetta Piqué, In "El Tiempo"
GDA/"El Comercio Perú", In "El Tiempo"
Edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 20.12.2015

 

 
Imagem Papa Francisco | Assembleia-geral da ONU, Nova Iorque, EUA, 25.9.2015 | D.R.
O papel de papa-diplomático foi mais além de Cuba. Desde a Praça da Revolução, onde a silhueta de outro argentino, Che Guevara, dominava o ambiente, Francisco interessou-se pelo fim de outro conflito com mais de 50 anos e milhares de mortos: o confronto entre as Farc e o governo colombiano
Falando de periferias, o papa fechou o seu ano de viagens com o Quénia, Uganda e República Centro-Africana, a visita mais arriscada do seu pontificado. Neste país, noutra rutura com a tradição católica, converteu-se no primeiro papa que não abre um ano santo no Vaticano
No meio de um sínodo marcado por divisões, Francisco reafirmou a sua autoridade. Recordou que é o «supremo garante da obediência da Igreja à vontade de Deus», apelou ao reforço da escuta do povo, a uma «saudável descentralização» da Igreja e até à «conversão do papado»
Num enclave muçulmano, foi aclamado não como chefe máximo da Igreja católica, mas como líder moral credível, cuja presença concreta, mais além de qualquer discurso, significou uma mensagem de paz. Uma mensagem de esperança de que as coisas podem mudar se houver vontade e fé
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