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Papa Francisco: Do abraço a Cirilo ao encontro com o povo mexicano

Imagem Papa Francisco acena antes de entrar no avião rumo ao México | Roma | 12.2.2016 | © Lusa

Papa Francisco: Do abraço a Cirilo ao encontro com o povo mexicano

O avião com o papa Francisco já sobrevoa o oceano Atlântico, depois de ter passado sobre Lisboa, rumo ao México, viagem que tem um “prólogo” de alcance histórico: o encontro de hoje no aeroporto de Havana, capital de Cuba, anunciado para as 14h15 locais (19h15 em Portugal continental), com o patriarca de Moscovo e da Rússia, Cirilo.

A importância deste encontro, o primeiro após o cisma de 1054, que causou a criação das denominadas Igrejas ortodoxas, separadas da católica, é mais significativo de tudo quanto poderá ser dito. Foi sonhado por S. João Paulo II e pareceu que poderia realizar-se com Bento XVI, o que não sucedeu.

A declaração conjunta que Francisco e Cirilo assinarão no termo da sua longa conversa, pelas 21h30 em Portugal, segundo o programa oficial, referir-se-á à perseguição dos cristãos e às questões éticas, em particular no que diz respeito à defesa da vida, da família e do matrimónio.

Não se deve todavia esquecer que este abraço nunca dado entre o bispo de Roma e o representante máximo da Igreja ortodoxa russa, a mais forte numericamente, é um gesto antes de tudo ecuménico que se insere num caminho cuja meta final é a plena unidade, e não uma “santa aliança” anti-islâmica ou em defesa de alguns valores. A unidade dos cristãos não será o resultado de novas “cruzadas”. A unidade dos cristãos está ao serviço da paz no mundo.

Este encontro, para o qual o papa Francisco se afirmou disponível desde o início do seu pontificado e sem colocar qualquer condição, inscreve-se na aproximação a todos os campos de um papa que procura construir pontes onde e com quem quer que seja, dialogando abertamente com todos, para esconjurar novas lógicas de Ialta no mundo – ou seja, a evocação do encontro entre os Aliados e a Rússia, no início de 1945, quando a vitória sobre o nazismo já parecia certa, e que selou as fronteiras da futura “Cortina de Ferro” – e para superar as que existem no seio das Igrejas cristãs.

Depois deste “prólogo” extraordinário, a viagem de Francisco prossegue com a vivacidade do encontro com o grande país latino-americano, muito amado por João Paulo II, que em janeiro de 1979 deu início ao seu pontificado itinerante de “globetrotter”; e que cada vez que regressou foi acolhido por multidões oceânicas.

O principal motivo da viagem é a grande devoção mariana do povo mexicano pela Virgem de Guadalupe, a Senhora mestiça símbolo do encontro entre os povos colonizadores europeus e os indígenas.

Uma mãe para todos os povos, que sabe falar a cada cultura: é assim que ainda hoje se apresenta a Virgem de Guadalupe, verdadeiro eixo espiritual da América Central e do Sul. O seu santuário, no México, é anualmente visitado por mais de 20 milhões de peregrinos, sendo o mais frequentado daquelas regiões.

A padroeira da América Latina apareceu num local perto da cidade do México, entre 9 e 12 de dezembro de 1531, a um índio mexicano, Juan Diego Cuauhtlatoatzin, santo desde 2002.

No tempo das aparições, o México era terra de conquista, mas também de afronta à dignidade humana, porque muitas vezes os colonizadores espanhóis não tiveram piedade dos índios. Também por este motivo a aparição de Maria é um sinal relativamente aos oprimidos e sofredores de todo o mundo.

Ao vidente, a Virgem Morena confiou a tarefa de fazer construir uma basílica a ela dedicada, mas não foi fácil convencer o bispo, que pediu um sinal da aparição. Juan Diego, instruído por Maria, recolheu flores encontradas numa colina semidesértica, em pleno inverno, que deveria levar ao bispo.

No dia 12 de dezembro, o vidente acondicionou as flores no seu manto ("tilma") e levou-as ao prelado, que com ele tinha reunido um conjunto de testemunhas. Ao abrir a capa, viram, em vez de flores, a imagem estampada de Nossa Senhora.

A imagem continua intacta até hoje, não obstante a fragilidade do tecido do manto, e a ciência não consegue explicar o fenómeno. Mas este não é o único facto que suscita interrogações por responder.

No final da década de 1970, especialistas que fotografaram o tecido com raios infravermelhos concluíram que a imagem não tinha traços de pincel, pelo que teria sido plasmada na totalidade. Além disso, não foram detetados elementos animais ou minerais.

E um oftalmologista peruano analisou os olhos da imagem com um aparelho capaz de os aumentar 2 500 vezes e identificou até 13 pessoas, sugerindo o reflexo do bispo e da sua comitiva quando o vidente lhe mostrou o manto.

A indestrutibilidade da imagem também é um dos motivos que a tornam famosa. Em 1921, um ativista anticlerical escondeu dinamite junto à imagem, no interior da basílica de Guadalupe. A bomba destruiu o pavimento, fez voar uma peça em mármore e o seu impacto estilhaçou janelas a 150 m de distância, mas a imagem e o vidro que a protegia permaneceram intactos.

A basílica onde atualmente se conserva a imagem foi dedicada em 1976, tendo no exterior da fachada as palavras que a Virgem dirigiu a Juan Diego: «Não estou eu aqui, que sou tua Mãe?». Três anos depois foi visitada pelo papa S. João Paulo II, que em 1990 proclamou beato Juan Diego.

Diante da imagem de Nossa Senhora de Guadalupe, o papa Francisco pediu para poder permanecer durante longo tempo em oração, sozinho, após a missa que celebrará, este sábado, no santuário.

A cultura indígena, o sofrimento da população índia, muitas vezes explorada e massacrada ao longo dos séculos, estarão no centro da atenção do papa em Chiapas.

Outro grande tema da peregrinação será a praga do narcotráfico e da violência, que atingiram níveis terríveis no país, requerendo um sobressalto nas consciências e um salto em frente no compromisso, também da Igreja católica, no combate àquelas duas chagas.

No México a fé cristã e a devoção popular continuam profundamente radicadas na população; é provável que Francisco lance um convite à «conversão pastoral» que está no centro do seu pontificado, para mostrar sobretudo o rosto de uma Igreja mãe, como a Virgem de Guadalupe, e não agarrada ao poder ou ao dinheiro.

No último dia da viagem, os projetores acender-se-ão sobre Ciudad Juarez, junto aos EUA, onde está patente, como ferida em carne viva, o drama dos migrantes, de quem procura um futuro melhor para si e para os seus, procurando atravessar a fronteira. Francisco celebrará missa, na tarde do dia 17, num estádio situado junto ao rio que assinala os limites entre o México e os EUA.

Com a passagem por Ciudad Juarez, antes do regresso a Roma, Francisco, filho de imigrantes, como se definiu aquando do encontro com Barack Obama, na Casa Branca, em setembro, falará em território mexicano mas a celebração será seguida também para lá do rio, onde vivem os imigrantes hispânicos.

Hoje, no avião a caminho do México, o papa Francisco sobrevoou Portugal, tendo enviado ao Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, o seguinte telegrama: «Envio saudações cordiais a Vossa Excelência enquanto sobrevoo Portugal na minha viagem para o México. Asseguro-lhe, e a todo o povo da Nação, a lembrança nas minhas orações, e invoco para cada um de vós as bênçãos de Deus de paz e alegria».

 

ImagemPapa Francisco. "Twitter"

 

Andrea Tornielli
In "Vatican Insider"
Com Rui Jorge Martins/SNPC
Publicado em 12.02.2016

 

 

 
Imagem Papa Francisco acena antes de entrar no avião rumo ao México | Roma | 12.2.2016 | © Lusa
Não se deve esquecer que este abraço nunca dado entre o bispo de Roma e o representante máximo da Igreja ortodoxa russa, a mais forte numericamente, é um gesto antes de tudo ecuménico que se insere num caminho cuja meta final é a plena unidade, e não uma “santa aliança” anti-islâmica ou em defesa de alguns valores
Uma mãe para todos os povos, que sabe falar a cada cultura: é assim que ainda hoje se apresenta a Virgem de Guadalupe, verdadeiro eixo espiritual da América Central e do Sul. O seu santuário, no México, é anualmente visitado por mais de 20 milhões de peregrinos
A cultura indígena, o sofrimento da população índia, muitas vezes explorada e massacrada ao longo dos séculos, estarão no centro da atenção do papa em Chiapas. Outro grande tema da peregrinação será a praga do narcotráfico e da violência
No último dia da viagem, os projetores acender-se-ão sobre Ciudad Juarez, junto aos EUA, onde está patente, como ferida em carne viva, o drama dos migrantes, de quem procura um futuro melhor para si e para os seus, procurando atravessar a fronteira
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