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Palavra da Igreja na era da internet deve ser essencial, simbólica e relacional

Imagem D.R.

Palavra da Igreja na era da internet deve ser essencial, simbólica e relacional

A comunicação da Igreja na era da internet deve apelar à «essencialidade», como a rede social Twitter, que admite um máximo de 140 caracteres por mensagem, defendeu hoje, em Lisboa, o presidente do Pontifício Conselho da Cultura.

O cardeal Gianfranco Ravasi lembrou que a primeira pregação de Jesus registada na Bíblia, em Marcos 1, 15 - proclamada nas missas do último domingo - apresenta uma formulação que sintetiza teologia - o projeto de Deus - e antropologia em cerca de 100 letras, no original grego.

Na conferência “Parábolas mediáticas e parábolas evangélicas – Comunicar a fé no tempo da internet”, que proferiu na Universidade Católica, o prelado italiano preconizou a importância da «clareza», de «fazer-se compreender» e expressar um «pensamento cristalino».

O biblista realçou igualmente a necessidade de recorrer à simbologia - «Cristo falava com as imagens; a sua palavra, por isso, é incisiva e decisiva» - e apostar na relação cara a cara.

«Num mundo que tende cada vez mais a ser virtual, devemos retomar o encontro, o diálogo, a comunicação», porque o cristianismo «é uma religião de carne», salientou Ravasi.

O papa Francisco, destacou o cardeal, tem assumido estas prioridades ao utilizar uma linguagem compreensível, repleta de símbolos - como o pastor que deve cheirar às suas ovelhas -, e, nas audiências gerais das quartas-feiras, ao passar mais tempo entre os peregrinos do que a proferir a catequese, proporção que com Bento XVI era inversa.

O coordenador do Átrio dos Gentios, plataforma de diálogo entre crentes e não crentes, vincou que a comunicação «é uma categoria fundamental para a cultura e para a teologia», que «não são fenómenos autistas, fechados em si mesmos», mas «dialógicos».

«A comunicação está agora a viver uma experiência fundamental», «análoga àquela que no séc. XV ocorreu com Gutenberg, ou quando a humanidade começou a gravar sinais sobre a pedra, a cristalizar o pensamento», observou.

Referindo-se à asserção «o meio é a mensagem», de Marshall McLuhan, o cardeal salientou que «o modo como se comunica faz parte do conteúdo», pelo que «uma pregação aborrecida não comunica».

Ravasi lembrou que nos versículos iniciais do primeiro livro da Bíblia, o Génesis, a criação começa com uma palavra, em hebraico "dabar", que também significa "ato": «Deus disse: "Faça-se a luz." E a luz foi feita» (1,3).

E num momento fundamental da identidade de Israel, aquando da entrega dos dez mandamentos, lê-se no livro do Deuteronómio (4,12): «O Senhor falou-vos do meio do fogo; ouvistes o som das palavras, mas não vistes figura alguma. Era uma voz apenas».

A mesma centralidade da palavra sobressai no Novo Testamento, no «hino esplêndido de abertura do quarto Evangelho, o prólogo de João»: «No princípio existia o Verbo; o Verbo estava em Deus», apontou.

A intervenção terminou com a evocação de dois testemunhos que acentuam a importância da palavra. O primeiro foi do teólogo e pensador italiano Romano Guardini, na evocação de um grupo de soldados que, cercado de inimigos a disparar continuamente, sabe que serão fuzilados.

«O capelão militar, sentindo que não havia nada mais a dizer de aceitável e digno naquela hora, tira do bolso o Novo Testamento; abre-o, e dá uma página a cada soldado», como se fosse «um viático», «para que fossem para a morte com o Palavra de Cristo».

Por seu lado, Nelly Sachs, escritora alemã que fugiu ao regime nazi, lembra a necessidade de uma «comunicação que deixa um rasto», que não é vazia:

«Se os profetas irrompessem/ pelas portas da noite/ com as suas palavras abrindo feridas nas rotinas do nosso quotidiano// (...) Se os profetas irrompessem/ pelas portas da noite/ à procura de um ouvido como pátria// Ouvido humano/ obstruído por mato e por silvas/ será que saberias escutar?».

Nesta sexta-feira Gianfranco Ravasi recebe, também na Universidade Católica, em Lisboa, o doutoramento "Honoris Causa", o que o levou a comentar que gostaria de regressar ao país, agora que vai ser um pouco mais português, além de «aluno» da instituição.

 

Rui Jorge Martins
Publicado em 29.01.2015

 

 
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O capelão militar, sentindo que não havia nada mais a dizer de aceitável e digno naquela hora, tira do bolso o Novo Testamento; abre-o, e dá uma página a cada soldado», como se fosse «um viático», «para que fossem para a morte com o Palavra de Cristo
Se os profetas irrompessem/ pelas portas da noite/ com as suas palavras abrindo feridas nas rotinas do nosso quotidiano// (...) Se os profetas irrompessem/ pelas portas da noite/ à procura de um ouvido como pátria// Ouvido humano/ obstruído por mato e por silvas/ será que saberias escutar?
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