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Padre Abel Varzim, «volta, por favor, à nossa Igreja»

Imagem P. Abel Varzim | D.R.

Padre Abel Varzim, «volta, por favor, à nossa Igreja»

No ano de 2014 celebrámos cinquenta anos sobre a morte do grande profeta que foi Abel Varzim.

O Padre Abel Varzim era natural de uma fresca e bela freguesia de Barcelos, de seu nome Cristelo. Estudou nos Seminários de Braga, tendo-se doutorado com distinção em Ciências Sociais e Políticas, na Universidade de Lovaina (Bélgica). Foi missionário do Alentejo, tendo alguns anos depois sido chamado para Lisboa, onde lhe estavam reservados, o Tabor e o Calvário.

A sua preocupação pastoral andou sempre pelas áreas dos mais pobres, dos agredidos nos direitos humanos, no mundo do trabalho explorado. Foi o primeiro assistente eclesiástico da Liga Operária Católica, que ainda hoje vive da sua força, e colaborou no jornal "O Trabalhador", que a polícia haveria, em breve, de encerrar. Foi deputado à Assembleia Nacional, onde esteve só um mandato, pelos incómodos que provocavam as suas intervenções de carácter social.

Cansado da oposição que faziam ao seu apostolado, acabou por ser nomeado pároco da Encarnação, que toda ela cheirava a prostituição. É indescritível o seu sofrimento humano, neste meio de escravatura – das pobres raparigas, das donas dos lupanares, dos seus causadores e frequentadores. Vem desta experiência um dos livros que mais me tocou em toda a minha vida, escrito por ele com o título "Procissão dos Passos".

Solidarizou-se com D. António Ferreira Gomes, em todo o seu magistério. Chegou a corresponder-se com ele e comungou em cheio as dores do seu exílio infame.

Também Abel Varzim que não podia mais com a incompreensão dos homens, acabou por exilar-se na sua terra natal. Com o desejo de ajudar os pobres trabalhadores, seus conterrâneos fundou uma cooperativa agrícola que lhe sobreviveu.

Morreu em 1964, com 62 anos de idade.

O Padre Abel Varzim, tinha da Igreja, a visão que servir os outros, amar os outros, era o caminho para a evangelização. Esta vertente de serviço para ter uma dimensão evangélica tem de ser também evangelicamente realizada, de tal maneira que nas “instituições de serviço da Igreja” nós sintamos, palpemos, cheiremos o coração da própria Igreja, que está presente na sua variedade, com a sua solicitude com o seu cuidado com a sua preocupação, o que muitas vezes não acontece.

Por vezes olhamos para uma instituição destas como uma empresa, e para o padre como um patrão. A filosofia, a alma destas instituições deve ser uma alma verdadeiramente evangélica, que ajude as pessoas a ver nestas o rosto fraterno de Deus.

É preciso um cuidado muito especial, uma atenção muito especial, por parte da Igreja, por parte de quem tem especiais responsabilidades, para fazer com que estas instituições se comportem como caminhos de evangelização profética.

Em que consiste esta evangelização profética? Consiste em denunciar as agressões que se cometem contra a dignidade humana, venham elas donde vierem, diz o Papa, e denunciá-las com coragem. O Papa diz no documento, “Alegria do Evangelho”, que a Igreja tem como missão cantar a dignidade da pessoa humana, procurar convencer que cada um de nós vale Deus. Nós valemos Deus, cada um de nós vale Deus. Portanto, à Igreja compete proclamar, oportuna e inoportunamente, a dignidade da pessoa humana, o valor divino da pessoa humana. À Igreja compete ajudar as pessoas a descobrir a sua própria dignidade.

Foi o Papa que disse que boa parte das desgraças que acontecem no mundo são devidas às agressões que se cometem contra a dignidade humana, contra os direitos humanos. Se todos nós nos respeitássemos, respeitássemos a nossa dignidade e os deveres que temos para com os outros e que os outros têm para connosco, com certeza que teríamos um mundo de paz. O Papa diz, além disso, que a Igreja tem de denunciar com coragem as agressões feitas, sobretudo pelo poder político e pelo poder económico, (quase não fazem outra coisa). Desgraçadamente, a comunicação social cada dia traz-nos uma novidade.

A Igreja tem que ser capaz de denunciar as agressões que se cometem contra a dignidade humana. E vem a pergunta incómoda: Será que a Igreja tem feito isso, ou tem-se ficado só pela dimensão litúrgica? E não desce às outras dimensões, sobretudo à dimensão profética, por causa de aconselhamentos mil, de que deve ser prudente.

A Igreja que seja prudente, a Igreja que não crie problemas, a Igreja que não incomode ninguém, a Igreja que não incomode o Governo, a Igreja que não incomode as autoridades, quaisquer que elas sejam, não está a ser evangélica. Porquê? E a resposta infelizmente é: A Igreja não respeita, nem cultiva a sua própria liberdade.

A Palavra de Deus não está presa de nada, nem de ninguém. Por conseguinte, quando for preciso bater o pé, bate-se o pé. Foi D. António Ferreira Gomes, o grande bispo do Porto, que teve relações especiais de amizade e correspondência com o Padre Abel Varzim – que eram profetas da mesma ordem, digamos assim – mandava colocar nas salas de aula a seguinte inscrição: «De pé diante dos homens, de joelhos diante de Deus». Nós só podemos estar de pé diante dos homens se tivermos a consciência da nossa cidadania e da nossa importância, da nossa dignidade, do nosso valor. Sempre de pé diante dos homens.

Abel Varzim viveu exilado na sua própria terra, exilado, na terra de onde era natural, como o bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes que também esteve exilado.

A prudência, que nós consideramos no catecismo como virtude, também pode ser um crime. Pode ser um pecado de omissão, grave. Essa prudência que nós praticamos muitas vezes por nos sentirmos dependentes do poder. Imaginemos que um presidente de Câmara tem umas atenções especiais para com uma paróquia que está a construir, isto e mais aquilo. E depois, qualquer coisa aconteceu na vida do senhor presidente que provocou um grande mal-estar e divisões no concelho. A Igreja nunca fala. Por uma questão de prudência e porque está dependente do presidente da Câmara. Isto acontece muitas vezes. E somos impelidos a não dizer nada, até porque os governantes procuram sempre ser muito amáveis com a Igreja. A Igreja sente-se presa, não fala, não se sente livre por causa destas dependências que se vão criando.

Há um livro que cito muitas e que não vejo nas livrarias, nem nas mãos de muitas pessoas. É um livro muito interessante "Deus come lagosta com os ricos". São os pobres que nos fazem as igrejas, as casas paroquiais, que nos vestem, que nos alimentam, etc. E nós acompanhamos com os ricos, comemos com os ricos, passeamos com os ricos, etc.

Isto não quer dizer que estejamos contra os ricos, mas quer dizer que devemos ser iguais para todos, devemos respeitar igualmente todos. Não devemos fazer discriminações de pessoas, como acontecia com o Padre Abel Varzim. Desculpem esta linguagem um bocadinho dura mas se não valer até cem, que valha pelo menos dez. (...)

A Igreja com a sua ação deve ser sempre um agente que pregue, que anuncie a necessidade de estarmos vivos. Por conseguinte, devemos saber ocupar o nosso lugar e sabermos cumprir o nosso dever.

Numa outra expressão do seu amor para connosco, Jesus criou a Igreja. A Igreja que é Cristo incarnado. E se a Igreja é Cristo incarnado, existe por causa dos homens e não pode esquecer os homens. Estes são o seu altar; o mundo é o altar da Igreja. A Igreja está onde está o homem, e sobretudo onde está o homem marginalizado, escorraçado, onde está o homem de Lampedusa, onde está o homem a quem negam o trabalho.

Ainda ontem no jornal li a respeito de uma empresa que despediu um trabalhador invocando a extinção do lugar. O lugar foi extinto e, por conseguinte, não precisamos de si, diziam eles. O que é certo é que o trabalhador foi embora, e no outro dia estava outro a substitui-lo, com remuneração inferior. Este caso, infelizmente, não é isolado.

Ao trabalhador faz-se tudo o que se quer, e ai do pobre trabalhador. Do trabalhador, do indefeso e do pobre, faz-se tudo o que se quer. A Igreja não tem tido a coragem de denunciar estas situações.

Devemos perguntar se a Igreja tem realmente esta função.

O Padre Abel Varzim viveu inteiramente apaixonado por esta missão. Ele foi a Igreja no meio do mundo, ele deu toda a sua alma em defesa dessa Igreja. Há um livro que há uns anos apareceu: "A Igreja que Jesus quer". E então nós procuramos responder: Jesus quer uma Igreja que acredite em Deus, uma Igreja que nunca se pareça com uma empresa. O Papa já denunciou que a Igreja, muitas vezes, parece mais uma ONG que uma expressão do amor de Deus no meio do mundo, a favor dos homens, da promoção dos homens.

Uma Igreja que acredite em Deus, orante, isto é que reza em nome da humanidade, faz a ligação entre a humanidade e Deus, através da oração que não seja uma oração emparelhada, mas que seja, uma oração que apresente o verdadeiro sentido de Deus. Somos nós padres que temos de intervir neste serviço de ajudar os cristãos a orar e que o orar represente um encontro verdadeiro com Deus.

A Igreja deve ser feliz no meio do mundo, pregar e testemunhar a esperança. Ainda agora o Papa disse na exortação «A Alegria do Evangelho». A Igreja é uma instituição feliz que dá testemunho de felicidade, semeando confiança no meio do mundo. A Igreja é uma instituição de Cristo continuado e por isso deve ser uma Igreja próxima, uma Igreja sensível e uma Igreja que seja capaz de chorar. Uma Igreja acolhedora que tenha em conta os sem-abrigo, os arrumadores, os marginalizados. Nós, muitas vezes, desculpamo-nos e não nos aproximamos deste, daquele, ou daqueloutro, porque ele é drogado, ele deixou a mulher, ele embebeda-se. Nós nunca podemos esquecer que, não obstante todos os defeitos que uma pessoa possa ter, ela é uma pessoa. Devemos estabelecer contacto possível com essa pessoa e devemos procurar a ajuda possível para ela.

Tenho visitado alguns lugares onde esta oportunidade me é dada, e ultimamente fui visitar um centro de acolhimento dos sem-abrigo. E o que a gente ali descobre: às vezes encontramos uma família inteira, às vezes é uma mãe um filho, outras vezes é uma mãe e dois filhos. E muitas vezes esta gente não é devidamente ajudada, porque tem “este defeito” aquele defeito, e nós pomo-los de parte.

Já tenho dito muitas vezes que no Porto não há igreja nenhuma onde não apareçam, um, dois, três, quatro, cinco, seis pobres. E às vezes, há padres que dizem logo «não dêem, é para a droga». Acho que é um pecado mortal, não devemos dizer isso. Eles são irmãos nossos que precisam mais da nossa presença, do nosso auxílio, do nosso sorriso do nosso carinho, da nossa confiança. Quantas vezes tenho dito, porque é que não aparece um Padre Américo que comece a juntar-se com essa gente, que são a imagem de Cristo.

Há um grande pintor do Porto, que agora vive em Paris, que um dia se lembrou de andar à procura dos sem-abrigo, dos arrumadores de carros, para com eles pintar imagens de Jesus Cristo. E fez uma colecção de sonho! E depois teve escrúpulos. Julgava que estava a ofender a Deus representando-o daquela maneira. Mostrou-me e eu li-lhe o Evangelho, evidenciando o apreço que Jesus tinha por estes desprezados, com os quais se identificou.

Estamos a evocar o Padre Abel Varzim no cinquentenário da sua morte, afinal a evocar teimosamente. Nesta modesta intervenção só tentei esboçar, mal com certeza, um retrato. O resto construído com os pedaços sacramentais da sua vida já vós sabeis melhor que eu.

O Padre Abel Varzim deu um belo testemunho da Igreja que Jesus quer. Damos graças a Deus por isso. Tudo quanto fez, foi exigência da sua fé, do Evangelho que foi o grande inspirador da sua vida, por isso, e sem exagero, o P. Abel Varzim é o verdadeiro retrato do Evangelho. Esta evocação, das várias que aconteceram por esse país, acontece na terra onde nasceu, onde está sepultado, e que logo a partir do seu nome, Cristelo lhe marcou o destino. É caso para se dizer: «Feliz terra que tal filho teve».

Padre Abel Varzim o mundo em que vivemos está pior que o teu! Volta, por favor, à nossa Igreja, volta, por favor, aos nossos bispos, aos nossos padres, volta, por favor, aos nossos cristãos. Precisamos de ti.



 

D. Manuel Martins
Bispo emérito de Setúbal
Cristelo, Barcelos, 16.11.2014
In "Transformar", janeiro 2015
Vídeo: Agência Ecclesia
Publicado em 16.01.2015

 

 

 
Imagem P. Abel Varzim | D.R.
Em que consiste a evangelização profética? Consiste em denunciar as agressões que se cometem contra a dignidade humana, venham elas donde vierem
A Palavra de Deus não está presa de nada, nem de ninguém. Por conseguinte, quando for preciso bater o pé, bate-se o pé
A prudência, que nós consideramos no catecismo como virtude, também pode ser um crime. Pode ser um pecado de omissão, grave
São os pobres que nos fazem as igrejas, as casas paroquiais, que nos vestem, que nos alimentam, etc. E nós acompanhamos com os ricos, comemos com os ricos, passeamos com os ricos, etc. Isto não quer dizer que estejamos contra os ricos, mas quer dizer que devemos ser iguais para todos
A Igreja está onde está o homem, e sobretudo onde está o homem marginalizado, escorraçado, onde está o homem de Lampedusa, onde está o homem a quem negam o trabalho
Ao trabalhador faz-se tudo o que se quer, e ai do pobre trabalhador. Do trabalhador, do indefeso e do pobre, faz-se tudo o que se quer. A Igreja não tem tido a coragem de denunciar estas situações
A Igreja é uma instituição de Cristo continuado e por isso deve ser uma Igreja próxima, uma Igreja sensível e uma Igreja que seja capaz de chorar
Nós, muitas vezes, desculpamo-nos e não nos aproximamos deste, daquele, ou daqueloutro, porque ele é drogado, ele deixou a mulher, ele embebeda-se. Nós nunca podemos esquecer que, não obstante todos os defeitos que uma pessoa possa ter, ela é uma pessoa
No Porto não há igreja nenhuma onde não apareçam, um, dois, três, quatro, cinco, seis pobres. E às vezes, há padres que dizem logo «não dêem, é para a droga». Acho que é um pecado mortal
O Padre Abel Varzim deu um belo testemunho da Igreja que Jesus quer. Damos graças a Deus por isso. Tudo quanto fez, foi exigência da sua fé, do Evangelho que foi o grande inspirador da sua vida
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