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Ou amor ou violência

Imagem Bansky | D.R.

Ou amor ou violência

Para quem estuda há muito tempo as questões implicadas pela guerra e pela violência, não é o surgimento de um qualquer ato de especialmente próxima ou espetacular violência que surpreende, mas que ainda haja surpresa com o surgir da violência.

A humanidade, criada com uma naturalmente inaudita capacidade de entendimento da realidade na forma de sentido, sentido este universalmente partilhável entre todos os sujeitos humanos, teima, desde que existe, em não usar de tal capacidade como forma de engrandecimento de si própria. Exemplos claros na tradição judaico-cristã são o estulto uso da inteligência prístina pelo mítico casal Adão e Eva, bem como o uso da mesma capacidade, já não prístina, por seu filho Caim, que pensou – mal – engrandecer-se à custa da diminuição do irmão na forma radical da sua aniquilação.

A história da humanidade – mítica ou monumental – está esmagada pelo peso de exemplos com estes analogáveis. Realisticamente, pode dizer-se que a história da humanidade, desde o simbólico Caim, é o relato da perversão bestial da sua capacidade própria de engrandecimento. Não se trata de pessimismo, mas da constatação de uma realidade indesmentível. Pessimista seria a afirmação segundo a qual à humanidade não é possível mais do que comportar-se bestialmente.

Ora, precisamente, o que o mito genesíaco relativo ao início da humanidade manifesta é a criação de um tipo entitativo perfeito como passível de realizar, de literalmente criar o bem, na sequência imediata da própria criação divina inicial. O que constitui a perfeição própria do ser humano não é a "necessidade de fazer o bem", que o reduziria a uma mera sequência mecânica da ação divina, como uma pedra, mas a sua constituição como "ser ético", isto é, como "ser capaz de escolher entre bens possíveis". É função da inteligência apontar para o melhor bem possível. É acto de preferencialidade da mesma inteligência a escolha, ato a que comummente se chama vontade.

Mas a inteligência humana, precisamente porque não é mecânica – ou mecanicamente redutível, como alguns sonham que possa ser –, tem de ser treinada, especialmente treinada. Não basta a simples imitação de manifestações de atividade, como em outras espécies. A capacidade de perspetivar virtualmente infinitas possibilidades de ação implica que se tenha se receber uma formação que não apenas ensine a replicar comportamentos – perigo das tradições, sem crítica –, mas forneça instâncias de "discernimento crítico", que possam permitir operar uma separação entre o que serve o bem da humanidade e o que não serve esse bem.

Quando Deus – numa versão laica radical, pode ser um inteligentíssimo operador lógico universal dotado de palavra – emite o mandamento de não matar, não está a manifestar um capricho divino apenas porque pode ou lhe apetece. Sem tal princípio orientador absoluto, a humanidade não pode subsistir. Kant percebeu o alcance ontológico de tal preceito quando propôs o seu «imperativo categórico». Apenas a interdição universal da aniquilação do semelhante humano, sem condições, pode impedir que, num qualquer momento, a humanidade resolva, matando cada um um outro, em total absurda reciprocidade, aniquilar-se instantaneamente.

Este «não matar» não é, assim, um preceito religioso, embora seja dado num texto e num contexto religioso, mas uma condição lógica fundamental para que possa haver humanidade. Como é evidente, depois da graça que Deus concedeu à humanidade ao criá-la, não surpreende que lhe ordene que não destrua o que acabara de ser construído e de que não há substituto possível.

O mandamento novo de Cristo transforma num preceito absolutamente positivo a interdição de matar, transformando esta na necessidade de amar para que a humanidade possa subsistir. Esta afirmação deve ser lida em todo o rigor da sua abrangência: "não é possível à humanidade sobreviver se não cumprir o mandamento de Cristo". E não é por ser de Cristo, é porque é o "enunciado da condição absoluta de possibilidade da existência da humanidade". Não interessa quem o enunciou. É a bondade do enunciado que é divina e divina a pessoa que o enuncia, porque enuncia o bem. Sem a enunciação e o anúncio do bem, nenhum ator é ou pode ser divino. Deus é Deus porque é bom, absolutamente bom, ou não é Deus.

A mensagem de Cristo é, muitas vezes, reduzida a um discurso delicodoce, mas nada está mais errado: o mandamento do amor, fundamento de toda a mensagem e vida de Cristo, estabelece um regime em que a escolha a fazer é diamantina. Em disjunção exclusiva: ou se ama ou não se ama; ou se promove o bem do outro ou não se promove o bem do outro; ou se trabalha no sentido da vida plena da humanidade – que é o que o amor permite – ou não se trabalha nesse sentido.

Em palavras mais próximas da mística comum: ou nos aproximamos de Deus através do amor aos nossos semelhantes, que é imediatamente amor a Cristo e a Deus como Cristo (definição do Céu), ou nos afastamos de Deus através da ausência do amor aos nossos semelhantes, que é imediatamente falta de amor a Cristo e a Deus como Cristo (definição do inferno).

O que sempre foi evidente, mas raramente encarado como tal – talvez porque sempre me vejo como Caim quando olho para o espelho do mundo –, parece agora realmente evidente, agora que me atinge diretamente ou de perto: o bem que acontece, e que não é raro, cada vez mais me conforta, o mal que acontece, e que também não é raro, cada vez mais me agride. Mas sempre foi assim.

Não percebemos, nós, a razão, real, que leva a que certas pessoas apenas recentemente se incomodem com a evidência do mal. Este mal está em nós, "no bem que não fazemos", no amor que não criamos, sempre esteve. Sempre o conheci em mim, desse que me conheço: brincando com Descartes, poderia dizer que «faço o mal, logo existo».

A razão pela qual estudo a guerra e o mal há tantos anos é a evidência segundo a qual há mal em mim, mal potencialmente terrível. Violência inaudita. Graças a Deus inaudita, que me esforço por que nunca seja manifestada.

A educação serve precisamente para que esta possibilidade de mal que nos habita a todos, como universal contrapartida necessária para que possamos escolher fazer o bem, seja trabalhada por cada um de nós em esforçado labor no sentido do bem, do bem não exclusivamente meu, mas de todos, do bem comum, que é o único realmente possível como realizador da humanidade.

É sobre este bem fundador da possibilidade da humanidade que todos os seres humanos se podem encontrar, sobre ele que podem construir a sua comum habitação, amavelmente inclusiva. Qualquer que seja a religião ou irreligião, é sobre esta condição lógica de possibilidade da humanidade que esta se pode entender universalmente.

Ou morrerá.

E, se não for capaz de amar, terá nesta morte a sua justa recompensa.

Compete a cada ser humano escolher se quer ser um ato de amor e de bem ou uma besta que espalha impiedosamente o seu ódio. Antecipar o céu como ato de amor ou viver já no inferno como ato de ódio.

Se não estamos «sem pecado», como temos o atrevimento de «atirar a primeira pedra»?

Não há distância ontológica entre o bem que se faz e o bem que se é quando tal bem se faz. O mesmo diz-se do mal feito. O absoluto do bem feito é eterno, mas o absoluto do mal feito também. Se o malévolo pode ser redimido, para o absoluto do mal feito não há remissão possível, senão magicamente.

Urge, assim, convidar as pessoas a que ponderem bem no que querem que a sua prática seja: queremos mesmo fazer mal? Queremos mesmo ser maus através do mal que fazemos? Se sim, tenhamos a consciência de que o que fizermos ficará connosco para todo o nosso sempre, religiosa ou laicamente entendido.

Toda a violência é obscena.

 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa
Publicado em 16.01.2015

 

 
Imagem Bansky | D.R.
O que constitui a perfeição própria do ser humano não é a "necessidade de fazer o bem", que o reduziria a uma mera sequência mecânica da ação divina, como uma pedra, mas a sua constituição como "ser ético", isto é, como "ser capaz de escolher entre bens possíveis"
A capacidade de perspetivar virtualmente infinitas possibilidades de ação implica que se tenha se receber uma formação que não apenas ensine a replicar comportamentos – perigo das tradições, sem crítica –, mas forneça instâncias de "discernimento crítico"
Quando Deus emite o mandamento de não matar, não está a manifestar um capricho divino apenas porque pode ou lhe apetece. Sem tal princípio orientador absoluto, a humanidade não pode subsistir
O mandamento novo de Cristo transforma num preceito absolutamente positivo a interdição de matar, transformando esta na necessidade de amar para que a humanidade possa subsistir
Ou se ama ou não se ama; ou se promove o bem do outro ou não se promove o bem do outro; ou se trabalha no sentido da vida plena da humanidade – que é o que o amor permite – ou não se trabalha nesse sentido
O bem que acontece, e que não é raro, cada vez mais me conforta, o mal que acontece, e que também não é raro, cada vez mais me agride
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