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Óscares colaram-se ao cinema espiritual

Nestes Óscares de 2018, com sabor mexicano, “A forma da água” e o seu realizador, Guillermo del Toro, foram os triunfadores. Trata-se de uma fábula formosa que tem fortes ressonância espirituais, como indica o poema que encerra o filme: «Incapaz de perceber a tua forma (…) encontro-te à minha volta. A tua presença enche meus olhos com o teu amor, põe humilde o meu coração, porque estás em todo o lado».

A história bíblica de Rute, a moabita fiel, recorda-nos como as pessoas das margens, os sonhadores inadaptados, os buscadores solitários do amor ao outro e os diferentes sem voz são os que têm o poder de mudar o mundo. Guillermo del Toro, sincretista de géneros, transita entre o romance e o terror, a fantasia e a crítica social, o musical e o cinema de espionagem como herdeiro do realismo mágico.

O filme, que ganhou os Óscares para melhor filme, realizador, banda sonora e direção de arte), centra-se no confronto entre o poder dos Donald Trump da guerra fria – a película decorre em 1962 –, encarnado pelos responsáveis, xenófobos, machistas e opressores, de um complexo de investigação norte-americano.

Do lado da água, a princesa limpadora e silenciosa com o seu amante anfíbio e silencioso, acompanhados como fadas madrinhas por um artista homossexual e em decadência, juntamente com uma poderosa companheira negra da protagonista entre as esfregonas. É uma aliança daqueles que descobriram o amor e a ternura com aqueles que os protegem como espécies ameaçadas de extinção.










Semeada de referências cristãs, com ressurreições e sombras crísticas, o filme, concebido para ganhar o Óscar, evoca a relação entre deuses e seres humanos, mostrando também como Sansão e Rute podem sair vencedores. Mas há também toques panteístas, derivados de um tom animista, assim como referências a uma reconstrução da natureza humana.

Contador de histórias fabulosas e de efabulação, amigo da mestiçagem tanto de ideias como de meios que sabe juntar a perícia como realizador, a criatividade como escritor e a astúcia como produtor, Guillermo del Toro filmou o terror gótico em “Cronos” (1993) e “Nas costas do diabo” (2001), forjou o super-herói escondido “Hellboy” (2004) e a sua saga, a par de “O labirinto do fauno” (2006), que o tornou mestre dos contos de fada contemporâneos.

Eclético, o cineasta mistura géneros, ideias e religiões, manifestando mais a coerência estética do que a de sentido, embora permaneça sensível à dimensão espiritual e transcendente no seu cinema de personagens frágeis que vencem os poderosos.

“Três cartazes à beira da estrada”, filme muito mais profundo do que o vencedor do Óscar para melhor filme, foi reconhecido com os Óscares para melhor atriz, com uma imensa Frances McDormand, e melhor ator secundário para Sam Rockwell na sua representação do jovem polícia desnorteado, contraparte da protagonista. [Atenção: “trailer” apresentado seguidamente contém linguagem para adultos.]










É uma história rude sobre a natureza humana repleta de excessos verbais e morais, mas que para além da ira emerge como um mistério o perdão, e onde os mortos ajudam os vivos a suportar a sua dor. Entre as sete nomeações, faltou a distinção, sem dúvida merecida, para o seu realizador, Martin McDonagh.

Gary Oldman vence o seu primeiro Óscar, para melhor ator, pela sua prodigiosa interpretação em “A hora mais negra”. Acompanhado pela estatueta para melhor caracterização, o seu WInston Churchill é um modelo de discernimento em tempos difíceis, mostrando como a coragem, a prudência, a lucidez e a comunicação se concentraram um só ser humano numa hora crucial.

O México voltou a estar em destaque com “Coco”, a quem foram atribuídos os Óscares para melhor filme de animação e melhor canção original. Dedicado ao Dia dos Mortos no país da América Central, a película evoca a família e a confiança no que está para além da vida terrena. É um novo êxito comercial Pixar-Disney em que não se esquece o fundo transcendente da existência.










E assim decorreram os Óscares referentes a 2017, ano em que se assistiu ao paradoxo de se terem exibido grandes filmes com a descida histórica de espetadores nas salas europeias (6,6 milhões). Em breve teremos os Óscares das séries de televisão, ao serviço do camaleão dos negócios que é Hollywood.



 

Peio Sánchez
In Religión Digital
Trad. / edição: SNPC
Imagem: "A forma da água" (fotograma) | Guillermo del Toro | D.R.
Publicado em 06.03.2018

 

 
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