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Os meus filhos, a confiança em Deus e uma vida tão intranquila como entusiasmante

[Da mensagem enviada a um jornal]

«Concordo, e muitos outros disso estarão convencidos, que a baixa da natalidade não está ligada à crise económica, mas a uma mudança cultural que vem de longe. Tenho 65 anos e já quando levava à escola os meus filhos (passaram mais de 30 anos) o trabalho como “dona de casa” era visto como uma desvantagem. Por outro lado, também eu sou herdeira da ideia de que a mulher deve realizar-se no trabalho, na sociedade, e não ser escrava da casa, do marido… Graduei-me, casei-me, pensando que cada um seguisse os seus próprios objetivos com o apoio do outro.

Providencialmente Deus fez-se presente, e um de cada vez chegaram os filhos que literalmente desconcertaram a nossa vida e nos abriram os olhos para as suas prioridades. Mas se não fosse uma palavra que dizia que Deus é o criador e o senhor da vida e que é o seu Espírito que nos dá a força, eu não me abriria à vida. Se não tivesse havido a palavra que nos dizia «olhai as aves do céu… olhai os lírios dos campos… e vós não sois bem mais…?», teríamos desesperado mais do que uma vez, e ao contrário chegou o cêntuplo (como prometido) em vida: 10 filhos, dos quais 10 casados e 29 netos (por agora), Providência, muitos momentos de alegria…

Como compreender que se se perde a vida a reencontramos, se Cristo te dá a graça de te lançares e arriscares nele? Por isso penso que é fundamental promover uma nova cultura da vida, sobretudo com o nosso testemunho de cristãos, fazendo ver que mesmo só a nível humano gerar filhos torna a vida talvez menos tranquila mas muito, muito mais entusiasmante e plena. Haveria muitas coisas a dizer, mas eu quis dar só um bocadinho da minha experiência.»

 

[Da resposta]

«Tempo houve em que as famílias com oito ou 10 filhos eram frequentes. Ninguém se espantava: os filhos chegavam e acolhiam-se. Nos campos os filhos eram também uma riqueza, braços que garantiriam o pão à família. Dez filhos eram um facto normal, assim como era óbvio que a mãe se dedicasse só a eles. Depois chegou a revolução feminina: as mulheres na escola, na universidade, no trabalho. Quem, tendo hoje uma filha, seria capaz de lhe negar esses direitos? Mas naquela revolução o mundo virou-se do avesso, como de resto, simultaneamente, com o advento dos anticoncecionais.



Mas nunca tiveram medo, aqueles dois? De quanta comida, roupa, sapatos, livros precisariam 10 filhos? Eu, confesso, teria tido medo. Àqueles pais, no entanto, aconteceu algo diferente, que é difícil compreender



Em Portugal há 1,36 filhos por mulher em idade fértil (2016). A senhora que nos escreve passou, desde jovem, por aqueles anos em que dizer-se “dona de casa” era um contra, e percebeu o impulso para realizar-se num trabalho, como toda a sua geração. Mas depois, o que aconteceu? “Providencialmente Deus fez-se presente e um de cada vez chegaram os filhos que literalmente desconcertaram a nossa vida e nos abriram os olhos para as suas prioridades”. Deus fez-se presente, não sabemos através de que rostos, e aquela família saiu dos carris habituais em que o final do século XX a queria dirigir.

Ano após ano um filho, outro, ainda outro. Mas nunca tiveram medo, aqueles dois? De quanta comida, roupa, sapatos, livros precisariam 10 filhos? Eu, confesso, teria tido medo. Àqueles pais, no entanto, aconteceu algo diferente, que é difícil compreender: “Se se perde a vida, reencontramo-la, se Cristo te dá a graça de te lançares e arriscares nele”. Só se percebe que por trás destas palavras há uma confiança total, que Deus foi escolhido contra toda outra lógica. Maior que qualquer lógica, que qualquer cálculo humano. “Providência” é uma palavra usada pela senhora. Evidentemente, como afirmava Manzoni, ela existe e trabalha em famílias como esta, tão totalmente certas de que o seu apoio está em Deus.

As famílias “normais” pensam nos seus empréstimos, nas contas, nos encargos, nas doenças, e não se capacitam de como podem fazer. Todavia aquela família de 10 filhos e 29 netos (“por agora”, precisam) conseguiu-o. Como é possível? Deve haver um segredo. Lançar-se em Deus, dizem. Isso requer grande fé e audácia. Nem todos somos capazes. Mas a todos serve este testemunho: “Gerar filhos torna a vida talvez menos tranquila mas muito, muito mais entusiasmante e plena”. Disto pode-se estar certo. Dentro desta certeza, um pouco de confiança poderia espalhar-se nas casas portuguesas e contagiá-las, e pelo menos duplicar, ou triplicar, o berço único: baseando-se não só nas contas, mas no desejo mais verdadeiro e bom, e na confiança num Deus que não abandona.»



 

Marina Corradi
In Avvenire
Trad. / adaptação: SNPC
Imagem: Nyul/Bigstock.com
Publicado em 01.03.2018

 

 
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