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Os intelectuais do séc. XX fascinados por Cristo

Filósofo, matemático, escritor (Nobel 1950 da literatura) mas sobretudo agnóstico, tanto que intitulou um seu ensaio de 1927 “Porque não sou cristão”: será precisamente o próprio Bertrand Russell o autor, em 1918, de um escrito surpreendente logo desde o título, “Misticismo e lógica”. Nessas páginas, sem hesitação ou embaraços, declarava que «os maiores filósofos sentiram a necessidade quer da ciência quer da mística». E tentava também uma definição desta realidade aparentemente tão fluida e alérgica a toda a chancela classificativa: «A mística é, em substância, pouco mais do que uma certa intensidade e profundidade de sentimento em relação àquilo que se pensa sobre o universo».

É um facto que a espiritualidade, com a sua original gramática móvel, conquistou muitas vezes personagens à primeira vista urticantes em relação à religião, talvez por causa de algumas experiências dececionantes da juventude. É o caso, por exemplo, de outro Nobel literário (1947), André Gide, em duelo contínuo com a sua matriz huguenote, como se evidencia das frequentes referências bíblicas dos títulos das suas obras: “O regresso do filho pródigo”, “Se o grão não morre…”, “A porta estreita”, “Saul”, Numquid et tu?”, “O imoralista” e assim por diante. Num dos seus primeiros romances, “Os falsários” (1925-26), exploração dos segredos contraditórios da alma perfurando os véus da hipocrisia puritana, não hesitava em escrever: «Sem a mística não se alcança nada de grande». E o frémito da espiritualidade invadia o autobiográfico “Numquid et tu?”: «Penso que não se trata tanto de crer nas palavras de Cristo porque Cristo é o filho de Deus, mas de compreender que Ele é filho de Deus porque a sua palavra é bela acima de toda a palavra humana, e daqui reconheço que é o filho de Deus».



A espiritualidade é tendencialmente afetiva, baseada não no irracional mas numa metarracionalidade, à maneira das «razões do coração» propostas por Pascal



É por isso que, antes de percorrer as páginas bíblicas segundo o estilo específico da interioridade espiritual, queremos abrir só um rasgo neste horizonte tal como foi entrevisto por figuras à primeira vista a ele estranhas. É também uma forma de sublinhar o relevo que reveste a espiritualidade na cultura atual, aparentemente tão secularizada e alérgica a temas semelhantes. É verdade que o tema foi abordado também por intelectuais crentes. Para evocar alguns exemplos, pensemos no debate, em 1925, entre os filósofos Maurice Blondel e Jacques Maritain em torno do “problema da mística”, ou noutro grande pensador como Henri Bergson, com as reflexões presentes na sua obra-prima “As duas fontes da moral e da religião” (1932), enquanto que o jesuíta Joseph Marechal tentava a interlocução entre psicologia e espiritualidade com a sua obra “A psicologia dos místicos” (1924).

Nós, porém, teremos de ampliar o alcance dos agnósticos tentados por esta mesma experiência, a partir da extraordinária visão «de olho fechado» (mas esta locução hebraica, aplicada ao mago Balaão em Números 24, 3, significa na verdade «de olho penetrante») do escritor argentino Jorge L. Borges, para regressar a Voltaire, admirador da “Imitação de Cristo”, um dos clássicos da espiritualidade, cujas «palavras são como fogo oculto na pedra», para chegar ao conhecido ensaísta e crítico francês Roland Barthes, que considerava os “Exercícios espirituais” de Santo Inácio de Loyola um excecional palimpsesto da alma: «Não é preciso ser nem católico nem cristão nem crente nem humanista para se estar interessado nesta obra»).



«Como se descobre Deus? Tornando branco o coração com a meditação silenciosa. Não tornando negro o papel com escritos religiosos. Não tornando espesso o ar com as palavras espirituais»



Aqui chegados pode perguntar-se qual é o imã que atrai por vezes pessoas remotas da prática religiosa e até indivíduos apáticos no que respeita a temas religiosos, e todavia prontos a devorar as palavras de gurus exoticamente místicos ou, mais seriamente, a interrogar-se sobre o vento do Espírito que sopra onde quer (cf. João 3, 8). Não é possível isolar uma resposta homogénea, até porque – não obstante o oceano bibliográfico crítico dedicado a um igual vasto mar textual – é difícil elaborar uma definição deste fenómeno de infinitas iridescências. Não é por acaso, por exemplo, que a palavra “mística” tem na raiz o verbo grego “myêin”, que exige um fechar os lábios ou os olhos, calando, sendo o objeto a conhecer o “mistério”.

Um dos mais elevados escritores místicos, o espanhol do séc. XVI S. João da Cruz, na sua “Subida ao Monte Carmelo”, introduzia um cume de vertigem ritmada sobre a dialética paradoxal antitética Nada/Tudo: «Para chegares a saborear tudo,/ não queiras ter gosto em coisa alguma./ Para chegares a possuir tudo,/ não queiras possuir coisa alguma./ Para chegares a ser tudo,/ não queiras ser coisa alguma./ Para chegares a saber tudo,/ não queiras saber coisa alguma». Ignorando as fronteiras étnico-culturais e religiosas, a espiritualidade replica também no Oriente esta mesma intuição apofática (mas não afásica) num texto indiano: «Como se descobre Deus? Tornando branco o coração com a meditação silenciosa. Não tornando negro o papel com escritos religiosos. Não tornando espesso o ar com as palavras espirituais».

A inefabilidade e o cume místico e, precisamente por isso, como sugeria o filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein (1889-1951), aquele de quem não se pode falar, deve-se narrar. Usando livremente o acrónimo NOMA, dos “Non Overlapping Magisteria”, ou seja, dos estatutos de conhecimento “não sobreponíveis”, proposto pelo cientista norte-americano Stephen Gould (1941-2002) para o nexo entre ciência e religião, podemos dizer que a mística privilegia não a definição teórica (que também está presente: pense-se no célebre autor medieval Mestre Eckhart), mas a descrição experiencial, a “cognitio experimentalis de Deo”, como já sugeriam S. Tomás de Aquino e S. Boaventura.

A espiritualidade é tendencialmente afetiva, baseada não no irracional mas numa metarracionalidade, à maneira das «razões do coração» propostas por Pascal (pense-se, por exemplo, em Hildegarda de Bingen, Juliana de Norwich e Matilde de Magdeburgo, entre outros). É isto que afirmava Jean Gerson, que viveu entre os séculos XIV e XV e ensinou na universidade de Paris: «Aqueles que nunca fizeram a experiência interior de Deus, nunca poderão saber intimamente o que é a teologia mística, como quem nunca tivesse amado nunca poderia dizer com perfeito conhecimento de causa o que é o amor». Nesta frase temos já um dos percursos mais lineares para intuir esse “magistério” não sobreponível à pura e simples racionalidade e à sua lógica formal.


 

Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura
In Avvenire
Trad.: SNPC
Imagem: Roland Barthes | D.R.
Publicado em 12.01.2018

 

 
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