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Os frescos de Dura Europos, das primeiras imagens cristãs

Os frescos de Dura Europos, das primeiras imagens cristãs

Imagem Cura do paralítico | © Yale University Art Gallery

Nos confins da Síria, nas margens do Médio Eufrates, a pequena cidade fronteiriça de Dura Europos é uma das maiores testemunhas da arte dos primeiros cristãos. Com a sua casa cristã e os seus frescos, narra os inícios dos edifícios cultuais nas cidades romanas e a sua rica iconografia.

Apresentados na exposição “Cristãos do Oriente, 2000 anos de história”, dois frescos conservados na galeria de arte da Universidade de Yale, EUA, são obras de exceção.

A imagem acima representa uma cena em dois tempos. Em primeiro lugar, à direita, um personagem masculino, jovem, estende a mão para um homem estendido num leito. À esquerda, este transporta o seu leito às costas, dando alguns passos. Se o estilo é sumário, o fiel cristão pode facilmente reconhecer a cena da cura do paralítico descrita no Evangelho de Marcos (2, 1-12).

O segundo fresco, fragmentário, deixa aparecer uma barca onde se acumulam personagens. Nas suas ondas estilizadas estão representados dois homens, um deles agarrando o outro pelo pulso: Cristo salva Pedro de naufragar (Mateus 14, 22-33).



Imagem Jesus caminha sobre as águas | © Yale University Art Gallery



Situados ao longo das paredes do batistério na casa cristã de Dura Europos, estes frescos incarnam o benefício da solicitude divina à qual aspira o catecúmeno que está prestes a receber o sacramento do Batismo.

Enquanto que numerosos lugares de culto antigo foram destruídos aquando das perseguições na passagem dos séculos III-IV, a casa de Dura Europos, deliberadamente enterrada nas vésperas da ocupação dos persas em 256, faz figura de exceção.

Situado contra as muralhas da cidade, uma parte do edifício, completado por um ciclo de pinturas murais datadas de 232, possui uma verdadeira dimensão religiosa: o batistério.

A arquitetura poderia confundir-se com a sinagoga judaica, dado que retoma o plano basilical preparado para o culto e a bema, área de santuário situada na nave. Mas os traços traduzem já as novas necessidades da liturgia cristã.

Com efeito, a casa já não está orientada para Jerusalém, mas para o Oriente, onde o sol se ergue, símbolo da parusia, a última vinda de Jesus, no fim dos tempos, na qual se foca especialmente o tempo litúrgico do Advento.



Imagem © Yale University Art Gallery



Quanto à abside (espaço da nave oposta à entrada da igreja), abrigando tradicionalmente o arco, está dotada de uma Mesa que se torna o centro da religião cristã, com a presença divina a revelar-se na Eucaristia. O seu tanque indica a vocação batismal do local.

Recorde-se que ao tempo o cristianismo era ilícito, pelo que as celebrações litúrgicas não eram realizadas em lugares de culto mas em casas de particulares.

Estes frescos inscrevem-se num programa iconográfico rico, hierarquizado e coerente com a função do espaço.

Acima da pia batismal, as silhuetas de Adão e Eva rodeiam a figura de Cristo Bom Pastor, enquanto que nas paredes se desenvolve uma iconografia que tem como função a educação cristã do catecúmeno, ou seja, a pessoa que se preparava para ser batizada.



Imagem Reprodução de Cristo Bom Pastor (registo superior) e Adão e Eva (registo inferior) | © Yale University Art Gallery



Indiferente ao detalhe e à expressão individual, o estilo sumário dos frescos mostra uma negligência por vezes surpreendente na representação dos acontecimentos bíblicos. A formação das primeiras imagens cristãs ocorre tardiamente, fazendo face a uma aversão pelo visível, encorajado pelo interdito bíblico de representar Deus, o temor da idolatria pagã e as numerosas perseguições que ocorreram no Império Romano. As primeiras imagens cristãs, como em Dura Europos, são por isso “imagens-sinais”, que sugerem mais do que mostram.

Esta casa cristã é excecional a vários títulos, dado que poucos santuários com programas iconográficos tão ricos foram descobertos depois. Ela atesta uma evolução maior, que se encontra igualmente no judaísmo do mesmo período: o aparecimento de imagens religiosas.



 

Olivia Guiragossian
In "Narthex"
Trad.: SNPC
Publicado em 01.12.2017

 

 

 
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