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Os enviados de Cristo

Imagem Cristo envia os discípulos (det.) | James Tissot

Os enviados de Cristo

Naquele tempo, designou o Senhor setenta e dois discípulos e enviou-os dois a dois à sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir. E dizia-lhes: «A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi ao dono da seara que mande trabalhadores para a sua seara. Ide: Eu vos envio como cordeiros para o meio de lobos. Não leveis bolsa nem alforge nem sandálias, nem vos demoreis a saudar alguém pelo caminho. Quando entrardes nalguma casa, dizei primeiro: ‘Paz a esta casa’. E se lá houver gente de paz, a vossa paz repousará sobre eles; senão, ficará convosco. Ficai nessa casa, comei e bebei do que tiverem, que o trabalhador merece o seu salário. Não andeis de casa em casa. Quando entrardes nalguma cidade e vos receberem, comei do que vos servirem, curai os enfermos que nela houver e dizei-lhes: ‘Está perto de vós o reino de Deus’. Mas quando entrardes nalguma cidade e não vos receberem, saí à praça pública e dizei: ‘Até o pó da vossa cidade que se pegou aos nossos pés sacudimos para vós. No entanto, ficai sabendo: Está perto o reino de Deus’. Eu vos digo: Haverá mais tolerância, naquele dia, para Sodoma do que para essa cidade». Os setenta e dois discípulos voltaram cheios de alegria, dizendo: «Senhor, até os demónios nos obedeciam em teu nome». Jesus respondeu-lhes: «Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago. Dei-vos o poder de pisar serpentes e escorpiões e dominar toda a força do inimigo; nada poderá causar-vos dano. Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem; alegrai-vos antes porque os vossos nomes estão escritos nos Céus». (Lc 10, 1-12.17-20, Evangelho do 14.º Domingo do Tempo Comum)

Quando Lucas recorda e narra esta página do seu Evangelho, tem diante de si a fervorosa missão dos primeiros cristãos que andavam de cidade em cidade, na bacia do Mediterrâneo, anunciando com algum sucesso a boa notícia. Sim, é o "Kýrios", o Senhor, que age com poder, e por isso também na narração o evangelista designa Jesus precisamente com este título.

Jesus já tinha enviado os Doze (cf. Lucas 9, 1-6), por Ele escolhidos e chamados "apóstoloi", missionários-enviados, mas agora envia outros 72, tantos quantos o número dos gentios habitantes da Terra segundo a mesa das nações de Génesis 10 (na versão grega dos LXX). Envia-os à sua frente como precursores e preparadores da sua próxima vinda: aquilo que João Batista tinha feito antes que Jesus se manifestasse a Israel (cf. Lucas 3, 1-18), agora fazem-no os discípulos, para que o Senhor encontre os corações prontos a acolher a boa notícia do Reino de Deus.

Esta missão, como as outras realizadas por Jesus, precisava de homens que, na realidade, não havia ou não eram suficientes: o campo do mundo é vasto, enquanto que os possíveis enviados são poucos. Jesus entrevê a messe abundante, os campos que se aloiram, mas constata a escassez dos operários que deveriam fazer a colheita. Foi assim ao tempo de Jesus, foi assim ao longo da história da Igreja, é assim também hoje! Ninguém pense que houve tempos com abundância de enviados: quanto muito houve tempos favoráveis ao alistamento de “mercenários”, de lavradores pouco convencidos do trabalho, que o faziam sem terem sido enviados pelo Senhor… Às vezes há uma multidão a caminho da ceifa, mas não se diz que depois a colheita seja abundante nem que os enviados sejam capazes de ceifar.

Por isso é preciso rezar a Deus para que seja Ele a chamar e a enviar operários, porque a messe ou a vinha é sua e nem todos aqueles que nela trabalham foram chamados. É preciso rezar, sim, rezar, para que o Senhor com o seu Espírito chame, não inventar missões que o Senhor nunca sonhou confiar-nos, não impondo a alguém uma missão que o tornará não num santo mas em mais um miserável! O chamamento de um missionário acontece por causa da oração da Igreja, a missão deve brotar sempre da oração (cf. Lucas 6, 12-14), o trabalho da colheita deve ser realizado na oração.

Eis, então, o mandato que diz o que faz e que estilo deve adotar o enviado de Jesus, mas que nos faz também compreender por que é que os operários são poucos… Como é possível que sejam muitos aqueles a quem é pedido o que Cristo pede? Se fossem muitos, seria de duvidar da sua real conformidade a estas exigências radicais. Jesus envia os discípulos dois a dois, para que vivam antes de tudo em comunhão e sejam um o apoio para o outro, um regra para o outro nas tentações; dois a dois para que a missão não seja uma ação de homens singulares e individualistas. Envia-os como ovelhas entre os lobos, isto é, desarmados, fracos, frágeis, conscientes de estar entre aqueles que se opõem ao Evangelho de Jesus Cristo; ovelhas entre os lobos também para testemunhar que dessa forma os enviados preparam o dia escatológico em que «o lobo viverá juntamente com o cordeiro» (Isaías 11, 6).

Jesus detém-se a explicar de modo particular o estilo do discípulo enviado por Ele, o Senhor, e dele totalmente dependente. Não será como alguns missionários fariseus, nem como os filósofos itinerantes, nem como os rabinos visitadores. Será sobretudo como o levita do Salmo 16, que na sua pobreza proclama: «O Senhor é minha porção e meu cálice» (v. 5), porque confiará só no Senhor. Será pobre, não mísero, mas sem dinheiro consigo, sem seguranças para a viagem, e realizará sobretudo um contacto celular, entrando nas casas, encontrando nos caminhos aqueles que procuram a vida plena. A esses, «filhos da paz», da vida em plenitude, os enviados desejam o “shalom”, a paz, e com eles estabelecem relações humaníssimas: comendo e bebendo à sua mesa, sem a obsessão da pureza das pessoas e dos alimentos… Em todos os enviados deve reinar e manifestar-se a gratuidade, que expressarão também assumindo o cuidado gratuito dos outros, curando os doentes no corpo, na mente e no espírito, e anunciando a todos que o Reino se Deus se aproximou.

O que espanta neste envio dos discípulos é que Jesus não pede que façam grandes coisas, poderosas, mas que vivam humanamente as relações, infundindo em todos a confiança e a esperança que é possível para fazer reinar Deus nas nossas pobres vidas. Mensagem brevíssima - «o Reino de Deus está próximo» -, comportamento exigente, que deve ser sinal dele, Jesus, o pobre, o manso, o amigo dos publicanos e dos pecadores, que veio para servir e para gastar a vida por todos os seres humanos. Trata-se de viver como Jesus que, «de rico que era, se fez pobre por nós» (cf. 2 Coríntios 8, 9); como Jesus que, de santo que era, ficou junto dos pecadores (cf. Lucas 19, 7); como Jesus, que anunciou o “shalom” como boa notícia (cf. Atos 10, 36).

Há, além disso, uma advertência que nasce da experiência na Igreja nascente: o missionário, o pregador, procure ficar onde é acolhido. Porquê esta precisão? Porque são os pobres que acolhem mais facilmente, enquanto que os ricos acolhem quem conheceram, daí o risco para um missionário é o de começar entre os pobres e acabar entre os ricos, sobretudo se se mostra rico de dons… Pode também acontecer que o missionário tenha um certo sucesso, que o seu ministério lhe obtenha possibilidades e atenções da parte de muitos, entre os quais aqueles que contam, os ricos. O missionário é enviado a todos, precisamente a todos, encontra todos, e por isso deve vigiar para não acabar por ser concorde e amigo de quem conta, mas longe dos pobres e dos simples crentes do quotidiano.

Sucede, todavia, também a possibilidade de não ser acolhido numa cidade, por alguns. Nesse caso, nenhuma vingança, nenhuma ofensa, nenhum rancor: na liberdade, o enviado sacudirá o pó dos seus pés, exprimindo com esse gesto não querer sequer o pó dessa gente. No dia do juízo, será o Senhor a julgar, e invocando esse dia Jesus dirige-se sobretudo à cidade que amou e onde escolheu residir durante o seu ministério público: Cafarnaum. Jesus amava aquela cidade e quantos a habitavam, mas precisamente nela tinha registado o falhanço da sua missão na Galileia. Por isso adverte-a: o antigo oráculo do profeta Isaías contra Babilónia (cf. 14, 13-15) poderá dizer-lhe também respeito (cf. Lucas 10, 15)! Estas palavras de Jesus que se seguem ao envio são o seu lamento pelo seu amor frustrado pela cidade destinatária da sua missão, pregação e ação libertadora.

Em seguida os 72, enviados às cidades e tendo desempenhado os seus mandatos, regressam a Jesus cheios de alegria porque conseguiram tirar terreno a Satanás, dominando as forças maléficas e demoníacas. Jesus sente então, dentro de si, a verdade da sua missão: Satanás que cai pela ação não só sua, mas também daqueles que Ele enviou e aos quais deu “dýnamis”, força. Mas os discípulos – diz-lhes Jesus – não devem estar na alegria por causa do poder recebido ou do bem que realizaram, mas por causa da comunhão que têm com o próprio Jesus, agora na Terra e depois no Reino de Deus («os nomes escritos nos Céus»…). A verdadeira esperança dos discípulos-missionários não repousa no sucesso da missão mas na comunhão de vida com o Senhor, de quem nenhum deles poderá alguma vez ser separado: nenhum falhanço, nenhuma perseguição, nem sequer a morte poderá separar os enviados do amor de Cristo (cf. Romanos 8, 35.37)!

Esta página evangélica poderá parecer radical, severa nas exigências relativas ao estilo missionário, mas na verdade para cada enviado trata-se de ser filho no Filho, vivendo a missão que o próprio Filho recebeu do Pai quando por Ele foi enviado ao mundo. Basta referir-se à missão de Jesus e não inventarmos nós missões, sobretudo num ambiente como o atual: há uma tal tensão para a evangelização dos outros que já se deixou de ver se o enviado é evangelizado ou não, se se assemelha ao seu Senhor ou se, pelo contrário, está preocupado com o número de ouvintes e com o resultado da sua propaganda do produto.

 

Enzo Bianchi
Prior do Mosteiro de Bose, Itália
In "Monastero di Bose"
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 30.06.2016

 

 
Imagem Cristo envia os discípulos (det.) | James Tissot
Como é possível que sejam muitos aqueles a quem é pedido o que Cristo pede? Se fossem muitos, seria de duvidar da sua real conformidade a estas exigências radicais
Mensagem brevíssima - «o Reino de Deus está próximo» -, comportamento exigente, que deve ser sinal dele, Jesus, o pobre, o manso, o amigo dos publicanos e dos pecadores, que veio para servir e para gastar a vida por todos os seres humanos. Trata-se de viver como Jesus que, «de rico que era, se fez pobre por nós»
A verdadeira esperança dos discípulos-missionários não repousa no sucesso da missão mas na comunhão de vida com o Senhor, de quem nenhum deles poderá alguma vez ser separado: nenhum falhanço, nenhuma perseguição, nem sequer a morte poderá separar os enviados do amor de Cristo
Esta página evangélica poderá parecer radical, severa nas exigências relativas ao estilo missionário, mas na verdade para cada enviado trata-se de ser filho no Filho, vivendo a missão que o próprio Filho recebeu do Pai quando por Ele foi enviado ao mundo. Basta referir-se à missão de Jesus e não inventarmos nós missões, sobretudo num ambiente como o atual
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